O começo de Jimi Hendrix, o menino que não podia chorar

Estadão

14 de novembro de 2010 | 14h41

Francisco Quinteiro Pires – de Nova York

Ele desejava ser famoso, mas era tímido demais para cantar. Quando aceitou a própria voz em 1966, Jimi Hendrix deu o último passo para se consagrar como o maior guitarrista do rock. O mérito se deve a três pessoas. Bob Dylan – a entonação fanhosa era a prova de que qualquer um poderia se candidatar a cantor.

Lithofayne Pridgon – negra e sensual, ela foi maternal com Hendrix, que a conheceu no Harlem. E Linda Keith – namorada de Keith Richards, essa jovem se apaixonou pelo guitarrista americano e lhe deu o primeiro ácido. Não fosse o trio, Hendrix teria sido um gênio frustrado.

Essa é a conclusão de Becoming Jimi Hendrix (Da Capo Press, 274 págs., US$ 17,95), biografia escrita por Steven Roby e Brad Schreiber. Baseado em arquivos do FBI, da Justiça e do Exército dos EUA, o livro acompanha o período de formação do instrumentista, morto há três décadas, aos 27 anos.

O pequeno Hendrix aos 4 anos, em um passeio no Leschi Park, Seattle (FOTO: DELORES l. HAMM/DIVULGAÇÃO)

Filho de família disfuncional de Seattle, o guitarrista perdeu cedo a mãe alcoólatra. Não compareceu ao enterro. O pai o proibira, dando-lhe uísque como consolo, pois um homem afoga o luto na bebida. Flagrado dentro de um carro roubado, Hendrix evitou dois anos de prisão ao se alistar no Exército. A saída de casa se mostrou crucial para o jovem cujos instrumentos tinham sido até ali o ukulele de uma corda e a guitarra precária chinesa.

Morando no Tennessee por conta do Exército, em 1962 ele descobriu a cena fervilhante de Nashville, onde cumpriu à risca o que se tornaria a sua sina – ser admirado e demitido pelas bandas que integrava. Hendrix não aceitava ser coadjuvante. Tocar com Little Richard, Sam Cooke, Ike Turner e Tina Turner não lhe satisfazia.

Em 1965, ele foi para Nova York, onde sofreu preconceito. Segundo os negros do Harlem, Hendrix fazia música de branco e tinha um visual ridículo. Teve melhor acolhida em Greenwich Village, região liberal de Manhattan que Linda lhe apresentou. O sucesso veio no fim de 1966 em Londres. E com ele a tragédia.

Festa de lançamento na Atlantic Records, em 5 de maio de 1966, no Prelude Club, em Nova York. Da esq. pra dir.: King Curtis, Percy Sledge, Cornel Dupree e Jimi Hendrix. Foto extraída da biografia Becoming a Jimi Hendrix (FOTO: William Popsie Randolph/DIVULGAÇÃO)

 Em 18 de setembro de 1970, o guitarrista morreu sufocado no próprio vômito, causado pela ingestão cavalar de remédio e vinho. Segundo Steven Roby, porém, o empresário Michael Jeffery seria o responsável pela morte.

Autor de “Black Gold: The Lost Archives of Jimi Hendrix” (ainda sem previsão de chegar ao Brasil), Roby falou ao Estado de S. Paulo. 

“Mesmo após o sucesso, ele evitava falar da infância, mas escreveu músicas para a mãe, morta aos 33 anos. O pai criou Jimi e Leon, o irmão mais novo, com pouquíssimo dinheiro. Durante os anos de luta pela sobrevivência, Hendrix encontrou na música a salvação, apaixonando-se pela guitarra, que o ajudou a expressar emoções e frustrações.”

Blues como raiz. “Muitos músicos de blues como Albert King, Elmore James e Albert Collins são a fonte de inspiração. As primeiras notas de Voodoo Chile, por exemplo, denunciam a influência de Collins. Quando tocava a guitarra entre as pernas ou atrás da cabeça, Hendrix pagava um tributo aos guitarristas de blues.”

Jimi Hendrix e Little Richard no Fillmore Auditorium, San Francisco, California, 21 de fevereiro de 1965 (FOTO: John Goddard/ Courtesy Village Music Archives/ DIVULGAÇÃO)

Ambições criativas. “Era óbvio, principalmente para os líderes de banda, que Hendrix desejava ser estrela, mas era tímido demais para cantar. Ele não aceitava interpretar a música alheia noite após noite. Com improvisações feéricas e roupas ousadas, roubou a cena de Little Richard e dos Isley Brothers. A sorte foi ter conhecido Lithofayne Pridgon e Linda Keith, que o encorajaram a apostar em um estilo próprio.”

Preconceito nos EUA. “Ele enfrentou muita dificuldade por ser guitarrista negro. Poucas bandas eram misturadas, e nelas nunca havia um negro como líder. A norma era: negros tocam R&B e brancos, música pop.

Quando os Beatles mudaram a música em 1964, a guitarra tomou o lugar do sax no mundo pop. Hendrix viu aí um nicho. Os EUA não eram tão receptivos quanto a Inglaterra aos guitarristas negros. Foi mais fácil achar o sucesso em Londres.”

 “Se a ingenuidade era charmosa para as mulheres, no caso dos negócios ela se tornou uma maldição. Ao assinar um contrato de exclusividade por três anos, recebendo apenas US$ 1, em 1965, ele teve problemas legais que o atormentaram até morrer.”

 A palavra letal ganhou novo significado com as recentes alegações de que Jeffery teria assassinado Hendrix (fazendo o guitarrista engolir vinho enquanto dormia sob o efeito de barbitúricos). “Jeffery montou uma agenda superlotada para a banda Jimi Hendrix Experience: as turnês sem fim e as inúmeras sessões de gravação dissolveram o grupo em 1969. Quando Hendrix formou o grupo Band of Gypsys, Jeffery boicotou o projeto.”

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