O epitáfio de Rita Lee virou folclore – ou anedota

Estadão

30 Janeiro 2012 | 02h54

Marcelo Moreira

Rita Lee tentou dar dignidade ao final de uma carreira de shows ao vivo em Aracaju neste final de semana. Por mais que muita gente duvidasse, a cantora de 66 anos e mais de 40 de vida musical pareceu realmente convicta quando anunciou que ia se aposentar dos palcos, mas não dos estúdios. A questão que se coloca nesta segunda-feira é a seguinte: por que a mulher mais importante do rock brasileiro optou por desprezar sua dignidade no epitáfio de sua carreira?

A cantora estava indo bem no show quando tentou defender os fãs de uma investida absurda da PM sergipana em busca de usuários de maconha. Durante uma das músicas, soldados abordaram de forma inaceitável espectadores bem à frente do palco. Rita não pensou duas vezes: interrompeu o show e pediu incessantemente para que os policiais deixassem os fãs em paz. 

Ignorada, passou a abusar de ironias e sarcasmo em vez de protestar com mais veemência. Foi aí que sua despedida, que poderia ser gloriosa, virou folclore. Ou apenas uma anedota. O sarcasmo deu lugar a frases desconexas, culminando com xingamentos explícitos ao comandante da operação.

Claro que isso não ajudou: o vexame de ter de prestar depoimento em uma delegacia e de ser alvo de inquérito policial maculou um eventual final de carreira nos palcos e acrescentou mais uma bizarrice em sua trajetória.

Rita Lee não precisava pagar o mico de xingar os policiais diretamente, sabendo que seria acusada de desacato. Fez isso deliberadamente? Pouco provável.

Respeitada como artista engajada em causas humanitárias e de meio ambiente, contestadora desde os seus tempos de Mutantes, Rita Lee escolheu a pior das opções. Tomou a atitude que se esperava de uma artista importante com seu histórico: protestou contra o abuso dos PMs em pleno show, na frente do palco. Quando passou a xingar os PMs, tirou o foco da ação policial e assumiu o risco de se transformar no alvo da “fúria represora”, o que acabou ocorrendo.

Seja lá qual for a explicação que ela resolva dar sobre o incidente, o fato é que ela não precisava ser motivo de chacota em alguns círculos virtuais e até mesmo em comentários cotidianos na vida real.

“Encrenqueira”, “doidona aprontou de novo” e “não surpreende o ‘barraco'” foram algumas pérolas ouvidas e escritas por aí, em meio a muitas mensagens de apoio à cantora. E lamentavelmente não foram poucas as mensagens depreciativas.

Por que Rita Lee não interrompeu definitivamente o show se queria realmente protestar de verdade? Seria mais adequado – ou mais digno – do que dirigir palavrões ao oficial da PM de forma irresponsável, turvando a verdadeira questão: a abordagem abusiva e truculenta dos PMs no meio da pista, em frente ao palco.

Preocupação com tumulto com a interrupção total do show? Era um risco a ser considerado. E, certamente, isso não passou pela cabeça da cantora. Mas o que explica o mico de mergulhar de cabeça no vexame de se apresentar a uma delegacia de polícia por desacato?

Rita Lee esteve a um passo da reverência e do pico da dignidade caso se recusasse a continuar o espetáculo. Seria um marco no show business nacional e jogaria luz a um problema recorrente em shows musiciais de vários estilos. Em vez disso, preferiu arranhar parte de seu prestígio ao decidir pelo sarcasmo e pelos ataques aos policiais.

É bem provável que tudo isso jamais tivesse sido alvo de mínimas preocupações por parte da artista, também conhecida por ser autêntica e original. O desagradável é que sua despedida dos palcos poderia ter sido memorável e emblemática, em vez de passar para a história como folclórica – ou como simples anedota.