Novo álbum traz Nuno Mindelis mais versátil, diversificado e energizado

Estadão

18 Setembro 2013 | 07h00

Marcelo Moreira

O chamado do duque foi prontamente atendido e o resultado foi impressionante: pode até não ser o melhor, mas “Angels & Clowns” é o mais importante álbum da carreira do guitarrista brasileiro Nuno Mindelis. Recém-lançado no Brasil pela Substancial Music, é a pérola de um pacote de blues da melhor qualidade que chega ao mercado brasileiro em 2013, ao lado de “Puro Malte”, do Blues Etílicos, lançado pela mesma empresa, de “My New Blues”, de Big Chico, e “Brazilian Bash Blues”, da banda homônima liderada por Giba “Guitar” Byblos e Ivan Marcio.

Mindelis havia prometido no começo do ano, antes de embarcar para os Estados Unidos, que seu novo álbum – uma “intimação” feita por Duke Robillard, guitarrista fantástico que também é diretor de palco e turnê de Bob Dylan – seria diferente, mais livre e mais variado. O guitarrista angolano radicado no Brasil há quatro décadas passou duas semanas em janeiro de 2013 na pacata Providence, em Rhode Island, o quartel general de Robillard.

Com apenas alguns esboços de músicas, Mindelis recebeu todo o apoio que poderia ter de um grande produtor, o que incluiu uma banda afiadíssima e da melhor qualidade. Deu tão certo que o resultado final traz tamanha descontração que não demonstra qualquer tipo de pressão para a conclusão do álbum.  Claro que o dono da casa, além de produzir, deu a sua canja, com um trabalho estupendo na guitarra base em “It’s Only a Dream” e “It’s All About Love”, além do inspirado solo “Hellhound”.

Tudo foi diferente para o guitarrista em seu novo álbum. Como só tinha alguns esboços de composições, acabou terminando várias canções dentro do estúdio, e com a colaboração de alguns novos amigos. Das 13 faixas, 10 são de autoria de Nuno Mindelis, sendo 9 com letras de colaboradores importantes como Mike Bowden e John Williamson, velhos conhecidos de Robillard, além do surpreendente Stephen Barry.

O blues ainda domina a cena, mas despenca cada vez mais para o rock. A guitarra de Mindelis mantém a conhecida elegância, com timbragem única, mas agora ganha mais energia e, de certo modo, um pouco mais de vivacidade, inegável influência do produtor, um dos nomes mais importantes do rock norte-americano.

O trabalho em Rhode Island fluiu de forma tão interessante que quase sem querer “Angels & Clowns” ganhou um “hit” logo na abertura, com “It’s All About Love”, que já se tornou clássico absoluto da carreira do guitarrista angolano-brasileiro e, por que não, do blues feito por brasileiros. Cadenciada e com levada instigante, tem letra da dupla Bowden/Williamson e dá o tom de como é o álbum.

A faixa-título é outro destaque, com uma carga dramática interessante e fraseados de guitarra ousados, expandindo a musicalidade do álbum para além do blues. “Perfect Blues” e “Blues in My Cabin” ecoam um pouco do Nuno mais conhecido dos brasileiros por seus álbuns anteriores, com uma veia um pouco mais tradicionalista, para em seguida explorar novas sonoridades em “Hellhound”, “Happy Guy” e “Tom Plaisir”.

Se havia alguma dúvida de que a parceria com Robillard deu certo, “Angels & Clowns” derruba qualquer desconfiança. Veterano e consagrado, Mindelis enfrentou uma experiência diferente em Rhode Island. Trabalhou bastante, pesquisou muito, ensaiou extasiado com músicos de qualidade muito alta e trabalhou intensamente na conclusão das composições e nos arranjos – das 13 faixas, 10 têm arranjos de sua responsabilidade, enquanto divide com a banda de Robillard o crédito de composição e arranjos em “Jazz Breakfast at Lakewest”.

Com agenda abarrotada no Brasil e no exterior, Mindelis já incluiu músicas novas no repertório de suas apresentações e analisa as possibilidades de voltar a trabalhar com o baterista Chris Layton (ex-Double Trouble, de Stevie Ray Vaughan), com quem tocou em seu elogiado álbum “Texas Bound”. Deve ser muito desagradável ter um monstro como Layton como amigo, e como um amigo que fica insistindo para voltarem a trabalhar juntos…

Ao lado de feras como Duke Robillard e Chris Layton, Nuno Mindelis parece habitar o melhor dos mundos. E ele é um artista que sabe como poucos saborear e valorizar cada minuto de companhias como essas. A luta agora é arrumar outra brecha para gravar um eventual novo álbum em Rhode Island, já que a turnê atual de Bob Dylan tem previsão para durar 18 meses. Não vai ser fácil chamar a atenção do duque novamente.

 

 

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