O diabo na vida de Robert Johnson – parte 2

Estadão

31 de dezembro de 2012 | 16h27

Márico Ribeiro – coluna Blues Before Sunrise – site Whiplash

Era uma vez um negro forte e inteligente chamado Charles Dobbs, nascido em fevereiro de 1865; apenas dias depois do Congresso Americano autorizar o anexo à Constituição que tornava lei a abolição da escravatura nos Estados Unidos (argumenta-se que sistemas de trabalho forçado praticados contra negros persistiram e eram na prática formas de escravidão em tudo menos no nome, mantendo-se em exercício principalmente no estado de Alabama até 30 de junho de 1928).

Dobbs era um carpinteiro habilidoso, começando a vida ganhando dinheiro fazendo, montando e vendendo móveis. Com a devida disposição para trabalhar duro e tendo bons instintos e bom senso com dinheiro, conseguiu se tornar dono de terras em Hazelhurst, no condado de Copiah, no estado de Mississippi. Dobbs passou então a trabalhar na sua plantação de algodão e mantê-la lucrativa.

Em 1889, casou-se com a jovem e bela Julia Ann Majors, onze anos mais nova, e com ela teve dez filhos; oito meninos e duas meninas, que invariavelmente o ajudavam trabalhando e mantendo a fazenda produtiva. Seu sucesso e prosperidade como fazendeiro incomodava outros fazendeiros da região, muitos deles antigos donos de escravos.

Portanto, deduza-se que a relação com a vizinhança e/ou concorrência, dependendo de como quiser ver a questão, não era das mais harmoniosas para o Sr. Charles Dobbs. De fato, em uma briga com outro fazendeiro, esse um homem branco, que ocorreu provavelmente por volta de 1907, o Sr. Dobbs deu uma surra em seu oponente, supostamente o ferindo bastante. Isso criou uma situação difícil pro Sr. Dobbs que teve que sair fugido de Hazelhurst para nao acabar linchado e enforcado em uma árvore.

Charles Dobbs sumiu da região, seguindo para o norte e se instalando em Memphis no estado de Tennessee, utilizando agora o nome de Charles Spencer. Sua esposa, Julia Major Dobbs ficou em Hazelhurst, e, no espaço de tempo de aproximadamente dois anos, mandou um a um os oito filhos para Memphis morar e trabalhar com o pai, ficando ela com as duas filhas.

Agora vivendo vidas separadas, Charles passou a morar com uma outra mulher e Julia, igualmente, passou a morar com um outro homem; esse, chamado Noah Johnson que trabalhava nas lavouras da região como mão-de-obra. Com Noah, Julia teve mais um outro filho homem que foi chamado de Robert Leroy Johnson.

Pesquisadores em geral elegeram a data de 08 de maio de 1911 como a data de nascimento de Robert Johnson, porém a verdade é que ninguém sabe com certeza absoluta. Embora a data de 08 de maio seja reincidente em mais de um documento e portanto parece ser mais segura, a dúvida reside no ano. Não se encontra sua certidão de nascimento e cogita-se que ele possa nunca ter tido uma.

A verdade é que não era incomum para a época, considerando o nível de pobreza da região no chamado cinturão de algodão, o pior do país, criança nascer e ser registrada com data errada um ou dois anos depois do fato.

Em termos de documentos, o que se encontrou foi a data de seu nascimento segundo o registro na escola primária, certidão de seu casamento e sua idade no atestado de óbito. Acontece que cada um destes documentos oferecem um ano diferente. Expecula-se que Robert Johnson pode ter nascido entre 1909 e 1912. Porém o consenso é de que provavelmente foi em 1911.

Em 1914, Julia, já sem a companhia de Noah Johnson, se muda com as duas filhas e o pequeno Robert para Memphis indo morar novamente com seu marido Charles Dobbs, agora Charles Spencer; reunindo-se novamente com seus oito meninos.

Na casa também morava a amante de Charles e os dois filhos que ele teve com ela. Segundo consta, todos se davam bem, porém obviamente Julia não ficou por muito tempo, se mudando logo dali deixando todas as suas crianças, incluindo o pequeno Robert para ser criado por Charles. Ao que se saiba, Charles teve problemas em lidar com este seu novo filho-de-criação, vendo Robert Johnson, que passou a ser conhecido como Robert Spencer, como um menino pouco disciplinado.

Levaria outros dois anos até Julia reaparecer em Memphis. Veio precisando da permissão de Charles para poder se casar novamente; agora com um jovem rapaz vinte e quarto anos mais novo do que ela chamado Willie ‘Dusty’ Willis. Pouco depois, Robert foi viver com o novo casal. Moravam inicialmente em uma favela chamada Commerce, que fazia parte da Leatherman Plantation, perto de Robinsonville em Mississippi.

Lá, Robert passava a ser conhecido como Little Robert Dusty pela vizinhança. Porém quando foi matriculado na Indian Creek School na cidade de Tunica, Arkansas, no ano de 1919, seu nome constava como sendo Robert Spencer. A essa altura, o casal Willie e Julia mais o pequeno Robert fixam-se em Lucas, ainda em Arkansas, vivendo como a maioria, basicamente do trabalho na lavoura.

Em tempo, Julia ficaria grávida novamente e teria uma filha com Dusty. Ao que parece, não se encontram registros escolares de Robert entre os anos de 1925 e 1926, o que reforça a teoria de que aos quatorze anos ele fora mandado de volta para a casa de Charles Spencer em Memphis. Charles coloca o garoto para trabalhar na plantação, tentando entre outras coisas, passar para o filho-de-criação noções sobre o valor de se trabalhar duro para poder colocar comida na mesa. Spencer porém se frustava com o garoto pois Robert pouco interesse mostrou pela vida dura na lavoura colhendo algodão.

Johnson passava a maior parte do seu tempo tocando gaita, instrumento que ele aprendeu a dominar relativamente bem. O adolescente Robert Johnson, com gaita na mão, instintivamente vê a música como o seu único caminho para fugir da vida no campo. Retornando à casa da mãe em 1927, novamente na região de Robinsonville no Mississippi, Robert compra o seu primeiro violão. Se esforça para conseguir aprender a tocar o instrumento direito, mas segundo o que se comenta, o jovem era ruim ao ponto de incomodar os vizinhos.

 

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