Na taberna com o malvado Tom Waits

Estadão

29 de outubro de 2011 | 23h19

Jotabê Medeiros

As canções estão mais curtas, mas as bordoadas parecem mais doídas. Faz algum sentido? “Todo mundo sabe que sombrinhas custam mais quando chove”, parece explicar Tom Waits em Talking at the Same Time, música de seu novíssimo álbum Bad as Me. O disco foi disposto na internet anteontem, no site dele (www.badasme.com).

Havia cinco anos que Tom Waits não lançava algo (o último foi o álbum triplo Orphans: Brawlers, Brawlers & Bastards, de 2006). E tinha sete anos que ele não fazia um estrito disco de estúdio – o mais recente fora Real Gone, de 2004.

Tom Waits é um tipo único de animal musical. Não canta as coisas apenas para fazer número. Geralmente não usa muitos recursos cênicos: há um bar, alguns outsiders, uma garrafa quase vazia, uma iluminação deficiente, uma garota com uma história tatuada na carne, uma testemunha muda, uns trocados que não pagam o próximo drinque.

É inesquecível a cena em que Rudy, seu personagem no filme Ironweed, de Hector Babenco, canta Big Rock Candy Mountain, uma canção da grande Depressão popularizada por Roosevelt durante o New Deal. Rudy é um sem-teto, há uma mistura de carinho e ironia extremada em sua interpretação alcoólica.

Mais uma vez, Waits preenche um trabalho com essa sensação de humanidade sob a devastação. “Se todos formos embora/Talvez as coisas melhorem em Chicago/Deixar tudo que nunca conhecemos/Por um lugar que nunca vimos”, ele canta, na primeira faixa do disco, Chicago, sob saraivada de metais.

O cantor Tom Waits ( REUTERS/Lucas Jackson )

Entre síncopes de revolta e ternura, esse mineiro da última centelha de humanidade segue escavando. A sanfona melancólica de Augie Meyers vibra em Pay Me, clássica balada de fracasso crônico de Tom, como ele fazia nos anos 1970. “Todas as estradas levam ao fim do mundo”.

Ouvir Tom é “como combinar o cabelo com a estrada”, em suas próprias palavras. Bad as Me é menos cru do que de costume, os arranjos estão muito caprichados, o que nem combina muito com Tom. Há diversos convidados estrelados também. Charlie Musselwhite toca gaita em cinco faixas, e Flea (do Red Hot Chili Peppers) toca baixo em outras maravilhas, como a furiosamente pacifista Hell Broke Luce. Clint Maedgen toca saxofone e Ben Jaffe trombone e clarineta.

Mas o convidado mais inesperado é Keith Richards, dos Rolling Stones. Richards toca guitarra e canta em The Last Leaf e Satisfied. Hilariante a história que Waits contou ao site Pitchfork sobre como se deu essa colaboração. Ele brincou com o cara da gravadora quando este perguntou que convidados gostaria de ter. Ele disse “Keith Richards”.

Eles convidaram mesmo. “Eu fiquei nervoso. Ele chegou com 600 guitarras numa picape. Estávamos num desses estúdios gigantes em Nova York, como se fosse As Aventuras do Poseidon. Colossal, com tetos tão altos quando os de campos de futebol. Eles enchem essas coisas com orquestras, e nós éramos apenas cinco caras. Tava esquisito. Ele me aniquilou. Foi de derrubar quando ele tocou em todas aquelas coisas”.

O amor não é um clichê molhado nas canções de Waits. “Beije-me novamente como a um estranho”, diz ele, em Kiss Me. “Você é a mosca na minha cerveja”, canta o bardo, como se reencarnasse Raulzito em Mosca na Sopa.

Há baladas que parecem surgir de uma vontade de desaparição, como Face to the Highway e Raised Right Men. Há um rock’n’roll trôpego, Get Lost, que reconecta Tom Waits com seus primeiros álbuns, como Closing Time (1973).

E o gospel New Year’s Eve, cuja letra revitaliza o apuro de cronista beatnik de Tom Waits. “Estava partindo de manhã com Charles para Las Vegas/E não tinha planos de retornar/Tinha só algumas coisas/Duzentos dólares/E meus discos num saco de papel de padaria”.

Bom, um disco como esse num saco de papel de padaria vale por toneladas de pen drives gordos cheios de empáfia.

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