Nação Zumbi comemora 20 anos

Estadão

15 de março de 2012 | 16h56

Pedro Antunes – Jornal da Tarde

  Comemoração em Sâo Paulo começa hoje no Sesc Pompeia - Divulgação

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Comemoração em Sâo Paulo começa hoje no Sesc Pompeia

O barulho ensurdecedor dos batuques impedia qualquer um de ouvir mais que batidas frenéticas: Tum! Tum! Tum! Sozinho, num canto, um roqueiro de 20 anos debruçava-se sobre um pequeno amplificador de 15 watts de potência para tentar entender as notas que sua guitarra produzia.

Somente ele conseguia distinguir os riffs produzidos naquela tarde no Recife, em 1991, enquanto o resto era açoitado pela percussão do maracatu. “Foi ali, bicho, que consegui entender que o maracatu tinha o mesmo formato rítmico de outros gêneros musicais. Pude experimentar sequências de notas roqueiras, e elas funcionaram!”, lembra Lucio Maia. O músico se tornaria referência no instrumento e aquele saudoso dia, 21 anos atrás, seria o primeiro ensaio do que viria a ser a Nação Zumbi.

E o início da banda que lideraria o manguebeat não foi simples. Maia era convidado de outro músico, Francisco de Assis, cinco anos mais velho. Chico Science, como seria imortalizado, não era do rock, mas estava mais próximo do samba-reggae – o gênero tinha explodido no fim dos anos 80, liderado por Daniela Mercury.

Depois daquele encontro, o guitarrista percebeu que precisaria diminuir o número de percussionistas para que todos os outros instrumentos se tornassem mais audíveis naquela mistura. Chico demorou a topar aquela que parecia uma mudança de rumo da banda, mas cedeu.

“Na época, Recife era considerada a quarta pior cidade do mundo. Precisávamos de algo que aglutinasse a cultura que fazíamos lá. E o Chico era a pessoa certa para isso”, define Maia.

As comemorações, ainda que tardias, dos 20 anos de estrada (completados em 2011) têm como destaque o lançamento do CD e DVD Ao Vivo no Recife, com a apresentação histórica no Marco Zero, ponto turístico da cidade, em 2009, para 80 mil pessoas.

Em São Paulo, o grupo celebra no Sesc Pompeia, hoje à noite, amanhã e sábado, datas com todos os 2,4 mil ingressos esgotados em pouco mais de duas horas. “Fizemos shows em casas maiores, como o HSBC Brasil, Via Funchal, o antigo Palace (Citibank Hall). E sabe o que acontecia? O público enchia meia casa. O fã da Nação é fervoroso, mas não gasta muito”, diz Maia, entre risos. A agenda do Sesc não comportou mais datas.

Segundo Lucio Maia, um erro resiste ao longo dessa longa trajetória: 18 anos após o lançamento do disco de estreia, Da Lama Ao Caos, o som da banda ainda hoje em dia é categorizado como manguebeat.

“Falamos isso sempre: o manguebeat foi um movimento, com várias frentes diferentes. É só pensar em como o som do Mundo Livre S/A (outra importante banda do movimento) é completamente diferente do nosso”, diz Maia. “O que fizemos foi encontrar uma fórmula para reunir o maracatu com a guitarra e o hip hop.”

Fato é que a Nação liderou a última grande revolução da música brasileira. Uniu o maracatu ao rock pesado, com pitadas de rap. E quando todos estavam acostumados a procurar por novidades no eixo formado por Estados do Sudeste e Sul, Pernambuco despejou uma musicalidade despretensiosa, mas barulhenta e incisiva. Um mar de caranguejos desceu o País.

“Eu lembro de quando tocamos no primeiro festival Abril Pro Rock, em 1993. Tocamos para 15 pessoas, mas um pessoal da MTV estava lá e ficou boquiaberto com o som que fazíamos.”

O grupo nasceu em um movimento espontâneo e independente, mas logo no primeiro disco, Da Lama…, já contava com o suporte de uma gravadora. O álbum ao vivo, assim como o último disco de estúdio, Fome de Tudo (2007), foram lançados pela Deck. “Meu irmão, não dá pra ser completamente independente no Brasil, né? Falam muito da internet, mas fazer a distribuição é horrível.”

Para 2013, a banda planeja o oitavo disco, o sexto sem a presença de Science (morto em 1997). “Aquilo (o acidente de Chico) nos uniu ainda mais. Vieram muitos convites, projetos individuais, mas sempre voltamos.” E o maracatu se mantém atômico.

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