Nâo há bares para ouvir rock sossegado em São Paulo

Estadão

18 de janeiro de 2012 | 06h31

Marcelo Moreira

O rock não só está definhando no dial de emissoras de FM, em especial o rock nacional (ou o que sobrou dele). Também diminui o número de casas que abrigam bandas em São Paulo – Ledslay acabou e Kazebre luta há tempos contra falta de documentação e problemas de infraestrutura. Está cada vez mais difícil encontrar um bar onde se possa saborear uma cerveja e uma porção de qualquer coisa ouvindo rock. Estão sendo extintos rapidamente.

Não me refiro aos clássicos do gênero na capital paulista, como Manifesto, Stones Music Bar e Morrison e Blackmore, Estas casas já ultrapassaram o estágio de bares e se transformaram em casa noturnas, com shows quase diários, inclusive internacionais.

Também não me refiro aos chamados “clubs”, aqueles bares que na verdade são casas noturnas com pequenas pistas para o povo dançar. Em todos, é muito difícil sentar e conversar ou namorar, já que o som é alto e a finalidade é outra – dançar ou ver as bandas.

Não existe bares em São Paulo onde você possa sentar com amigos ou namorar e tomar uma cerveja ao som de um bom rock’n roll. Conta-se nos dedos alguns locais por aí: o velho e bom Piu Piu, no Bexiga, All Blacks e O’Malley’s, dois pubs nos Jardins, algumas unidades do Outback, com rock-pop australiano como música ambiente, e mais um poucos eleitos – como o improvável Jhonny’s Bar, no bairro do Limão, um bar típico de bairro ao lado do prédio do jornal O Estado de S. Paulo, com o rádio permanentemente sintonizado na Kiss FM ou Mitsubishi.

O que predomina é o pagode e o sertanejo universitário. Até mesmo casas interessantes trocaram a trilha sonora roqueira por outros gêneros em busca de mais público.

Nada contra, cada um sabe o que faz para melhorar ou evitar que o negócio vá à bancarrota, mas é complicado encontrar um boteco ajeitado (ou nem tanto) com música boa para curtir o papo com os amigos e a cerveja gelada.

Jhonny's Bar, no bairro do Limão, com muito rock no som e na TV (FOTO: JOÃO ELEUTÉRIO)

O predomínio do pagode péssimo, do sertanejo insuportável e da MPB mais rasteira que existe não estimula o roqueiro a sair de casa, a não ser que a escolha recaia sobre os pubs ou aos bares-casas de show citados no começo do texto, sempre com bandas tocando em volume alto, dificultando a conversa.

Uma rápida passagem pelo google para ver o há de novo na área e o panorama é desanimador. Há o Dinossauros Rock Bar (ou Thenossauros), que não conheço, na Rua dos Pinheiros, em Pinheiros. O site informa que tem palco e apresentação de bandas, o que o coloca no estilo do Piu Piu e do Manifesto.

Recentemente ouvi falar do Bar Rock Club, em São Bernado do Campo, no ABC. Pesquisei melhor e vi que também é um bar com música ao vivo, palco e tudo, com shows muito interessantes, mas que só funciona dois dias por semana, sexta e sábado, dentro de um clube social chamado Clube Bochófilos (!!!!), no centro da cidade…

Outra casa que descobri agora, embora já tenha algum tempo funcionando, é o The Clock Bar, na rua Turiassu, próximo ao Palmeiras, com visual dos nos 50 e 60 e frequentado por quem curte rockabilly, mas ali também há um pouco, música ao vivo…

E que tal o Memphis, em Moema, com programação variada, indo do pop ao hard? Seria uma opção interessante, mas tem música ao vivo todos os dias e pista da dança… e por aí vai, cada vez mais difícil encontrar algum lugar sem ter de su0portar o som alto da banda tocando.

E muito provável que andando por Pinheiros, Vila Madalena, Moema, Santana, Praça Sílvio Romero (Tatuapé) e Avenidas Luís Dumont Villares e Engenheiro Caetano Álvares (zona norte) seja possível achar um bar tranquilo onde a trilha sonora seja o rock’ n roll, mas para isso será necessário disposição e andar bastante.

Sendo assim, o que sobra? No ABC, por incrível que pareça, existem botecos simpáticos onde só toca rock. O Ace of Spades (ex-Black Label Society, uma óbvia remissão ao nome da banda de Zakk Wylde – ex-Ozzy Osbourne), no Jardim Bela Vista, em Santo André, é uma das poucas e boas opções, com muito heavy metal e hard pesado, com futebol e futebol americano nas TVs. O nome, que remete a uma música do Motorhead, é mais do que adequado.

Ainda em Santo André há o Loolapalooza, importante casa de rock e de música no bairro Jardim, mas que ampliou a quantidade de bandas que tocam ao vivo. O Retro Pub, no Jardim do Mar, em São Bernardo, é outra boa opção. De vez em quando aparece uma estrela como Andreas Kisser (Sepultura).

O Bar do André, no bairro Nova Petrópolis, em São Bernardo, até o cardápio é blues/rock, com petiscos e pratos com nomes de astros da música – e muita música da melhor qualidade no som e na TV/DVD.

E também em São Bernardo fica o Cinemin, no centro da cidade, um bar minúsculo, mas cult, com decoração que remete ao cinema, mas com uma coleção de DVDs musicais invejável, quase sempre de classic rock. Ali é possível tomar cerveja importada e beliscar as porções, pratos e iguarias inventadas pelo chef Reynaldo Gollo. Na categoria pub, São Bernardo oferece o Liverpool, com ênfase pop-rock dos anos 80 e 90.

Será que em Guarulhos, Osasco, Barueri não existem opções incógnitas? Ou mesmo em bairros um pouco menos badalados em São Paulo? E no Rio? Em Curitiba? E em Belo Horizonte? O Combate Rock aceita sugestões e indicações – e agradece imensamente – de botecos para se ouvir rock na boa, sem ser cada de show, com música ao vivo.

Enquanto isso, pata os paulistanos, sobra o bairro do Limão para curtir um bom rock no rádio ou algum DVD levado pelos frequentadores no Jhonny’s Bar…

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