Mutantes, a banda mais superestimada da história

Estadão

16 de maio de 2011 | 07h24

Marcelo Moreira

Um é pouco, mas sempre será mais do que zero. Muita gente usa essa máxima como argumento para justificar a existência ou gosto por alguma coisa. Se não tem coisa melhor, vai esse mesmo, segundo dizem por aí.
Não consigo deixar de pensar nisso toda vez em que ouço qualquer música dos Mutantes – 100% das vezes contra a vontade, seja em bares ou na casa de amigos.

A banda faz parte do grupo dos artistas mais superestimados do planeta e da história. Só não supera o “mito” João Gilberto, o suposto criador da bossa da nova e de um suposto “novo jeito” de tocar violão, mas que na verdade não passa de um violeiro egocêntrico que toca e grava as mesas cinco músicas há 55 anos.

Os Mutantes surgiram em um momento importante ao mesmo tempo complicado da história da música brasileira – e da história social e política do país.

Foi um sopro de criatividade em um tempo de terra arrasada, onde um bando de coitados fazia passeata contra a guitarra elétrica e os festivais de MPB não passavam de concursinhos de cartas marcadas, com as vacas sagradas de sempre dando as cartas – seria muito interessante ver Elis Regina nos anos 80 ou hoje em dia fazendo passeata contra o computador…

Formação atual da bandas Mutantes (FOTO: DIVULGAÇÃO)

Portanto, em época de terra arrasada e de pseudocontestação – no caso da intragável Tropicália –, os Mutantes e até mesmo Ronnie Von vieram para chacoalhar o ambiente e mostrar que era possível fazer crítica social e ter bom humor no rock’n roll, mesmo que fosse por meio de músicas ruins e letras pseudointelectuais.

A maior prova de que os Mutantes eram – e são bem menos do que a “história oficial” dos baba-ovos dizem que são – é seguinte fato: a melhor coisa do grupo, a cantora Rita Lee, foi defenestrada no auge da banda. Como vingança, engatou uma carreira solo de extremo sucesso e de boa qualidade, transitando com competência entre o pop e o rock.

Seus “companheiros” de banda não tiveram a mesma sorte. A saída de Rita Lee coincidiu com o declínio, em 1974 – se é que era possível cair mais, já que nunca foram tão longe, seja criativamente ou em termos de sucesso.

Os álbuns que vieram era mais fracos ainda do que os considerados “grandes trabalhos”. Com idas e vindas de integrantes, embarcaram na moda do rock progressivo, mas sem ter a competência de gente como Patrulha do Espaço, O Terço e Bacamarte, entre outros. Foi a senha para que o grupo morresse de inanição.

Muito esperta, Rita Lee fugiu da reunião dos Mutantes nestes anos 2000. Abençoou para não ficar com a pecha de mal humorada, e elogiou a escolha inicial de Zélia Duncan para substituí-la, mas teve a sabedoria para fugir do mico.

Sérgio Baptista, guitarrista dos Mutantes em ação no SWU, em 2010 (FOTO: DANIEL TEIXEIRA/AE)

O fato é que os Mutantes versão século XXI só existem graças a meia dúzia de músicos metidos a intelectuais e com fama de cult, que começaram a dizer ainda nos anos 90 que “tinham sido muito influenciados por Mutantes, ícone da psicodelia mundial”, teria dito certa vez o músico norte-americano Beck à revista Bizz.

Assim como ele, outros fingidores e pseudointelectuais adoravam se mostrar cults citando a banda e até mesmo Tom Zé. Entre esses estavam músicos inexpressivos como Sean Lennon, filho do ex-beatle John Lennon, e gente respeitada e com trabalhos consistentes, como David Byrne (ex-Talking Heads), um entusiasta da chamada world music.

Essa babação de ovo até que animou os irmãos Arnaldo e Sérgio Baptista a se reunirem quase 30 anos depois para alguns shows com lotação esgotada em Londres e Nova York, que renderam um álbum ao vivo.

Rita Lee cantando na Virada Cultural de São Paulo neste ano (FOTO: ERNESTO RODRIGUES/AE)

Nada disso, no entanto, foi suficiente para resgatar os Mutantes do limbo, já que faltou estofo para que continuassem, caso realmente houvesse um genuíno interesse pela volta da banda. Tanto não houve que Arnaldo Baptista pulou do barco.

Os Mutantes conseguiram inscrever seu nome na história e tiveram importância na história da música brasileira, só que em um momento de terra arrasada – um é sempre mais do que zero. No entanto, nunca passaram de uma banda de rock medíocre, com músicos e compositores no máximo medianos.

Nunca foram referência nem mesmo para a geração do rock brasileiro dos ano 80 – alguns músicos deste movimento só passaram a elogiá-los quando isso virou moda. Nunca foram um desastre, mas com certeza são uma das bandas de rock mais superestimadas da história.

Capa do primeiro álbum dos Mutantes, de 1968

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