O blues rock energético e virtuoso de Big Gilson and Blues Dynamite

Estadão

23 de agosto de 2011 | 06h41

Marcelo Moreira

Gilson Szrajbman é um carioca pacato e tranquilo de 52 anos que se transforma em um insano e furioso guitarrista de blues rock. Na pele de Big Gilson, é o principal representante do subestilo no Brasil. E, para variar, assim como Nuno Mindelis, tem mais prestígio no exterior do que em sua terra.

O que pouca gente sabe é que ele é, provavelmente, o músico brasileiro de blues que mais lançou álbuns, ao lado de outro carioca blueseiro da maior qualidade, o gaitista Flávio Guimarães, do Blues Etílicos.

Big Gilson é devoto fervoroso do estilo que abraçou. Seu pacote de lançamentos recém-chegados às lojas, “Big Gilson & Blues Dynamite Live”, que envolve DVD e CD gravados em 2010 em um pequeno bar na periferia de Buenos Aires, na Argentina, retrata um músico intenso, mas completamente senhor de seu trabalho e de seu espaço.

“São mais de 30 anos tocando, acho que já consegui ultrapassar diversas fases e o novo trabalho é um resumo do que venho fazendo ultimamente. É mais blues rock do que nunca”, diz o guitarrista.

Big Gilson em ação no Rio de Janeiro (FOTO: Licias Santos/Divulgação)

A experiência na estrada permitiu a Gilson montar um repertório eclético e variado, sem medo de apostar em clássicos do blues e em músicas de lendas da guitarra que infelizmente andam um pouco esquecidas hoje em dia.

É o caso de Rory Gallagher, irlandês venerado e elogiado por gente como Eric Clapton e Mick Jagger e que morreu em 1995. “I Wonder Who” está presente apenas no CD, mas é um excelente cartão de visitas para quem gosta de energia e guitarra bem tocada. “Acho que consegui personalizar uma canção fantástica, que é um hino na carreira de Gallagher.”

Presentes nos dois lançamentos, “Tell Mama” é um grande tributo a outra lenda britânica do blues rock, o Savoy Brown. Apegada forte e característica de Gilson dão o tom em um tema complexo, que requer muito feeling do instrumentista.

O bom gosto nos “tributos” segue com a divina “Messiah Wil come Again”, do mestre Roy Buchanan, e em um bem sacado e muito bem executado medley de mais de 12 minutos com temas de Jimi Hendrix (“Hendrix Tribute”). Ao final do DVD, como bônus, uma ótima surpresa: uma versão bluesy e “original” de “Changes”, do Black Sabbath.

Da carreira solo Big Gilson pinçou a ótima “Sentenced to Living”, faixa-título daquele que talvez seja o seu melhor álbum, e a bela “Tropical Feeling Blues”, além da energética “Ride the Rocket”.

Os novos lançamentos, encampados pela novata gravadora Coqueiro Verde, traz uma boa novidade: a entrada da baixista Flávia Couri, que também toca na banda de pop-rock Autoramas. “O estilo dela é bem diversificado e eclético. Era o que eu precisava em razão de sua experiência. Tem conseguido dar o peso que a minha música exige, ao mesmo tempo em que faz bem o som cadenciado do blues.”

O que não muda é a parceria de longa data com o produtor e amigo Pedro Garcia, baterista e percussionista do Planet Hemp. “Ele consegue captar como ninguém a minha espontaneidade. Seu ouvido é capaz de manter nos mínimos detalhes os meus timbres e minha sonoridade. Hoje não consigo me ver trabalhando com outro produtor.”

 

Big Gilson & Blues Dynamite no Rio Rock Blues Festival (foto: Glauco de Carvalho/Divulgação)

Prestes a encarar uma turnê norte-americana no final de agosto e em setembro, Big Gilson é um caso raro de reverência ao próprio passado, mesmo que para isso seja necessário mantê-lo à distância.

Fundador e motor do grupo carioca de blues Big Allanbik, de certo sucesso nos anos 90, Gilson consolidou o seu estilo de pegada forte e de timbres mais cristalinos típicos do blues rock, dando o contraponto ao tradicionalismo de Blues Etílicos e André Christóvam.

“Tenho orgulho do Big Allanbik e dos três álbuns que fizemos, foi um período muito importante de minha carreira. E justamente por reverenciar bastante os trabalhos daquele período é que guardo distância para que possa seguir em frente”, diz o guitarrista.

 

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