Nova encarnação dos Faces tocará em festival na Inglaterra

Estadão

13 Abril 2011 | 08h28

Marcelo Moreira

No começo foi só brincadeira. Ao final da última turnê mundial dos Rolling Stones, e meio sem paciência para gravar um álbum solo, Ron Wood disse que adoraria reformar a banda The Faces, mesmo que fosse só por alguns shows, e tendo Rod Stewart nos vocais. “Falei com Rod neste Natal e ele pareceu simpático à ideia”, disse o guitarrista dos Stones ao final de 2009.

A banda havia se juntado somente para um concerto beneficente em 2009 em prol da Performing Rights Society’s Music Members’ Benevolent Fund no dia 25 de outubro daquele ano. Stewart não quis particiar e foi substituído por Mick Hucknall nos vocais (ex-Simply Red). No baixo, no lugar do falecido Ronnie Lane (morto em 1998), ninguém menos do que Bill Wyman (ex-Rolling Stones).

Ron Wood (esq.) e Kenney Jones anunciam a reunião dos Faces em 2010 (FOTO: Lewis-Whyld-AP)

Sem muito alarde, a ideia progrediu e a brincadeira ficou séria no primeiro trimestre de 2010. Stewart desistiu definitivamente do projeto, mas Wood e os outros dois membros ainda vivos, Ian McLagan (teclados) e Kenney Jones (bateria)  foram em frente e começaram a ensaiar no primeiro semestre de 2010, apenas como teste com Hucknall nos vocais (ex-Simply Red) e Glen Matlock no baixo (o primeiro baixista dos Sex Pistols, o único da banda na época que sabia tocar de verdade).

Acasbaram sendo a atração principal do festival inglês Vintage at Goodwood, realizado em agosto daquele ano. Acabaram por fazer mais alguns shows naquele mês na Inglaterra, mas acabaram fazendo uma pausa por conta dos problemas alcoólicos e legais de Wood no segundo semestre do ano passado – mesmo assim ele arrumou tempo para gravar e lançar “I Fell Like Playing”, um album solo.

Show beneficente dos Faces em outubro de 2009, antes da reunião oficial: na foto, Wood, Wyman e Hucknall

Pois o quinteto voltará à ativa ainda neste ano para pelo menos mais uma apresentação, no Cornbury Fest, na Inglaterra, em julho. “Os ensaios estão indo maravilhosamente bem e Mick está tão animado que está me obrigando a compro material novo, e que está ficando muito bom. Vamos gravar um álbum? Não sei, nada está planejado, mas quem sabe?, disse Wood à agência Reuters no começo de março.

Desde que tocaram juntos novamente no show acústico da MTV – e que virou um bem0-sucedido CD – em 1993 que Wood e Stewart falam em novos projetos juntos. Curiosamente, é o cantor que sempre recusa as propostas na última hora, alegando sempre conflito de agendas entre a dele e a dos Stones.

Os dois fizeram apenas uma apresentação juntos como The Faces, em uma apresentação em homenagem ao falecido Ronnie Lane em 2000.

Entretanto, parece que em 2011 não haverá conflitos para Rod Stewart, que teria confirmado a aprticipação em um porjeto de blues ao lado de Jef Beck, outro ex-parceiro dos anos 60.

Os Faces originais em 1971: da esq. para a dir., McLagan, Wood, Lane, Stewart e Jones

A banda The Faces surgiu em 1969 das sobras de outras duas formações, na brincadeira feita por Rod Stewart. Ele e Ron Wood, então baixista, foram demitidos no começo daquele ano do Jeff Beck Group. No mesmo período, Steve Marriott, vocalista e guitarrista dos Small Faces, deixava o grupo para criar o Humble Pie com Peter Frampton.

Ronnie Lane (baixo), Kenney Jones (bateria) e Ian McLagan (teclados), os remanescentes dos Small Faces, convidaram os amigos e vizinhos Wood e Stewart para uma jam session. Bastaram três ensaios para que um novo grupo, The Faces, surgisse, e começasse em seuida as gravações do primeiro álbum, “First Step”, ainda sob o nome de Small Faces, no final daquele ano.

Mick Hucknall, ex-líder do Simply Red

No contrato que assinaram com a EMI, deveriam lançar dois LPs por ano, um como Faces e outro como álbum solo de Rod Stewart. Surgiram assim clássicos e obras-primas como “Long Player”, “A Nods as Good as Wink… to a Blind Horse” e “Oh La La”, dos Faces, e “Every Picture Tells a Story”, “An Old Raincoat Won’t Ever Let You Down” (nos Estados Unidos, “The Rod Stewart Album”), “Gasoline Alley”, “Smiler” e “Never a Dull Moment”, de Stewart.

Apesar do sucesso – rivalizavam em venda de ingressos para shows com Who, Rolling Stones e Led Zeppelin -, a química foi desaparecendo à medida que Wood e Stewart priorizavam suas carreiras solo – Ronnie Lane saíra no comecinho de 1973 em carreira solo, substitído pelo japonês Tetsuo Yamauchi (ex-Free).

Em 1975 a banda praticamente não existia mais, a não ser para acompanhar o cantor em sua careira solo paralela. Stewart precisava de um motivo para daixar a banda sem magoar os amigos. E ele veio com o convite de Keith Richards para que Ron Wood substituísse Mick Taylor nos Roling Stones.

Com o fim dos Faces, Wood virou um Stone, Stewart se transformou no quem sempre sonhou, um cantor pop e Ronnie Lane manteve sua carreira solo voltada para a folk music e colaborações com Pete Townshend (The Who). Jones e McLagan embarcaram na canoa furada dos Small Faces reformado em 1977 com Steve Marriott.

Após o fracasso, o tecladista foi convidado para ser tecladista de apoio dos Rolling Stones, e o baterista substituiu Keith Moon (morto em 1978) no Who em 1979, ficando até 1982 na banda.

O ressurgimento dos Faces, se ficar apenas nos shows esporádicos como uma reunião de bons amigos, cumprirá o seu objetivo de relembrar a importância de Ronnie Lane. Se um novo álbum vier, será totalmente desnecessário.