O fiasco do 'maior festival de heavy metal da América do Sul'

Estadão

22 de abril de 2012 | 07h30

Marcelo Moreira

Filas enormes, espectadores acampados em estábulo malcheirosos, falta de energia elétrica e água e cancelamentos de última hora de 11 das 46 atrações programas. Esse era o desastroso saldo do Metal Open Air minutos antes de o festival ter início, na última sexta-feira, em São Luís (MA). O que era para ser o maior festival de rock pesado da história do Brasil e da América do Sul se transformou em um dos maiores fiascos na área de entretenimento que se tem notícia.

As coisas começaram a dar errado há 11 dias, quando a banda santista Shadowside anunciou a desistência de tocar no Metal Open Air. Na época, os integrantes justificaram apenas que houve problemas em relação ao horário agendado para que tocassem, no dia 21, sábado, pela manhã. “Não teríamos como chegar a tempo, o voo só aterrissaria em São Luís no meio da tarde”, declarou a vocalista Dani Nolden.

Com a explosão de problemas relacionados ao festival a partir da última quarta-feira, a cantora resolveu falar abertamente sobre os demais motivos do abandono do festival. “Tentamos amenizar o discurso porque pensávamos que só nós estávamos passando por aquilo tudo: sem contrato, sem pagamento antecipado, em passagens para São Luís. Quando vimos que outras bandas sofreram a mesma coisa, não deu mais para ficar calada. Dificilmente teremos outro festival desse porte no País, falta credibilidade”, disse Dani Nolden.

Caos e falta de informação

A crise estourou de vez dois dias antes do início do festival, programado para começar sexta-feira, dia 20. A banda gaúcha Hangar anunciou a sua desistência denunciou pelo Facebook que não tinha recebido o cachê prometido e as passagens para o deslocamento de São Paulo a São Luís – e sem receber qualquer justificativa dos organizadores.

Ao mesmo tempo, o Corpo de Bombeiros do Maranhão e o Procon local vistoriaram o local – o enorme Parque Independência – e constaram falhas estruturais na construção de banheiros, dos palcos e no estabelecimento de áreas de evacuação do público, estimado em 240 mil pessoas em três dias de shows. Ao mesmo tempo, o Escritório Central de Arrecadação de Direitos Autorais (Ecad) tentava, sem sucesso, suspender na Justiça o evento por falta de pagamento de taxas.

Sem nenhuma informação ou orientação, o público começou a se acumular um dia antes do festival na porta do parque – eram os espectadores que tinham comprado os pacotes para acampar dentro do local do evento, nos moldes dos festivais europeus. Só tiveram acesso ao local horas depois do programado e tiveram uma péssima surpresa: não havia energia elétrica, água encanada, banheiros e o pior, a área de camping estava localizada dentro de um estábulo, com forte cheiro de esterco de cavalo – o Parque Independência é usado comfrequência para feiras agropecuárias.

Barracas de camping montadas em estábulo do Parque Independência (FOTO O IMPARCIAL)

Os problemas estavam longe de acabar. As bandas inglesas Saxon e Venom, que estavam entre as cinco principais atrações, anunciaram horas antes do início do festival que não viriam mais ao Brasil por “falta de pagamento de cachê, falta de contrato e problemas com a documentação para visto de entrada e trabalho”.

Outras sete bandas brasileiras desistiram no mesmo dia com as mesmas alegações, enquanto outras, como o Ratos de Porão, ameaçavam não embarcar sem garantias. Na sexta, a primeira banda a conseguir subir ao palco e tocar foi a canadense Exciter, com cinco horas de atraso.

Os organizadores, Felipe Negri (Negri Concerts) e Natanael Júnior (Lamparina Produções) só vieram a público na noite de sexta-feira. Em declarações a jornais e TVs de São Luís, culparam o governo do Estado do Maranhão pelo corte de verbas prometidas e pela falta de infraestrutura do local.

Enquanto isso, fiscais do Procon percorriam todo o parque colhendo depoimentos de espectadores para investigar denúncias de propaganda enganosa. E alguns deles tiveram de ouvir dos roqueiros: “Isso é só uma prévia do que vai acontecer na Copa de 2014”…

Mais confusão e deserções

No segundo dia, os problemas continuaram, assim como as deserções. Blind Guardian e Grave Digger nem chegaram a embarcar para São Luís e anunciaram pela internet que desistiam do festival.

O Anthrax passou por situações vexatórias. Chegou às 11h de sexta no aeroporto internacional de Guarulhos e não foi recebido por ninguém da produção, como combinado.

Por conta própria, os integrantes da banda e sua equipe arrumaram sabe-se lá como vagas em um voo para o Maranhão por volta das 14h. Em São Luís, mal instalados, observaram as condições ruins do palco, com parco equipamento de som e iluminação, e decidiram não tocar, voltando para São Paulo.

A primeira banda a suir ao palco, com mais de cinco horas de atraso, foi o Dark Avenger, de Brasília, que fez o que pôde diante das condições vexaminosas. Em seguida, Chris Boltendahl, vocalaista do Grave Digger, escreveu no Twitter e no Facebook que o  festival tinha sido suspenso e, depois, cancelado. Isso quase ocorreu realmente, mas a banda nordestina Ácido resolveu subir ao palco e tocar para pouco mais de 3 mil pessoas.

Em relação à infraestrutura, o que já era péssimo ficou ainda pior, com quase nnhuma segurança e condições sanitárias inacreditáveis. Os poucos profissionais de imprensa que se aventuraram a tentar cobrir o festival não tiveram assistência e e algfuns foram ignorados pelos organizadores diante da busca por informações sobre o caos reinante.

Profisionais de imprensa e de infraestrutura ouvidos pelo Combate Rock informaram que o cenário era de total desolação no final da tarde de sábado, diante da iminência de cancelamento do festival, coisa que não tinha ocorrido até as 21h.

Havia centenas de relatos de furtos e de total desamparo em relação à segurança – polícias militares ignoraram os pedidos de ajuda afirmando serem responsáveis apenas pelo “lado externo” do evento. Situações semelhantes e igualmente graves foram relatados e registrados pelos sites Collector’s Room, Van do Halen e Whiplash.

Música?

Ainda é possível falar de música no Metal Open Air? Sim, embora muito pouco. O Megadeth, atração principal do primeiro dia, atuou com profissionalismo e fechou a noite com uma boa apresentação, energética e pesada. Pena que o público era pequeno e estava mais preocupado com os problemas de infraestrutura do que com a música.

O show foi pesado e incandescente. A sequência maradora  ”A Tout Le Monde”, “Symphony Of Destruction” e “Rust In Peace” não deixou ninguém parado, após o encerramento fantástrico com “Holy Wars”.

O Megadeth agradou, tarefa difícil, pois subiu ao palco após apresentações muito boas de Symphony X, Destruction e Exodus – esta provavelmente a melhor performance do festival.

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