Nuno Mindelis traz seu blues ousado e moderno a São Paulo

Estadão

29 Junho 2011 | 07h17

Marcelo Moreira

Nuno Mindelis é um sujeito raro hoje em dia na música feita em solo brasileiro. Guitarrista dos bons, gosta de ousar e de experimentar, não tem medo de correr riscos e, se for preciso, admitir sem nenhum remorso eventuais equívocos ou tropeços. Ok, um cara que tem 30 anos de carreira e que é respeitado nos Estados Unidos e Europa pode se dar ao luxo de avançar o sinal – afinal, adquiriu o estofo necessário para assimilar eventuais pancadas. 

Portanto, não é surpreendente que ele seja hoje um sujeito de bem com a vida e com o atual estágio de sua carreira. São vários os convites para mostrar seus blues convencional e ao mesmo nada convencional na França, no Canadá ou nos Estados Unidos. Seu mais novo trabalho, o surpreendente “Free Blues”, lançado em 2010, recebeu críticas eufóricas na Europa e uma agenda concorrida de apresentações no Brasil. 

Por isso quem quiser vê-lo amanhã em São Paulo, em show no Ao Vivo Music, é bom correr. “Será um show sem amarras nem roteiros engessados. O blues vai fluir normalmente, com músicas que executo normalmente, clássicos do gênero e alguma coisa de ‘Free Blues’”, diz o guitarrista. 

O disco mais recente não será a base do espetáculo, apesar da boa receptividade que os clássicos revisitados, com elementos de música eletrônica, tiveram nas apresentações de 2010 pelo Brasil.

“É claro que, quando você decide por uma abordagem diferenciada e com elementos pouco usuais, causa uma estranheza inicial, mas gostei do resultado e mais ainda de como as músicas com bateria eletrônica foram recebidas. Muita gente adorou e nem imaginava que pudesse haver um casamento tão intenso entre o blues e a percussão mecânica”, afirma Mindelis. 

Os puristas não gostaram nem um pouco, mas poucos se aventuraram a se queixar com o guitarrista. Ele estava preparado para receber críticas e pancadas diversas, mas de gente que tivesse realmente entendido o seu ponto de vista e sua intenção de fugir do óbvio. “O risco de escorregar feito sempre existe, e nenhum artista pode ignorar tal coisa, mas isso não é forte o suficiente para barrar o trem. Se quem mexe com música eletrônica viesse e me disse que ficou uma porcaria, que eu não soube programar ou mexer nos programas, tudo bem, faz parte do processo de criação. Sobre o fato de ter experimentado, aí acho que a crítica fica azeda e extemporânea. Os puristas querem sempre o mesmo jeito, os mesmos arranjos. É limitador. Mexer com um gênero santificado incomoda, mas não a ponto de me forçar a tocar a mesma coisa sempre.” 

A necessidade de se reinventar e de diversificar tomou três anos de sua carreira em seu estúdio caseiro. Gravou “Free Blues” sozinho, executando todos os instrumentos e pilotando loops e samplers. Mindelis até tentou chamar gente que mexe com música eletrônica, mas ninguém se interessou em seu projeto. Aprendeu na marra a brincar com equipamentos como Pro-Tools e se aventurou a descontruir, de certa forma, temas caros ao blues, como “Dust My Blues (Dust My Broom)”, de Robert Johnson, “All Your Love”, de John Mayall, “Red House”, de Jimi Hendrix, e “While My Guitar Gently Weeps”, de George Harrison (lançada pelos Beatles).

 Para os desavisados, as versões causam um choque, mas com o tempo é possível observar a ousadia que Mindelis faz sentido quando o mesmo gênero que ele supostamente “profanou” hoje é completamente diferente da música executada por gente como Robert Johnson e Charlie Christian nos 30 e 40 do século passado. 

“A música era executada apenas com um violão acústico. Em seguida foi ‘abduzida’ pelo rock, que o eletrificou e o acelerou, além de ser bastante ‘descaracterizado’ por gente como Eric Clapton, Jimi Hendrix, Jeff Beck, Keith Richards e todo mundo. Não foi uma evolução? Não quis ser pretensioso, muito menos revolucionar o gênero – até porque ‘Free Blues’ não é revolucionário. É apenas uma direção diferente para fugir do óbvio e do lugar comum. E as pessoas estão gostando.”

 Serviço

 Nuno Mindelis

São Paulo, 30 de junho, 22h30, R$ 40.

Ao Vivo Music – Rua Inhambu, 229 – Moema

(11) 5052.0072

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