O diabo na vida de Robert Johnson – parte 1

Estadão

31 de dezembro de 2012 | 07h26

Márcio Ribeiro – coluna Blues Before Sunrise – site Whiplash

E assim conta a lenda… Em uma noite sem lua, após um dia comum, um negro jovem chamado Robert Johnson aguarda calado, com seu violão em mãos, junto a uma encruzilhada em Dockery’s Plantation, em Mississippi. Quando deu meia noite, um homem aparece descendo a rua em direção ao cruzamento. Robert começa então a tocar seu violão da melhor maneira possivel, porém o pobre rapaz é tão fraco, que dá até dó de se ouvir. O homem ao se aproximar estende a sua mão, como quem pede que o violão seja lhe entregue. Com mãos trêmulas e suando frio, Robert lhe passa o instrumento, e esse homem misterioso então passa a afiná-lo.

Robert Johnson
Robert Johnson

Quando satisfeito com a afinação encontrada, o homem começa a tocar algumas canções. Em dado momento, sem mais nem porque, ele pára de tocar. Olha para o jovem a sua frente com um sorriso repleto de satisfação, e lhe devolve o instrumento agora ‘afinado’. Robert Johnson então começa a tocar, e o faz agora com uma extrema facilidade que nunca lhe foi possível. E doravante, todos aqueles que o escutam, ficam imediatamente encantados pela sua música. Robert Johnson acaba de vender sua alma pro diabo em troca da fama de ser o melhor instrumentista que se tem noticia. É uma estória que cruza elementos de Faust com O Flautista Mágico (aquele que se livrou dos ratos de um vilarejo encantando os roedores maléficos ao tocar sua flauta).

Muddy Waters conta que a única vez que viu Robert Johnson foi em Friars Point, Mississippi, em frente à drogaria local chamada Hirsberg’s Drugstore. Os pedestres lhe cercaram para ouvir e Muddy Waters, então com quase vinte anos de idade, se meteu lá no meio tambem. Contudo, Waters conta, Robert Johnson tocava o violão com tamanha ferocidade e maestria, que ele ficou extremamente intimidado por este bluesman mais velho, e logo foi embora.

Eu tenho ouvido muito blues esses dias; em particular Robert Johnson. No meu entender, Robert Johnson é o nome mais famoso dentro do gênero blues, mais graças à sua lenda de ter vendido a sua alma pro diabo do que pelas proezas registradas em suas gravações que, por sinal, até os anos noventa, eram dificílimas de serem encontradas, portanto até quem se interessava encontrava dificuldades em achar para ouvir.

Eu estava na escola quando ouvi o nome de Robert Johnson pela primeira vez. Era aula de música e quanto a biografia deste músico, o professor sabia o mesmo que aparentemente todo mundo sabia, ou seja, só a lenda. E a minha turma da sétima série colegial ouvia com curiosidade juvenil o professor contar que “Após vender sua alma pro diabo, Robert Johnson passou a encantar o povo da região do delta do Mississippi tocando e cantando suas músicas.

A outra fama desse homem era de que ele era extremamente mulherengo. Fato que o levou a ser morto; ou por um marido enciumado, ou mulher enciumada; que o matou ou a bala, a faca, ou possivelmente envenenado. Enfim, ninguém sabe ao certo.”

Imaginem o fascínio que tais imagens podem criar em uma audiência tão jovem. E mesmo depois de adulto, continuava sendo essencialmente essa estória a única informação básica que se encontrava sobre este homem. Hoje em dia, certamente dada a facilidade com que informação se espalha geograficamente através da internet, já se sabem fatos mais concretos sobre quem era o homem Robert Johnson.

Documentos como duas certidões de casamentos, alguns registros escolares, um atestado de óbito e alguns poucos memorandos de uma gravadora já foram encontrados. Procurou-se parentes vivos, vizinhos e músicos que os conheciam, tendo os seus testemunhos gravados ou anotados. Tudo para tentar-se compreender mais sobre o homem atrás do mito. Contudo, como Johnson viveu uma vida andarilha solitária, é impossivel saber com exatidão tudo que ele fez e todos os lugares por onde ele andou.

Fui direto ao Google vasculhando pela web buscando informações sobre o homem versus a lenda e o que achei de melhor foi um texto no Wikipedia escrito em inglês. A versão em português, no meu entender, se prende mais sobre os feitos do músico do que do homem.

Achei que faltava na grande rede um texto em português mais completo como existe em inglês. Juntei informações essencialmente de dois textos encontrados na grande rede, verifiquei detalhes sobre certas informações em diversos sites diferentes e, com base nessas anotações, comecei então a escrever.

Este texto que você lê aqui e agora não pretende ser a última palavra sobre a vida de Robert Johnson. Procura apenas contar um pouco mais sobre a sua história em um texto em português.

E tratando-se de um personagem com uma vida tão desassosegada como a de Robert Johnson; não é que tudo começou com uma tremenda briga…

 

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