O hard rock brasileiro começa a renascer em São Paulo

Estadão

23 de agosto de 2013 | 06h48

Marcelo Moreira

Muita gente tentou, mas esbarrou no preconceito generalizado e na desinformação. Quem se aventura a fazer hard rock no Brasil, em especial aquele semelhante ao que era feito na Califórnia nos anos 80 – Motley Crue, Poison, Ratt, Cinderella e outros -, sabe que terá mais dificuldade do que o que já seria difícil. Tanto que é quase impossível lembrar de algum bom nome do subgênero – quem saber os gaúchos do Savannah? E com isso o grande Golpe de Estado continua reinando absoluto no segmento.

O interesse das bandas e do público foi despertado neste ano, com o anúncio no primeiro semestre de que a banda paulistana Kiara Rocks tocará no Rock in Rio 2013. Grupo com alguns anos de batalha, mas ainda pouco conhecido até o final do ano passado, ganhou notoriedade ao lotar várias casas de show pela região Sudeste desde 2012. Apesar do visual de metalcore, seus integrantes fazem um hard rock honesto e consistente, em português e com guitarras bem pesadas.

À primeira houve quem enquadrasse a banda no “movimento” emo. Desconhecimento total. As referências são o que de melhor se fez no hard rock norte-americano nos anos 80, com letras pouco ousadas e muitas vezes esbarrando nos clichês românticos do gênero, mas perfeitamente inseridas no contexto geral que resolveram seguir.

O que impressiona é o profissionalismo e a clareza do caminho a seguir. Gerenciados pela Base 2 Produções, de Monika Cavalera – a mesma empresa do Sepultura -, o Kiara acaba de lançar seu segundo álbum, “Daqui por Diante”, pela Substancial Music. É o primeiro trabalho sem ser independente. Agora em outro patamar, a banda terá muito mais responsabilidade com a apresentação no Rock in Rio. “Estamos preparados para o desafio, inclusive eventuais vaias de um público que é mais extremo e gosta de coisas muito mais pesadas. Lutamos muito para chegar onde estamos e o que vem pela frente vai ser encarado com a mesma seriedade”, brada o vocalista Cadu Pellegrini.

Não há como não admitir que as duas porradas que abrem o novo CD, “Sinais Vitais” e “Não Vai Adiantar” são exemplares benfeitos de um rock festivo e alegre, feito para dançar e agitar as plateias. Não há baladas, tudo é acelerado e urgente, com guitarras na cara e boas ideias melódicas. Nada nem remotamente parecido com emo. Das duas músicas, duas são em inglês, “Mr. Scarecrow”, interessante rock básico com algumas passagens acústicas, e a versão para “Save a Prayer”, do Duran Duran, com uma levada quase hardcore. O final, com “Nada a Perder” e “Quando Menos Esperar”, surpreende pelo clima mais solto e menos reto, lembrando em algumas passagens o hard do final dos anos 70, época em que o Aerosmith dominava.

Não dá para saber se os bons resultados artísticos do Kiara Rocks tiveram alguma influência, mas o fato é que outra banda paulistana, o Sioux 66, trilha o mesmo caminho, apostando também no português. E o quinteto é ambicioso, pois já em sua estreia em CD recrutou ninguém menos do que Brendan Duffey, do Norcal Studios, de São Paulo, para fazer a produção de “Diante do Inferno”, que será lançado em setembro. Duffey é hoje referência de produção em rock pesado no Brasil. Com tais credenciais, não surpreende que a banda seja o primeiro lançamento da Wikimetal Music, a gravadora do grupo multimídia Wikimetal recém-criada.

Os clichês do hard rock estão lá, mas a banda não economiza na agressividade, influência direta de Motley Crue e Guns N’ Roses. As guitarras são afiadas, mas o baixo está bem na frente, engordando o som e mostrando que o grupo não se intimida em mergulhar no puro heavy metal em algumas passagens. “Diante do Inferno”, “Porcos” e “Mundo Resistência” são os destaques, com um trabalho diferenciado do vocalista Igor Godoi, que consegue variar o timbre de sua voz com uma facilidade impressionante.

O som do Sioux 66 é mais pesado e mais trabalhado mas, diferentemente do Kiara Rocks, caiu de cabeça nas baladas, que sempre caracterizaram o gênero. “Diversas Palavras” e “Seus Olhos Não Brilharão Mais” têm praticamente a mesma estrutura, variando apenas nas melodias que sustentam os refrões. São boas músicas, mas por demais calcadas na estrutura intro pesada-calmaria-refrão mais acelarado-calmaria. Claro que não era o caso de exigir a criação de um épico, mas a impressão que deu foi que as baladas são muito parecidas.

Mesmo com esse pequeno tropeço, “Diante do Inferno” é um álbum interessante, benfeito e muito bem gravado, com músicos talentosos e jovens. “Nossas primeiras músicas autorais tiveram bastante aceitação em nossos shows e decidimos partir com tudo para gravar este primeiro CD. Queríamos que a produção deixasse nossas músicas tinindo e ficamos extremamente felizes com o resultado”, afirma o vocalista Igor Godoi.

Já o guitarrista Bento Mello destaca a importância de trabalhar com um produtor experiente na hora de registrar solos e “duelos” em uma banda com dois guitarristas. “Brendan Duffey nos ajudou a encontrar os melhores timbres do instrumento. É bastante detalhista e franco, sempre com o objetivo de ajudar e tirar o máximo de cada instrumentista. É um prazer trabalhar com um profissional deste porte.”

Quem opta por outra direção dentro do hard rock também está se dando bem, como é o caso da banda Slippery. Cantando em inglês, o modelo de inspiração aqui é a banda canadense Triumph, um dos excelentes grupos dos anos 70 que faziam um rock mais pesado – embora aqui e ali seja possível identificar ecos e sonoridades típicas das bandas californianas oitentistas. Guitarras poderosas, músicas bem feitas e um astral para cima garantem a diversão do ouvinte.

Não é nada do outro mundo, e não espere hits atrás de hits no álbum lançado no ano passado. Entretanto, é um trabalho honesto e executado por músicos exímios em seus instrumentos. O vocal de Fabiano Drudi é potente e rasgado, mas à primeira audição parece deslocado, mas é mera impressão. Seu timbre ora lembra Spike, dos Quireboys, ora o de Don Dokken.
 Entre os destaques estão as músicas “Follow Your Dreams”, “Two Young Hearts” e “The First Blow”. Outro ponto que chama a atenção em First Blow é a inclusão de um cover para “Night Of The Demon” da banda britânica Demon, uma das representantes do movimento “New Wave Of Britsh Heavy Metal”.
 É um trabalho interessante e convincente, com uma ressalva: o vocal parece levemente mais baixo do que o instrumental em várias passagens, mas nada que desqualifique a obra.
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E quem também está se aventurando na área do hard rock é o baterista Ivan Busic, do Dr. Sin, veterana banda brasileira que transita com extrema competência entre o hard e o heavy metal tradicional. Com o CD “Rock’n Road” prestes a chegar às lojas, o instrumentista se revela um ótimo vocalista e inspirado compositor, ainda que seu “hard” caia mais para o pop/ AOR (sigla em inglês para álbum voltado para adultos), com melodias fáceis e letras bem construídas, ora lembrando o Journey, ora o Survivor, só que sem os excessos de produção. É o que se pode observar em “The Love I Never Had”, a primeira música divulgada, disponível no YouTube.
O álbum de Busic, produzido pelo irmão Andria, baixista do Dr. Sin, é quase que um CD da banda, que já que o guitarrista Edu Ardanuy, que completa o trio, também toca em quase todas as faixas. Andria faz todos os backing vocals e também toca baixo. Tudo em família, mas com uma pegada diferente, menos pesada e mais rocker.
Essa facilidade de trabalhar em diferentes áreas já tinha se manifestado no CD solo do tecladista Rodrigo Simão, “2012”, de orientação mais progressiva, quando o Dr. Sin tocou em todo o álbum, servindo de base para as boas canções do instrumentista. Versatilidade, aliás, é a principal marca do trio paulistano, capaz de transitar da balçada mais pop e comercial até o heavy tradicional mais intrincado. A julgar pela primeira música, “Rock’n Road” deverá entrar na lista de candidato a um dos melhores discos do ano.

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