Nenhuma cantora brasileira consegue chegar aos pés de Adele

Estadão

11 de janeiro de 2012 | 06h47

Marcelo Moreira

Festas de final de ano regadas a músicas natalinas e hits do momento – os piores que existem. Não dá para fugir desta sina. Rock no som? Só se for no iPod ou no MP4, com fones de ouvido e em local isolado.

Para cada música de Jeff Beck ou Eric Clapton que eu consegui ouvir, era oito ou nove de porcarias sertanejas e uma ou outra dessas milhares cantoras que infestam a atual MPB – algumas razoáveis, outras desnecessárias e algumas totalmente descartáveis.

Tive o infortúnio de ouvir CDs inteiros de Maria Gadú (“Mais Uma Página”, o mais recente) e Marisa Monte (“O Que Você Quer Saber de Verdade”), além de alguma coisa esparsa de Ana Cañas, Marina de La Riva, Karina Buhr, Juliana Kehl, Céu e outras mais – só uma dose maciça do thrash metal do Exodus para me desintoxicar depois…

Já no ano novo, ficou a constatação: nenhuma cantora brasileira da atualidade chega aos pés da qualidade musical e da versatilidade de uma artista como a inglesa Adele – em termos de repertório, então, aí é covardia.

Enquanto a legião de brasileiras fica na mesmice, repisando clichês esclerosados e chafurdando na falta de ousadia, a inglesa dá um banho de interpretação e de inteligência na escolha do repertório – que nem é assim lá essas coisas, mas é milhões de vezes superior a qualquer coisa que as meninas brasileiras tenham feito nos últimos dez anos. No máximo o primeiro CD de Marisa Monte, gravado lá nos anos 80, consiga ombrear “21”, o mais recente de estúdio de Adele.

E o pior é que a nova estrela da música britânica passa longe de ser o que de melhor a música do Reino Unido está produzindo. Está estourando em todas as paradas, mas é claramente uma artista superestimadas, que ainda precisa percorrer quilômetros e quilômetros para ganhar a respeitabilidade que uma Amy Winehouse, por exemplo, conquistou em tempo tão curto.

O lançamento mais recente de Adele, o CD/DVD “Live at Royal Albert Hall”, mostra que a moça tem uma voz muito boa, esforça-se bastante para interpretar com emoção suas canções e mostra versatilidade que inexiste em terras brasileiras e norte-americanas entre as cantoras da atualidade.

Ela passeia com desenvoltura pelo jazz, pelo folk e pelo blues, e até que consegue se virar em algumas cações mais rápidas, quase rocks, embora derrape na sua especialidade, a mais pura música pop açucarada. O pacote até que não incomoda, e tem alguns momentos interessantes quando o jazz e o blues predominam.

Pois é dessa cantora inglesa, que atualmente é bem inferior a artistas como Imelda May, Beth Hart ou Imogen Heap, que as brasileiras tomam uma surra feia. A comparação de Adele com qualquer uma citada no início do texto chega a ser constrangedora.

A inglesa se mostra à vontade em vários estilos e é muito superior em interpretação – sem falar na espontaneidade. Beth Hart, Imelda May, Doro Pesch? Se as brasileiras as ouvissem, teriam obrigatoriamente de mudar de profissão.

Portanto, fazem sentido todas as críticas feitas até agora ao novo álbum de Marisa Monte, onde a pancada mais leve versava sobre a estagnação criativa e a falta de ousadia. Eu iria bem mais longe, mas faço o possível para evitar a MPB, que 99% das vezes me irrita profundamente.

O fato é que ouvir Adele por uma tarde não chega a ser torturante. Não chega a ser um fardo. Ouvir qualquer cantora brasileira que tem se destacado nos últimos dez anos é penoso, é um castigo que não desejo a nenhuma pessoa de bom gosto – muito menos a roqueiros de bom gosto.

Quem diria que um dia uma cantora apenas ok, como Adele, colocaria no bolso toda uma legião de brasileiras com pouca voz e talento escasso na composição – fato inversamente proporcional à pretensão artística delas?

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.