O fotógrafo pioneiro do mundo pop

Estadão

19 de abril de 2013 | 07h00

Antonio Gonçalves Filho – O Estado de S.Paulo

A vida na ‘swinging London’ dos anos 1960 foi tema de dezenas de fotógrafos, de David Bailey, 75, a Brian Duffy (1933-2010), ambos conhecidos por suas fotos de moda, mas um dos pioneiros a registrar a cena pop musical da capital inglesa foi mesmo Terry O’Neill, 75, que abre hoje, às 19 h, no piso térreo do Shopping Cidade Jardim, uma exposição com os últimos 40 anos de sua produção, das primeiras fotos dos Beatles a Amy Winehouse. Rockstars, a mostra produzida pela Galeria Lume com curadoria de Paulo Kassab Jr., traz 22 imagens de músicos que marcaram a história do rock. O’Neill ficou amigo de todos eles, assinando capas de discos para David Bowie (Diamond Dogs) e Elton John (A Single Man), entre outros. Foi também casado (entre 1983 e 1987) com uma estrela, Faye Dunaway, que conheceu no dia em que ela recebeu o Oscar de melhor atriz por Rede de Intrigas (Network).

 

David Bowie: o andrógino cantor na capa da conceitual Diamond Dogs, disco de 1974 - Terry O'Neill/Divulgação
Terry O’Neill/Divulgação
David Bowie: o andrógino cantor na capa da conceitual Diamond Dogs, disco de 1974

 

É de O’Neill uma das melhores fotos de Faye Dunaway, feita na madrugada do dia 29 de março de 1977, à beira da piscina do Beverly Hills Hotel, onde estava hospedada. “Não queria fazer uma foto convencional, dessas em que o vencedor aperta o Oscar entre as mãos”, conta o fotógrafo. Ele, então, propôs à futura esposa que relaxasse. A atriz se deixou fotografar de peignoir e salto alto, esparramada na cadeira, pisando sobre os jornais do dia com cara de tédio e praticamente ignorando a estatueta do Oscar sobre a mesa. Não era para ser uma foto conceitual, mas acabou virando ícone de museu: uma das cópias está na National Portrait Gallery de Londres.

The Who

O’Neill, que ganhou notoriedade por registrar seus personagens fora do estúdio, em busca de uma relação mais natural com o ambiente, começou sua carreira profissional em 1959, fotografando para o Daily Sketch, então o principal jornal ilustrado de Londres. Foi graças a um feliz incidente que o jornal o contratou. Tinha 21 anos e já havia desistido de fazer carreira como baterista de jazz quando, trabalhando como trainee da extinta Boac (hoje British Airways) no aeroporto Heathrow de Londres, fotografou com sua Agfa um homem tirando uma soneca no banco de espera. “Eu só não sabia que ele era Rab Butler, ministro do Exterior”, conta, rindo. O Sunday Dispatch, que parou de circular em 1961, publicou a foto na primeira página – provavelmente com a perversa intenção de usar Butler como metáfora, mostrando como o governo inglês dormia no ponto.

Visitando o Brasil pela primeira vez, O’Neill fez questão de fotografar seu ídolo, Pelé. “Ele é mesmo carismático, me faz lembrar Nelson Mandela, com quem passei uma semana para realizar uma série de fotos que registrou seus 90 anos, em 2008.” No mesmo ano, Amy Winehouse posou para O’Neill e mandou a foto autografada para Mandela. O fotógrafo também passou pelo Palácio de Buckingham para clicar a rainha e já apontou sua câmera para outras personalidades do mundo político, entre elas Winston Churchill e Margaret Thatcher, além de celebridades do mundo do esporte como o boxeador Muhammad Ali, flagrado durante treino em Dublin. Seu negócio, porém, são os músicos.

Ele até tentou ser produtor de cinema, mas o filme, Mamãezinha Querida (Mommie Dearest, 1981), estrelado por Faye Dunaway, foi um fiasco artístico tão grande que ele desistiu, felizmente, de continuar a carreira. Por coincidência, Faye Dunaway, que mentiu durante anos ser a mãe biológica do filho do fotógrafo – na verdade, adotado – interpreta no filme a atriz Joan Crawford, que, neurótica e alcoólatra, maltratava a filha adotada, Christina. O’Neill só voltaria ao cinema como fotógrafo de cena em Ária, stravaganza dirigida por dez autores, entre eles Robert Altman, Jean-Luc Godard, Ken Russell e Nicholas Roeg.

O’Neill, que havia descartado a moda – “é muito aborrecido fotografar modelos” -, passou pelo cinema como um meteoro e voltou a clicar astros da música. Quando resolveu virar freelancer, foi para os EUA tentar a sorte e ficou íntimo de ídolos como Fred Astaire e Frank Sinatra, a ponto de fotografar o último durante as filmagens do policial A Mulher de Pedra (1968), cercado por seus seguranças mafiosos. “Nunca tive problemas para fotografar Sinatra, até porque naquela época os homens da publicidade não tentavam controlar os passos dos fotógrafos.” Foi assim que ele flagrou o shakespeariano Laurence Olivier tentando ajeitar o corpo roliço num espartilho, em 1962, travestido nos bastidores de uma filmagem.

Ele diz que tinha sorte, que as imagens caíam em suas mãos. Virou um Midas atrás da câmera. Depois do sucesso que fez a foto do ministro dormindo no aeroporto, o editor do jornal o mandou fotografar uma banda em começo de carreira, chamada The Beatles. A edição se esgotou e o chefe perguntou se ele conhecia outra banda. Sim, ele tinha uns amigos que tocavam numa banda de blues: Rolling Stones, de Richmond. O’Neill tornou-se a sensação de Fleet Street. “Naquela época, frequentávamos os mesmos clubes e nós, os fotógrafos, éramos mais badalados que os músicos”.

O’Neill segue fotografando grupos pop. São dele algumas das melhores fotos de Bono Vox, líder do U2. Conhece pouco os fotógrafos brasileiros, mas cita Sebastião Salgado como um dos seus preferidos, talvez pelo fato de ter as pessoas como modelos ideais, e não a paisagem ou a arquitetura. “Sinto-me confortável fotografando gente”, resume. De preferência, em preto e branco. “É mais realista.”

ROCKSTARS   Shopping Cidade Jardim Av. Magalhães de Castro, 12.100, tel.3551-100
De seg. a sáb., das 10 às 22h. Dom. e feriados, das 14h às 20h.
Até 7/5

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