O começo de Malmsteen arrebentando no Alcatrazz

Estadão

16 de dezembro de 2010 | 08h46

Marcelo Moreira

Um garoto sueco metido e presunçoso, mas que parecia um mágico tocando guitarra, o que fez com que filas de músicos se formassem para vê-lo tocar. Esse foi o impacto que Ynngwie Malmsteen causou ao chegar a Los Angeles, na Califórnia, em 1981, para tocar na banda de hard rock Steeler.

Nem nos melhores sonhos Alvin Lee, guitarrista e líder do Ten Years After, banda inglesa de blues rock dos anos 60 e 70, conseguiria tocar na velocidade do sueco. Lee foi considerado pelas revistas como o guitarrista mais veloz da história em 1970. Onze anos depois, um jovem Malmsteen lhe roubou o título.

Virtuoso ao extremo e gênio precoce, Malmsteen já impressionava em sua Estocolmo natal pela facilidade com que dedilhava uma guitarra, completamente fascinado pela música de Jimi Hendrix e pelo estilo único de Ritchie Blackmore (Deep Purple). Bastaram algumas audições para a subsidiária europeia da gravadora Shrapnel para que desembarcasse em Los Angeles.

O Steeler (não confundir com a homônima alemã, que teve como guitarrista Axel Rudi Pell) logo se mostrou extremamente limitado para o irascível, genioso e genial guitarrista sueco, que não hesitou em aceitar o convite de empresários, em 1983, para integrar o Alcatrazz, banda de Graham Bonnet, vocalista inglês que deixara o Rainbow, de Blackmore, quase dois anos antes.

Sua passagem pela banda foi tumultuada e rápida, mas boa o suficiente para ser apresentado ao mundo como a resposta europeia a Eddie Van Halen em termos de virtuosismo e velocidade. “Live 83” é um registro ao vivo remasterizado de uma apresentação até então inédita do Alcatrazz com Malmsteen e que chega às lojas neste mês de dezembro.

Primeira formação do Alcatrazz, com Malmsteen agachado e fazendo pose

A formação à época contava com Graham Bonnet (vocal), Yngwie Malmsteen (guitarra), Gary Shea (baixo), Jan Uvena (bateria) e Jimmy Waldo (teclados). O som é um hard rock muito semelhante ao Rainbow – por isso é que o sueco foi indicado a Bonnet. A ideia era recuperar a veia mais pesada que o Rainbow abandonara desde a saída de Ronnie James Dio, no início de 1979.

Em um show energético e alucinado, o Alcatrazz mostrou que poderia muito bem ser o futuro do hard rock se não tivesse sido engolido pelas bandas do chamado “hair rock” de Los Angeles que infestaram o gênero de laquê, penteados ridículos, maquiagem vergosonha e som não tão pesado – bandas como Bon Jovi, Motley Crue, Cinderella, Ratt, Poison e outras.

Os hits estão todos lá: a hilária “Too Young To Die Too Drunk To Live”, “General Hospital”, a rápida “Island In The Sun”, o sucesso”Since You Been Gone”, de Russ Ballard e que virou clássico com o Rainbow, a forte “Hiroshima Mon Amour” e a maravilhosa “All Night Long “, com a participação especial de um então novato George Lynch (Dokken e Lynch Mob).

Cartaz de show no Japão que se tornou capa de LP pirata nos anos 80

A energia dos shows não era contida e vazava para os bastidores, com as imensas brigas entre Bonnet e Malmsteen e entre este e Waldo. Estava claro que o sueco era insuportável e que não se conformava em dividir a atenção no palco. Gravou apenas um álbum, “No Parole from Rock N’ Roll”, de 1983, o melhor da banda, antes de sair no final de 1984 para seguir carreira solo.

“Live Sentence”, de 1984, foi o segundo lançamento, ao vivo, ainda com Malmsteen, mas com produção e mixagem deficientes, o que gerou mais reclamações e execrações do guitarrista a respeito deste trabalho. “Live 83” recoloca as coisas nos seus devidos lugares e traz gravações melhores em termos de áudio e em termos de performance da banda, com registros no Japão e nos Estados Unidos.

Alcatrazz com Steve Vai - o primeiro à esquerda

O substituto de Malmsteen foi um garoto magrelo, mas bem mais tratável e sociável, e que vinha com credenciais mais do que absurdas: trabalhava com Frank Zappa e colocava em partitura sua ideias malucas e geniais. Steve Vai caiu como uma luva, mas logo se desencantou com aquilo que considerava “hard rock insosso” – sem falar na pouca paciência em aguentar a rabugice de Bonnet, bem mais velho do que os outros músicos.

Vai gravou “Disturbing the Peace” em 1985, mas não pensou duas vezes em aceitar ser o guitarrista da banda de David Lee Roth, recém-saído do Van Halen – não porque o hard rock de Roth fosse melhor, mas porque a grana era mais alta.

Em 1986 o Alcatrazz tentou continuar com Danny Johnson como principal guitarrista e lançou “Dangerous Games”, que foi um fiasco total, o que decretou o final do grupo. Para quem gosta de um legítimo hard rock oitentista sem os exageros californianos e aprecia um Malmsteen virtuoso, mas um pouco mais contido, “Live 83” é um excelente álbum.

Capa do álbum homônimo do Steeler californiano, a primeira banda de Malmsteen fora da Suécia

Como curiosidade, Graham Bonnet reformou a banda em 2007. Apenas ele era da formação original — completavam o time o guitarrista Howie Simon, o baterista Glen Sobel e o baixista Tim Luce. Sob o título de Alcatrazz estrelando Graham Bonnet, a turnê passou pelo Japão em maio e junho de 2007 tendo como convidado especial em algumas datas o vocalista Joe Lynn Turner, também ex-vocalista do Rainbow.

Enquanto isso, Jimmy Waldo, Gary Shea e Jan Uvena juntaram-se numa outra formação do Alcatrazz com o guitarrista Stig Mathisen, mas sem muito sucesso por enquanto – mas aproveita o nome Alcatrazz. Waldo, Shea e Uvena entraram com processo contra Bonnet pelo uso do nome do grupo, de acordo com eles, o uso viola seus direitos de propriedade intelectual – ninguém teria propriedade exclusiva sobre o nome. A ação judicial ainda corre em tribunais norte-americanos.

Abaixo, dois vídeos do Alcatrazz, o primeiro com Malmsteen e o segundo, com Vai:

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