O estrago causado por Michel Teló – e a indignação sem sentido dos roqueiros

Estadão

09 de janeiro de 2012 | 06h43

Marcelo Moreira

A telomania parece ter chegado ao auge nesta primeira semana de 2012. Enquanto Michel Teló, o sertanejo universitário insuportável, desbanca Adele e Coldplay nas paradas de sucessos em alguns países e vira moda entre celebridades do mundo esportivo no mundo, no Brasil ele vira o novo gênio da música pop, ganhando até capa da revista Época.

A sucessão de fatos, em uma velocidade nunca vista antes em terras brasileiras, está deixando muita gente atordoada. Nas redes sociais virou briga de arquibancada entre os defensores do cantor e os detratores.

Uma onda de indignação está varrendo o Facebook em relação ao sucesso do rapaz de 30 anos que só agora vê o sucesso com uma música para lá de ruim – “Ai, Se Eu Te Pego”. A ojeriza ao cidadão é tanta que tem gente dizendo que a culpa é do “Brasil” e dos “brasileiros” por exportar tamanho lixo cultural – como se fosse privilégio do Brasil ter gente que adora consumir lixo de todo o tipo.

Pior ainda é o ranço contra a revista Época, que está sendo execrada sobretudo por jornalistas por ter dado destaque à telomania – um evidente absurdo pois, quer queira, quer não queira, o cara virou notícia, e no mundo inteiro.

Quando craques internacionais do Milan, Real Madrid e times da NBA aceitam pagar mico em vídeos na internet dançando a música ruim de Michel Teló é porque tem alguma coisa acontecendo. E a revista detectou isso. É notícia. Ponto.

Mais grave é ver roqueiro se virando no avesso diante de tais fatos. O Facebook virou muro das lamentações de gente que ainda está na fase dos botecos – infelizmente, em alguns casos – mas que está se mordendo de inveja pelo sucesso alcançado pelo sertanejo de parcos recursos artísticos.
Esses mesmos cidadãos roqueiros indignados esquecem que o maior nome internacional brasileiro do gênero, o trio de death metal Krisiun, tem um respeito gigantesco na Europa e nos Estados Unidos. É música de qualidade alta e referência no gênero.

Entretanto, é mais do que óbvio que jamais uma celebridade internacional aparecerá na internet cantando ou dançando (???) qualquer música do Krisiun, Sepultura, Torture Squad, Slayer, Sodom, Kreator ou coisa parecida.

Por tanto, antes de responsabilizar todo um povo pela porcaria que foi “exportada”, que tal observarmos pelo outro lado, as coisas maravilhosas que músicos brasileiros produzem no exterior?

A pianista erudita Juliana D’Agostini, por exemplo, muito conceituada na Alemanha. Ou Nuno Mindelis, guitarrista respeitadíssimo no Canadá e na França. Ou quem sabe André Matos (ex-Angra e Shaman), que mantém careira solo no exterior e ainda canta em um grupo repleto de estrelas do heavy metal, o Symfonia?

E que tal falarmos de Gus Monsanto, vocalista carioca que já cantou na banda francesa Adagio e na finlandesa Revolution Renaissance, de Timo Tolkki (ex-Stratovarius)? O rapaz acaba de ser convidado para cantar em uma banda formada por um ex-baterista do Scorpions, Hermann Rarebell, que é celebridade na Alemanha.

Michel Teló é mais um estrago que ocorre na música brasileira, mas qual é a novidade? Já tivemos milhares de outras coisas execráveis, como o axé, o forró artificial, o asqueroso funk carioca, o pagode de todos os tipos e matizes, o lixo do sertanejo universitário e o mundo não acabou por conta disso.

Se o rapaz é um fenômeno, mesmo que passageiro e de uma música só, sorte ou azar o dele. Quem gosta de boa música e quem gosta de rock precisa e tem de o dever de ignorá-lo.

O que não dá é ficar “passando recibo” e ficar choramingando por aí reclamando que o mundo é injusto e que a porcaria artística-musical cola em qualquer povo. Mais trabalho e mais menos chororô. Quem sabe o Uganga, o Carro Bomba ou o Shadowside não rompem a barreira do lixo musical e estouram no exterior?

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