O diabo na vida de Robert Johnson – parte 3

Estadão

01 de janeiro de 2013 | 07h27

Márcio Ribeiro – coluna Blues Before Sunrise – site Whiplash

Alonzo ‘Lonnie’ Johnson
Alonzo ‘Lonnie’ Johnson
Desde muito cedo, em parte por conta de sua situação de filho bastardo, Robert teve que se passar usando vários nomes diferentes. Vão desde Robert Spencer, Robert Dobbs, Robert Dusty; e depois já como andarilho, dependendo da amante e da região, Robert Moore, Robert Barstow e até Robert James.
Essas variações de identidade fazem com que fique ainda mais dificil mapear as andanças do músico. Especula-se que por idolatria a Lonnie Johnson, Robert passaria a se apresentar como sendo Robert Lonnie – um dos irmãos Johnson (Lonnie Johnson tinha onze irmãos); até que, já ao fim dos dezoito anos, finalmente passou a usar o seu verdadeiro nome, Robert Johnson.

Negro bonito, porém tímido, aos dezoito anos se apaixona por Virginia Travis de desesseis anos, casando com ela em 16 de fevereiro de 1929. Sem teto próprio, o jovem casal passa a morar com a meia-irmã mais velha, Carrie Dobbs. Seu coração continuava na música e qualquer tempo livre que tinha, estava ele cantando e arranhando no seu violão.

Porem, pelos proximos dois anos, Robert Johnson era essencialmente um fazendeiro, trabalhando duro no campo colhendo algodão. Em agosto de 1929 sua mulher Virginia ficou grávida, notícia que traz muita felicidade para a vida de Robert. Porém a tragédia estava a espreita e no dia 10 de abril de 1930, tanto Virginia quanto a criança morrem durante o parto.

A familia de Virginia Travis culpa Robert, acusando o seu gosto por cantar canções seculares (profanas) como sendo uma provocacão a Deus passível a esse tipo de castigo divino, que na cultura da região é descrito como ‘vender a alma para o Diabo’. E Robert, abatido e tristonho, aparentemente aceitou a acusação e a culpa, sem negar.

É depois desta tragédia que Robert passa a deixar o trabalho no campo de lado, e passa a investir em ser músico em tempo integral, frequentando bares e inferninhos, buscando observar e aprender a tocar melhor o violão. Porém Robert, que praticamente abandona por completo a gaita, é ainda muito fraco como instrumentista para conseguir ganhar dinheiro.

Procurou um respeitado bluesman que morava em Robinsonville chamado Willie Brown e esse lhe abre os ouvidos para o blues de Charley Patton, o maior nome do delta Blues da época.

Por coincidência, justamente nesse periodo, o já conhecido e respeitado bluesman Son House, recém saído da famosa penitenciária Parchman Farm, aparece na cidade para se alojar com o seu amigo Willie Brown. Robert procura forjar amizade e frequenta todas as apresentações da dupla Son House e Willie Brown, se convidando a tocar com eles mas sendo seguidamente recusado.

Son House

Son House
Johnson busca aprender tudo que puder vendo o mestre e de início, Son House até mostra paciência com o rapaz e chega a chamá-lo de um bom menino, porém músico fraco demais para acompanhá-los. Pelo que se conta, Johnson persiste em tentar convencer Son House a lhe dar aulas, porém o resultado é que House se irrita com o garoto arranhando as cordas tão grosseiramente, e o rotula de caso perdido e põe o rapaz pra correr.
Robert Johnson, vendo que não tinha mais como aprender com Son House ou Willie Brown, acaba por deixar Robinsonville por completo, perambulando pelas estradas vizinhas.

Sem ninguém prever, muito menos ele mesmo, Robert Johnson dá seus primeiros passos em direção ao tipo de vida andarilha que para sempre será associado a seu nome e sua imagem. Ele só retornaria a Robinsonville novamente dentro de aproximadamente dois anos, já executando com maestria músicas no seu violão. Não por coincidência, segundo a lenda, é nesse ínterim que Robert Johnson teria vendido sua alma pro Diabo.

Pelo o que se sabe, Johnson teria primeiro caminhado pro sul perambulado pelas cercanias de Hazelhurst onde nasceu, supostamente a procura de Noah Johnson, seu verdadeiro pai. Não se sabe se ele o encontrou, porém Robert definitivamente encontrou o que ele mais precisava naquele ponto e sua vida; ou seja, alguém que lhe dedicaria o devido tempo para ensiná-lo a melhorar como instrumentista.

 

Tommy Johnson
Tommy Johnson
Passando por Crystal Springs, cidade vizinha a Hazelhurst, Robert Johnson conhece e faz amizade com Tommy Johnson, outro bluesman de expressão que já tinha gravado um número de discos e sendo conhecido por suas acrobacias com o instrumento; como tocar seu violão entre as pernas ou por detrás da cabeça.
 Agora, com a queda da Bolsa de Valores e o inicio da Grande Depressão, os convites para gravar discos secaram, o que faz Tommy Johnson retornar a sua terra natal em Crystal Springs. Ele vive agora catando algodão durante época de colheita e tocando ao vivo pela vizinhança à noite nos fins-de-semana. Tommy Johnson também é notório por dizer que negociou sua alma com o velho Scratch (o diabo) na encruzilhada perto de uma das plantações de algodão da Dockery Farms.

Segundo se especula, foi Tommy Johnson quem ensinou Robert Johnson como e onde fazer o seu famoso pacto. O que se verifica é que, andando sozinho pelas estradas do mundo, indo e vindo de espeluncas freqüentadas por todo tipo de gente, ser conhecido por ter o Diabo como seu benfeitor lhe dá um certo senso de proteção.

Superstição ainda faz uma grande parte da cultura geral da época e um rufião de maus intentos, é mais apto a evitar se meter com você se todos acreditam que ele é um protegido de Satanás. Essa mentalidade, e no caso, o raciocínio por detrás dela, provavelmente foi passado a Robert por Tommy, e ajuda a explicar porque Robert Johnson nunca fez nenhuma objeção contra a acusação dele fazer um pacto com o mal. Muito pelo contrário, compôs canções como “Me And The Devil” que ajudaram a concretizar tal suposição.

Tommy Johnson o leva a Martinsville para lhe apresentar aos irmãos Ike e Herman Zimmerman, ambos tidos como bons instrumentistas. Robert Johnson acabaria se instalando em Martinsville, onde Ike passa a levá-lo quase toda noite para o cemitério onde juntos, tocam até altas horas da noite sem ouvir reclamação de ninguém.

Dentro desses quase dois anos residindo em Martinsville, Robert engravida uma menina chamada Vergie Mae Smith e mais tarde, casa em maio de 1931, com Caletta Craft, uma senhora de trinta e poucos anos, cerca de dez anos mais velha do que ele e mãe de três crianças pequenas. Calle, como era chamada, seria o protótipo da mulher que Johnson geralmente almeja para relacionamentos.

Mulheres que não eram feias, porém não muito vistosas, portanto sem muita concorrência, a quem ele oferece sua atenção e carinho e elas dão casa, comida e roupa lavada. Em alguns casos, até uns trocados também.

Johnson se mudaria para Clarksdale com Calle e suas crianças em 1932; porém o relacionamento desanda e quando ela fica doente, ele pega o violão e a estrada, efetivamente abandonando-a. Robert Johnson nunca mais ficará vivendo no mesmo lugar por muito tempo.

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