Nação Zumbi: músicos se tornam grifes de estúdio

Estadão

18 de março de 2012 | 16h07

Emanuel Bomfim

A sensível ausência de material inédito na vida da Nação Zumbi não é esgotamento, tampouco efeitos de uma nova lógica do mercado de discos. Juntos, meio juntos ou totalmente separados, os caras não param de trabalhar.

aça uma breve pesquisa e verá: ter a “grife” Zumbi virou sinônimo de vanguarda e bom gosto na produção nacional. Até a estrela maior Marisa Monte caiu nas graças dos pernambucanos, colocando Pupillo, Dengue e Lúcio Maia para darem cor ao recém-lançado O Que Você Quer Saber de Verdade. A sintonia foi tão grande que o power trio já recebeu convite para tocar na próxima turnê da cantora carioca.

Aquela antena fincada no mangue de antigamente, símbolo de um movimento que hoje é objeto de estudo acadêmico, está mais para uma banda larga sem limites. “A gente nunca havia pensado em ser ‘músico’, tocar com outras pessoas. A gente fez a banda. Nosso universo era nossa banda. Vendo hoje o que a gente fez com a Nação e fora dela, eu fico realmente espantado”, diz o baixista Dengue, integrante de vários dos projetos paralelos do grupo, como o 3 na Massa e o Sonantes. Recentemente, também participou do disco do músico Gui Amabis, Memórias Luso/Africanas.

Incorporar as ideias quase sempre roqueiras dos rapazes também virou desejo de quem faz cinema. E os principais atingidos são o vocalista Jorge Du Peixe e o guitarrista Lúcio Maia, responsáveis, por exemplo, pelas trilhas de Amarelo Manga, de Claudio Assis, e Na Linha de Passe, de Walter Salles.

Com o recente A Febre do Rato, também de Assis, Du Peixe foi premiado no festival de Paulínia. Para ele, sair do espectro da Nação só traz bons frutos para o próprio grupo. “Ao convidar um músico para participar de um outro projeto, você o coloca numa situação diferente, sai da sua zona de conforto; são vivências importantes, traz descobertas”, defende o frontman do combo recifense.

O caso de Pupillo é ainda mais interessante. Além de baterista requisitado, como se vê no novo trabalho da cantora Céu, o músico é um produtor de mão cheia. Em suas múltiplas investidas, estão artistas como Otto, Junio Barreto, Cibelle e o grupo Mombojó. Quase sempre ocupado em sessões de estúdio, não deixa de se aventurar pelo palco, como fez na turnê internacional com o Almaz, grupo que montou com Seu Jorge, o colega de banda Lúcio Maia e o “trilheiro” Antonio Pinto.

Infiltrados numa cena que pensa a nova MPB, o quarteto criativo da Nação Zumbi evita recorrer a conceitos estéticos modernizantes para explicar tamanha procura. Apostam num misto de ciclo de amizades com a mais pura competência em seus instrumentos.

“Eu curto tocar guitarra e gosto das pessoas. Eu sou o contrário do sociopata”, brinca Maia, o único da turma que configurou uma estruturada carreira solo, que já reúne dois discos e um terceiro a caminho. “Tenho 30 músicas prontas, mas estou procurando um produtor, não quero fazer o disco sozinho novamente”, conta.

Uma formação recente da Nação Zumbi

Rios, pontes e overdrives. Em 2009, celebrar era preciso. Fazia 15 anos que um tal de Da Lama Ao Caos rompia com o marasmo do rock nacional para jogar todos os holofotes sobre Recife.

Era a explosão do movimento mangue beat, amplamente associado à figura do excepcional Chico Science. Nada mais natural que o saudoso baile de debutante tivesse o peso dos tambores da Nação. Como num carnaval fora de época, o octeto fez a alegria de 80 mil pessoas que compareceram ao Marco Zero naquela noite de dezembro.

Três anos depois, o registro do show – que estará em São Paulo nos dias 15, 16 e 17 próximos, no Sesc Pompeia – acaba de sair em DVD, CD e LP (pela Deckdisc). “Oitenta mil pessoas, naquele lugar, em plena quarta-feira, com aqueles convidados, além de ser o primeiro DVD em Recife, foi uma coisa tão estranha para mim que só pude digerir um tempo depois. Foi uma emoção”, lembra o baixista Dengue.

Lúcio Maia reforça a importância de ter gravado este material na cidade natal da banda. “Mais do que um disco ao vivo, o DVD traz a ideia do que é a Nação Zumbi no Recife. A cidade é importante pra gente, ali tem uma energia completamente diferente de todos os outros lugares. Recife tem orgulho, uma necessidade, a banda precisa tocar lá”, diz.

Voltar à capital pernambucana é também desfrutar de um legado que nasceu em meio a uma tragédia social e econômica que o País vivia nos anos 90. Inicialmente underground, o mangue beat logo virou sensação entre os jovens, ganhou a imprensa e adeptos além da música.

Tinha conceito, um manifesto improvisado e, claro, Chico Science. “Mas teve muita coisa de equívoco também. Mangue beat não representava uma sonoridade, representava um comportamento. De repente, todo mundo achou que o mangue beat se incorporava. Mas o que era o mangue beat? Era se movimentar, sair do lugar”, explica Lúcio Maia.

Para Jorge Du Peixe, o acaso teve um papel importante na projeção daquela nova cena, mas revela que, mesmo numa era pré-internet, a busca por informações possibilitou uma mistura original de rock e regionalismos. “A gente tinha absorvido coisas bem distintas, desde a diáspora africana a toda psicodelia setentista do rock and roll, além de muito hip hop.”

No forno. Há quatro anos sem lançar disco de estúdio, desde Fome de Tudo, a Nação Zumbi promete novidades ainda para o segundo semestre ou, mais provável, para o ano que vem. Ainda sem título, o oitavo trabalho na carreira do grupo foi gravado no estúdio Monaural, no Rio de Janeiro, e contou com produção do amigo de longa data Kassin e de Berna Cepas. “A ideia é mixar com Mario Caldato. O disco está bonito, bem diferente”, resume Jorge Du Peixe.

Dengue também evitou dar mais detalhes, mas já admite influências diretas dos freelas que a banda adotou nos últimos anos. “Essas experiências exteriores resultaram num álbum bem lapidado.”

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