O 40º aniversário do disco de estreia dos Secos & Molhados tem que ser comemorado

Estadão

26 de agosto de 2013 | 17h00

Regis Tadeu – da coluna Na Mira do Regis – Yahoo.com.br

O ano de 1973 foi um ano marcante na vida de muita gente. Para um moleque como eu, foi o ano em que vários discos maravilhosos foram lançados. Para os adultos politizados, foi um ano terrível, já que vivíamos debaixo de uma horrenda ditadura, capitaneada pelo tenebroso general Emilio Garrastazu Médici.

Mas dentre todos os discos memoráveis daquela época, a gente não dava muita bola para o que rolava na música brasileira. Todo mundo cabeludo, até então nenhum de nós estava muito interessado em sacar as belas letras e os arranjos maravilhosos dos cantores e bandas nacionais. O que queríamos era ouvir “rock pauleira” no maior volume possível. O som dos Mutantes, por exemplo, era coisa de irmão mais velho…

Para mim, este cenário fechado e radical começou BA ser desmantelado quando ouvi o disco Krig-ha, Bandolo, do Raul Seixas – leia a história toda aqui – e sofreu um abalo sísmico de idênticas proporções quando, atraído pela capa estranhíssima e desconcertante, comprei o álbum Secos & Molhados, o primeiro LP de uma então nova banda nacional.

A capa foi a primeira coisa que me atraiu, justamente por trazer os caras da banda com os rostos pintados, algo que eu já tinha tomado o contato quando comprei o primeiro LP do Kiss, que havia sido lançado na mesma época. Olha, antes que você pergunte, um aviso: a história de que o Kiss imitou o Secos & Molhados na maquiagem é CASCATA! Deu para ler? A maquiagem da banda americana surgiu muito antes de nossos patrícios sequer se conhecerem…

Pois bem, voltando… Transposto o impacto inicial da maravilhosa capa – criada e clicada pelo fotógrafo Antonio Carlos Rodrigues e que ainda contava com a presença do baterista Marcelo Frias, que não só se recusou a usar maquiagem como abandonou a banda semanas depois da seção de fotos, se tornando uma espécie de “Pete Best brasileiro”-, o que escorria dos sulcos do LP era uma sequência de canções espetaculares: “Sangue Latino”, “O Vira”, “Rosa de Hiroshima”, “Fala”, “Assim Assado”, “O Patrão Nosso de Cada Dia”, “Amor”, “Primavera nos Dentes”, “Mulher Barriguda”…

O som era algo que beirava o inacreditável para ouvidos adolescentes acostumados com guitarras distorcidas e baterias avassaladoras. Era uma canção mais linda que a outra, juntando em um mesmo caldeirão generosas quantidades de rock and roll, MPB mais tradicional, rock progressivo, baião e poesia de altíssimo nível – várias canções eram “poemas musicados”escritos por Manuel Bandeira, Vinícius de Moraes e João Apolinário -, além de pitadas precisas de folk, lisergia psicodélica, música folclórica de Portugal e mais um monte de outros troços que até hoje me deixam embasbacado. Tudo com o auxílio de uma banda de apoio sensacional: o baixista Willy Verdaguer – ex-integrante dos Beat Boys, uma banda argentina que havia acompanhado Caetano Veloso em uma edição do festival da Record -, o guitarrista John Flavin, o pianista e tecladista Emilio Carrera e o flautista Sergio Rosadas, além da bateria do já citado Marcelo Frias. Era uma espécie de “Crosby, Stills & Nash maluco, cheio de plumas e purpurinas”.

A voz de Ney Matogrosso era tão esquisita quanto a sua maquiagem e, principalmente, o seu rebolado absurdamente andrógino que passamos a ver na TV quase que semanalmente, ao lado de seus companheiros João Ricardo – o criador, mentor e principal compositor do trio – e Gerson Conrad. Aliás, foi com o apoio até certo ponto inocente da TV Globo, que começou a veicular as imagens e os sons do grupo, que o disco passou a vender mais que pastel de queijo na feira, mas em proporções bíblicas. Era literalmente impossível ir até a casa de alguém que não tivesse este disco na estante.

Reza a lenda que a gravadora do grupo, a Continental, que inicialmente não tinha a menor intenção de divulgar o disco, teve que derreter a maioria dos LPs encalhados de sua produção para obter novos acetatos e prensar mais de um milhão de cópias do álbum, tamanha era a demanda por este LP. Todo mundo tinha o seu: adultos intelectuais, jovens hippies maconheiros, crianças. Até mesmo os militares, que acompanhavam muito de perto qualquer traço de subversão da ordem vigente daqueles tempos.

Ver na TV três caras maquiados e rebolando lascivamente, com Ney Matogrosso cantando em um falsete bastante feminino… Era tanta informação que a cabeça de meio mundo entrou em parafuso. Inclusive a dos integrantes do trio, que acabaram brigando entre si depois de lançar um segundo – e subestimado – LP em 1974, batizado também com o nome da banda.

Quatro décadas depois, é unânime afirmar que este disco causou uma revolução musical em todos os sentidos. E o mais triste é que vivemos uma época tão bunda-mole em termos de ousadia que, se tivesse sido lançado hoje, é provável que causasse gargalhadas em um país que parece gostar mais de abanar o rabo para as merdas musicais das Anittas e Naldos da vida…

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