Norah Jones transforma dor de cotovelo em um belo álbum

Estadão

13 de maio de 2012 | 22h37

Emanuel Bomfim

Em uma década de Norah Jones, nada é como antes. É verdade que o estrondo inicial ainda confunde muita gente, fruto do invólucro jazzy aplicado à garota na sua estreia multiplatinada. Come Away With Me (2002) vendeu 25 milhões de cópias – talvez um dos últimos respiros da indústria do disco em seu pleno vapor e pujança.

Desde então, ela nunca alimentou direito esse papo furado de “nova diva do jazz”. Sem assustar gravadora e fãs, foi remar numa direção cada vez mais underground.

Deu vazão ao folk de origem, montou banda de country, flertou com a eletrônica de clube de grife, cantou rap com Q-Tip e bossa nova com Foo Fighters. Nada, no entanto, é tão radical quanto seu mais novo rebento, Little Broken Hearts, previsto para sair na terça-feira, mas já amplamente disseminado na web.

É certo que a suavidade de sua voz ainda permanece irretocável. Todo o resto, porém, tende a causar estranheza, incluindo a pose sexy na capa vintage escolhida para o álbum – uma versão do cartaz do filme Mudhoney, do cineasta americano Russ Meyer. Jones molda para si um pop adulto diluído em peças cruas, experimentais e climáticas.

Tal passo vem escoltado pela parceria com o produtor Brian Burton, o “Danger Mouse” do Gnarls Barkley. “Nunca houve a sensação de que o que estávamos fazendo seria para tocar facilmente no rádio. Ela não estava preocupada com isso”, explicou Burton ao New York Times.

A parceria é quase uma coautoria: a dupla se trancou no estúdio dele em Los Angeles para gravar sem nada pré-escrito ou definido. “Compus as músicas do zero”, revelou Norah ao mesmo jornal. A falta da zona de conforto pouco inibiu tudo o que a artista tinha para desabafar.

 São canções que refletem o difícil término de seu namoro com um escritor de ficção, imbuídas por motivações e sentimentos diversos: saudade, tristeza, traição e vingança.

Good Morning, por exemplo, narra a dor de ter que deixar seu amado e seguir em frente. Em She’s 22, que já ganhou um remix luxuoso de David Sitek, do TV On the Radio, ela confronta o namorado sobre sua jovem amante. “Você gosta das minhas músicas/E você me faz feliz/Será que ela te faz feliz?”

Já em Miriam, a fúria ciumenta ganha contornos assassinos. É a faceta mais assustadora que Norah já ousou mostrar: “Miriam/Você sabe que me fez mal/Eu vou sorrir quando você disser adeus.”

Apesar do tom sombrio, a morena conta que escrevê-la não passou de um divertido exercício ficcional, quase cinematográfico. “Não tome um sentido tão literal. Não vá matar ninguém. É uma canção concebida para extravasar sentimentos através de algo que é seguro.”

O disco anterior, The Fall, também havia pegado carona num fim de relacionamento para virar música de apelo emocional. A musa admite que a fossa é boa fonte de inspiração, mas acredita que já está de bom tamanho dois discos sobre os recentes foras. Promete explorar outras temáticas, talvez mais ensolaradas. Seja qual for o ensejo, uma coisa parece certa: Norah Jones seguirá em plena transformação.

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