O blues começa a ressurgir na Grande São Paulo graças a uma rede de restaurantes

Estadão

03 Setembro 2013 | 06h57

Marcelo Moreira

Após anos de seca, com eventos esparsos e sem apoio, o blues começa a renascer na Grande São Paulo com o apoio de uma rede restaurantes. O gênero musical volta a São Bernardo às quintas-feiras na unidade da cidade do Si Señor, cadeia especializada em comida mexicana/ tex mex (variedade que reúne pratos típicos da região da fronteira entre o México e o Estado norte-americano do Texas). O projeto-piloto, que não cobra o couvert artístico dos clientes, teve resultados satisfatórios desde sua implantação, em 18 de julho, e existe a intenção de criar um dia blues também na unidade da vizinha Santo André.

O ABC foi escolhido para implantar o projeto por dois motivos: o histórico da região em abrigar shows de blues – a casa Jazz and Blues, em Santo André, ficou famosa internacionalmente nos anos 80 e 90, enquanto que as jams sessions do pizza bar Don Quixote, em São Bernardo, atraíram os melhores artistas brasileiros do gênero – e o fato de a unidade estar na avenida Kennedy, a “rua do agito e das baladas”, que concentra a maior parte dos bares e restaurantes de bom nível. Em Santo André, o Si Señor está localizado em uma via com as mesmas características,a  rua das Figueiras, no bairro Jardim.

Segundo a direção da rede, a avaliação sobre o desempenho e a viabilidade do projeto será feita de forma cautelosa, mas admite que existem chances interessantes de estender o blues para outras unidades. São 15 ao todo – 12 no Estado de São Paulo (6 na capital, 4 na Grande São Paulo, 1 em Campinas e 1 em Ribeirão Preto) e 3 no Rio de Janeiro.

Celso Salim (esq.) recebe os convidados Little Will (gaita, centro) e Silvio Alemão (baixo) no Si Señor de São Bernardo.

A honra de inaugurar o projeto em São Bernardo coube à dupla Celso Salim (violão, dobro e vocais) e Rodrigo Mantovani (baixo e vocais de apoio), dois músicos veteranos da cena underground paulistana. O esquema é perfeito: em um palco em um canto da parte da frente da casa, perto do bar, com iluminação moderada e de forma acústica e com amplificação igualmente moderada.

No repertório, clássicos do blues com arranjos diferentes – e interessantes – músicas obscuras de grandes bandas de rock, como “No Expectations”, dos Rolling Stones, faixa pouco conhecida do lado A (no LP) do álbum “Beggar’s Banquet”. A intenção inicial é que haja um revezamento de artistas no palco, cada um atuando como “músico residente” por períodos de até dois meses, embora não haja previsão de que Salim e Mantovani encerrem sua temporada no ABC tão cedo.

Guitarrista requisitado por por blueseiros brasileiros, Celso Salim já gravou três álbuns solo entre 2001 e 2007, além de integrar com frequência o Ari Borger Quartet, do pianista Ari Borger, e a banda do gaitista, violonista e cantor Sergio Duarte. Seu trabalho mais recente, de 2012, é “Diggin’ the Blues”, creditado ao duo que mantém com Rodrigo Mantovani.

Com alguns períodos de estudo e shows no exterior, voltou ao Brasil no início dos anos 2000, estabelecendo-se em São Paulo. Teve quatro composições próprias incluídas no Top 500 do concurso de composição da Bilboard em 2008) e uma delas levou o título de “melhor composição de blues” no concurso americano de composição IMA (International Music  Awards). A faixa, “Big City Blues”, que intitula seu álbum de 2007,   estava entre as cinco composições finalistas, sendo três delas americanas e uma canadense. Surpreendentemente, o voto popular selecionou a única composição brasileira da categoria.

Celso Salim (esq.) e Rodrigo Mantovani (DIVULGAÇÃO)

Tão requisitado quanto Salim, Mantovani é versátil e eclético, dividindo com Marcos Klis a preferência de muitos músicos de blues e jazz. Jovem músico de São Bernardo, já acumulou experiências dignas de muitos veteranos com suas linhas de baixo consistentes e com muito groove. Foi um dos músicos que acompanhou os gaitistas californianos Rod Piazza, Lynwood Slim e Mitch Kashmar em recente turnê pelo interior de São Paulo.