O diabo na vida de Robert Johnson – parte 6 – final

Estadão

02 de janeiro de 2013 | 16h29

Márcio Ribeiro – coluna Blues Before Sunrise – site Whiplash

Quase oito meses passariam até Johnson gravar uma segunda serie de sessões, dessa vez na cidade de Dallas, Texas, no Brunswick Record Building, que fica no sobrado de 508 Park Avenue. Dividido em duas sessões realizadas em junho de 1937, a primeira começando no sádado dia 19, rendeu as gravações de “Stones In My Passway”, “I’m A Steady Rollin’ Man” e “From Four Till Late”.

The Brunswick Record Building
The Brunswick Record Building
A última e derradeira sessão de gravação na vida de Robert Johnson rendeu bastante material. Realizado no domingo no dia 20 de junho de 1937; Johnson grava “Hellhound On My Trail”, “Little Queen Of Spades”, “Malted Milk”, “Drunken Hearted Man”, “Me And the Devil Blues”, “Stop Breakin’ Down Blues”, “Traveling Riverside Blues”, “Honeymoon Blues”, “Love In Vain” e “Milkcow’s Calf Blues”.

No todo, Robert Johnson gravou um total de 29 canções embora há um boato de que uma trigésma canção teria sido gravada por insistência do engenheiro de som. Se existe, até o presente, nenhum vestígio dessa canção foi encontrado.

O primeiro compacto a surgir das sessões, lançado pelo selo Vocalion (depois comprada pela CBS que por sua vez seria comprada pela Sony Music) foi “Terraplane Blues” / “Last Fair Deal Gone Down”, que muitos consideram o único hit do Johnson, com o compacto vendendo 4 mil cópias. Considerando o mercado fonografico da época, acoplado com o custo de vida durante a depressão dos Anos Trinta, o número é relativamente bom.

O que se sabe é que Don Law tinha interesse em voltar a gravá-lo. Apesar de outros compactos serem lançados antes dele falecer, aparentemente este é o único disco seu que Johnson ouviu em vida. Conta-se que ele ficou tão feliz que comprou várias cópias para dar de presente a parentes e para cada um de seus filhos, embora muitas vezes ele fosse proibido de se aproximar deles.

Há pelo menos um relato, contado por Claude Johnson, seu único filho comprovado e reconhecido legalmente, que diz que Robert Johnson não foi permitido pelos avós que o criaram, a passar pelo portão da frente da casa, enquanto ele, Claude, só pôde vê-lo pela fresta atrás da porta. Isso por conta de Robert Johnson ter feito um pacto com o diabo. “E essa foi a única vez que eu vi o meu pai.”

Tocando pelas esquinas do mundo afora, quando alguém pedia “Terraplane Blues”, Johnson se enchia de orgulho e informava com um sorriso de orelha a orelha, que ele foi quem compôs esta canção. Analisando as gravações, se pode ouvir em Robert Johnson as influências de um número de importantes bluesmen, como os já falados Charley Patton, Son House, Willie Brown, Tommy Johnson e Lonnie Johnson; como também de Kokomo Arnold, Scrapper Blackwell, Hambone Willie Newbern, Leroy Carr, Big Bill Broonzy e Skip James. Embora não existam gravações que documentem a proeza de Ike Zimmerman, é óbvio que esse foi para Robert sua influência mais direta.

Johnson como instrumentista é capaz de fazer duas coisas diferentes quase que seguidas uma da outra, o que dá a sensação nas gravações de existirem duas pessoas tocando, não só uma. E como se isso não fosse o bastante, Johnson consegue cantar por cima disso tudo, o que deixa músicos mais estudiosos extremamente impressionados.

Comparando Johnson com seus maiores mentores, percebe-se que está no tratamento dado por Johnson a suas canções e seus arranjos a marca de sua genialidade. Conciso, consegue compor um tema completo com duração nunca superior a três minutos, perfeito para o formato de discos (então existentes apenas com 78 rpm).

Trouxe para os seus arranjos o baixo de boogie-woogie, normalmente associado somente ao piano, nunca no violão. Enquanto era comum nas letras em blues da época ficarem com resoluções um tanto quanto abstratas, as melhores letras de Johnson oferecem uma estória completa com inicio, meio e fim. E para coroar tudo, Johnson também tem uma voz muito boa, donde ele extrai tanto força, como ternura.

Three Forks Store
Three Forks Store
No calor do verão de Mississippi, no dia 12 de agosto de 1938, Robert Johnson e David ‘Honeyboy’ Edwards estavam marcados para tocar naquela noite, em uma loja de conveniências não muito longe de Greenwood, chamada Three Forks, que à noite faziam festas pro povo local ouvir e dançar.
Segundo Honeyboy Edwards, Robert Johnson estava claramente mostrando demasiada atenção a uma mulher acompanhada de um homem que muitos acreditam se tratar do dono da loja. Outra versão sugere que a tal mulher era uma antiga namorada de Johnson que, de volta na área, queria requentar o romance.

No dia seguinte, antes de Honeyboy chegar, Robert Johnson e Sonny Boy Williamson II (Rice Miller) dividiam uma mesa e conversavam. Williamson testemunha que Johnson estava de olho na mulher do patrão e que alguém, possivelmente a própria mulher, lhe trouxe uma garrafa aberta de whiskey caseiro (Moonshine). Johnson aceitou e bebeu apesar de avisos de nunca beber de uma garrafa que já chega aberta.

Estavam tocando os três músicos quando por volta de uma da manhã, Robert Johnson começou a passar mal. O povo queria que o músico continuasse mas lá pelas duas da matina Robert estava tão mal que teve que ser levado embora. Trouxeram-lhe até seu quarto em um barraco na 109 Young Street onde estava hospedado em Greenwood.

Johnson passou três dias em agonia com terriveis dores estomacais, finalmente morrendo no dia 16 de agosto de 1938. Uma versão da estória sugere que ele conseguiu sobreviver ao envenenamento, que saiu pelo suor, mas por conseqüência pegou pneumonia e morreu. Seu atestado de óbito diz ‘Causa de Morte: Nenhum Doutor (No Doctor).’

Robert Johnson foi em seguida enterrado no cemitério junto à igreja Mt. Zion Missionary Baptist Church perto de Morgan City, segundo consta em seu atestado de óbito. A Columbia Records em 1990 ergueu um pequeno obelisco como memorial a Johnson no local. Todavia, há quem diz que Robert Johnson não permaneceu enterrado neste local por muito tempo.

Supostamente uma das suas irmãs retirou seus restos dali e o levou a Payne Chapel Missionary Baptist Church perto de Quito, Mississippi. Lá também foi colocado um marco, desta vez uma placa, para marcar o local. Todavia, ainda há suspeitas que seu corpo na verdade fora enterrado junto a uma árvore dentro do cemitério da igreja de Little Zion localizada ao norte de Greenwood junto a Money Road. Neste local também existe um marco homenageando Robert Johnson, dessa vez pago pela Sony Music.

Robert Johnson
Robert Johnson
O legado de Robert Johnson é enorme, embora tenha levado muitos anos após sua morte para sua influência ser realmente contabilizada. Muddy Waters e Elmore James são apenas dois nomes que imediatamente vêm à mente como demonstrando em suas gravações as lições aprendidas com Robert Johnson.
Contudo, ele só se tornaria realmente famoso depois dos anos sessenta quando os roqueiros o adotam. Em 1961 a CBS lança pela primeira vez um LP com desesseis de suas canções com o titulo Robert Johnson – King of the Delta Blues Singers, que vai ser ouvido e absorvido por gente como Brian Jones, Keith Richards, Eric Clapton, Paul Butterfield, Duane Allman e Johnny Winters, efetivamente contribuindo para dar início ao interesse maior pelo blues entre os jovens brancos americanos e, na Inglaterra, para o nascimento do movimento de blues inglês. O volume 2, com o restante das gravações mais algumas versões alternativas, seria lançado em 1971.

Somente em 1990, após anos de litígio sobre direitos autorais (que desde 1998 pertencem ao filho e herdeiro comprovado Claude Johnson), lança-se finalmente a caixa completa com todas as suas gravações existentes, mais duas fotos, as únicas conhecidas de Robert Johnson.

Hoje já apareceu uma terceira, com Robert Johnson ao lado de Johnny Shines, encontrada com uma das irmãs de Johnson que ainda estava viva. Especula-se que podem ainda haver outras fotos por serem descobertas.

Passados os últimos vinte anos, o nome de Robert Johnson se torna um meio de ganhar dinheiro. Criaram fundações com seu nome, vende-se camisetas, posters, palhetas e sabe-se lá mais o que; tudo com o nome, imagem e até a assinatura (tirada da certidão de casamento) de Robert Johnson.

Ele é atualmente o bluesman que mais gera dinheiro em merchandising dentro dos Estados Unidos, muito além do que qualquer outro bluesman americano atualmente vivo. Talvez mais importante do que isso seja que não só a lenda, mas agora a música de Robert Johnson persiste em encantar os ouvintes. E a julgar pela consistência de novas versões gravadas por novos artistas a cada ano, a música de Robert Johnson continuará vivendo saudavelmente entre as novas gerações que continuamente surgem.

 

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