O fino da cultura inglesa em São Paulo

Estadão

25 de maio de 2012 | 16h32

PEDRO ANTUNES

Entre hoje e 30 de junho, São Paulo falará inglês com um sotaque carregado. Transpirará arte britânica, seja na música, na dança e no cinema, numa constante busca pelo melhor produzido na Terra da Rainha. A 16ª edição do Cultura Inglesa Festival se inicia com uma interessante programação, tão cosmopolita quanto Londres (e São Paulo). Com destaque para os shows no Parque Independência, na zona sul da cidade, no domingo, a partir das 11h. E, o melhor, com entrada gratuita.

O festival traz o melhor do rock britânico, em seus diferentes braços: o eletrônico, o psicodélico e o dançante. We Have Band (no palco às 15h30), The Horrors (17h) e Franz Ferdinand (18h30) formam o aguardado trio de atrações internacionais. As divertidas Garotas Suecas, num tributo ao Rolling Stones, e Banda Uó, que leva um toque de tecnobrega ao repertório do The Smiths. Freech, King Crab, Broth3rhood e Sociopatas completam o line up. A entrada é sujeita à lotação do parque. Por isso, é aconselhável chegar lá cedo.

Dentre as atrações musicais, nenhuma se compara com o quinteto que vem de Southend-on-Sea, na costa leste da Inglaterra. Antes esquisitões, o The Horrors mudou, embarcou numa onda alucinógena e entregou, em julho do ano passado, o viajandão Skying (aqui lançado pela Lab 344, R$ 35), terceiro álbum da banda, devidamente selecionado nas listas de melhores do ano de publicações inglesas especializadas.

Em entrevista ao JT, o tecladista da banda Tom Cowan explica que a surpresa é o melhor elogio que eles poderiam ter. “Isso é ótimo, acho demais. Estamos trabalhando muito há 7 anos para chegar a isso. Até hoje, quando ouvimos nossa música no rádio, nos juntamos todos para ouvir. É só o começo.”

O álbum anterior, Primary Colours (2009), dava algumas pistas da sonoridade que viria por aí. “Encontramos o nosso som. Daquele disco, gostamos apenas de algumas coisas. Se eu pudesse, queria que Skying fosse nosso segundo álbum”, diz Cowan, com espantosa sinceridade.

O ponto central para o descobrimento de como eles gostariam de soar veio quando a banda decidiu que Skying seria produzido por eles mesmos, apenas lapidado por Craig Silvey, midas do indie inglês, que produziu o último disco do Arctic Monkeys, Suck It And See (2011), por exemplo. “Quando você faz o que ama, você vai melhorando. Eu, por exemplo, não tocava nada quando começamos a banda”, explica. Hoje, o novo The Horrors depende da criatividade de Cowan em seus teclados e sintetizadores. Ele, aliás, é irmão Freddie, guitarrista de outra banda inglesa, Vaccines, que veio aqui em abril.

Soando como se estivesse no fim dos anos 1980, a banda hoje aposta em despejar psicodelia: uma bateria em looping, repetindo a batida mecanicamente, com guitarras perdidas em notas longas embaladas pelo teclado e, no fundo, a voz rouca de Faris Badwan em eco. Como um sonho perdido no passado.

Franz Ferdinand retorna com inéditas

Emergido da nova onda de pós-punk do início dos anos 2000, em Glasgow, Franz Ferdinand é a atração que fechará a noite musical no Parque da Independência, no domingo. Dançante, explosivo e divertido, o grupo liderado por Alex Kapranos subirá no palco às 18h30. Além dos hits de praxe, exibidos durante as quatro passagens da banda por aqui, o quarteto deverá mostrar aos fãs um pouco de seu quarto disco, sucessor de Tonight: Franz Ferdinand (2009), ainda sem nome, programado para ser lançado ainda este ano.

No sábado, eles quebraram o jejum de dois anos longe dos palcos com uma apresentação intimista em Limerick, na Irlanda. Ali, mostraram quatro músicas novas, que já se espalharam pela rede: Right Thoughts, Brief Encounters, Fresh Strawberries e Trees and Animals. Empolgados, eles ainda emendaram um cover da rainha da disco music, Donna Summer, I Feel Love, morta na semana passada. Sucessos da banda como Take Me Out, No You Girls, Ulysses e Do You Want It também foram tocados.

Antes disso, no começo do mês, Kapranos voltou a ser assunto ao aconselhar bandas novas em sua conta do Twitter. “Nunca faça cover do Oasis, nunca esqueça seus amigos e sempre dê risada”, escreveu. Quando perguntado sobre seu conselho relacionado ao Oasis, ele disse: “Nada pessoal. Só porque todo mundo faz isso. E eles são tão estupidamente chatos.” ::

Rolling Stones e The Smiths ganham tributos inusitados

Há na brasilidade da banda Garotas Suecas um pouco do soul do Rolling Stones, principalmente do disco Out of Our Heads (1965), com Brian Jones na guitarra. “Eles eram muito ligados em Marvin Gaye. E é a mesma coisa que a gente”, explicou Tomaz Paoliello, guitarrista da banda. O mesmo, no entanto, não pode ser dito sobre a melancolia dos The Smiths.

Toda a escuridão do cinzento céu de Manchester, tão explícito nas letras tristes de Morrissey, vai desaparecer com a interpretação da Banda Uó. “Vamos colocar o nosso tecnobrega”, explica Davi Sabbag, responsável pelas bases eletrônicas do trio. Com eles, canções como Ask Me e This Charming Man serão chamadas de Uísque e Meu Doce Mel.

OUTROS DESTAQUES

BALADAS
> > Para curtir uma boa noitada,
o comandante da gravadora Dissident, o DJ Andy Blake, mostra um set bem variado, todo em vinil, hoje, no Studio SP Vila Mariana. Já amanhã é a vez de Barry Fratelli, baixista da divertida banda The Fratellis, discotecar no Beco 203

TEATRO
> > A provocativa peça Órfãos, de Dennis Kelly, mostra uma narrativa precisa, com alguns toques de
humor (britânico, lembre-se disso).
Um ótimo thriller, dias 8, 9 e 10, no Teatro Cultura Inglesa-Pinheiros

CINEMA
> > A Mostra Bowie no Cinema
apresentará sete longas estrelados pelo Camaleão do Rock David Bowie. Inclusive Absolute Beginners, de Julien Temple, diretor que viria para São Paulo para um bate-papo, mas que cancelou sua participação na semana passada. Sempre no Cine Livraria Cultura

DANÇA
> > Farmácia é um espetáculo ousado em que artistas tentam recriar, por meio da dança, a tela LSD, de Damien Hist. A cada pílula ingerida, novos movimentos corporais e padrões são exibidos.

*Endereços e programação no site oficial do Cultura Inglesa Festival

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