Música x ouvinte-fã: que tal discutir a relação? – parte 2

Estadão

27 de agosto de 2012 | 12h00

Marcelo Moreira

 Diante do mercado inóspito, cabe a pergunta: o que leva artistas a gastar tempo e dinheiro dentro de um estúdio para lançar material novo e inédito, com o risco iminente de dispersão e retorno altamente duvidoso?

Os músicos consagrados costumam abusar do chavão: “antes fazíamos turnês para promover álbuns e elevar suas vendas; hoje gravamos e lançamos álbuns para ver se conseguimos agendar turnês”. Isso é verdade, mas será que serve para bandas iniciantes de rock, por exemplo?

Somente nos últimos 12 meses uma enxurrada de lançamentos de bandas de rock e heavy metal iniciantes e nem tão iniciantes assim que ainda buscam ampliar sua base de fãs: Maestrick, Psychotic Eyes, Uganga, Kappa Crucis, Hugin Munin, Scelerata, Lothloryen, Bad Salad, Máquina, Projekt 46… O que esperam esses artistas após os gastos com estúdio e produção?

“Mais do que portfólio, o álbum gravado e distribuído em formatos físicos ou digitais representa a vitalidade de uma banda. Esse tipo de registro, seja no Brasil ou no exterior, ainda é o atestado de que existe um trabalho. Quanto mais benfeito, mais fácil fica a divulgação e o agendamento de shows”, diz Edu Falaschi, vocalista do Almah e recém-saído do Angra. Com seis bandas produzidas no currículo, já se tonou um produtor requisitado em São Paulo entre as bandas de heavy metal.

Edu Falaschi

Embora reconheça a evidente mudança de comportamento em relação á música, Falaschi tem uma visão pragmática da questão: “A música continuará sendo feita, precisará ser feita, terá de ser gravada. Para quem é músico profissional ou pretende ser, não é tão importante, na hora da composição ou do registro, de que forma o fã terá acesso ou como ele se relacionará com o trabalho. Neste momento, é importante levar a música pronta, benfeita e bem produzida ao fã.”

Andria Busic, baixista e vocalista da banda Dr. Sin e sócio do estúdio Sonata 84, em São Paulo, também segue a mesma linha. E faz uma analogia interessante: “Assim como escritor e o jornalista escrevem para ser publicado em mídias diferentes e plataformas diversas, o músico que compõe e produz tem necessidade, na maioria das vezes de registrar e lançar seu trabalho. O trabalho de criação e execução é o que move o artista, seja qual for a dificuldade.”

Quem faz divulgação e assessoria de imprensa é menos idealista – ou romântico. Costábile Salzano Jr., da Ultimate Music-Press, com clientes importantes como Sepultura e Shadowside, observa que muitas bandas ainda acalentam o sonho de ter o trabalho lançado – e o CD ainda faz parte o imaginário de aspirantes a músicos profissionais. “O CD continua sendo um cartão de visitas.”

Essa também é a visão de Mario Pastore, um dos melhores vocalistas do Brasil e líder da ótima banda de heavy metal Pastore. “A vontade de ter um belo CD gravado e na minha opinião sempre ser otimista, uma história é diferente da outra.”

Mario Pastore

A liberação de downloads legais de trabalhos inteiros em sites próprios, como a banda paulista Psychotic Eyes, fez recentemente, faz parte de uma estratégia agressiva de divulgação. Há quem garanta que os resultados são bons, mas a prática ainda divide opiniões.

“Liberar de graça é jogar contra o próprio patrimônio, é desvalorizar o seu próprio trabalho. A música vira brinde, deixa de ter a importância que ele tem ou poderia ter. É como jornal gratuito distribuído no metrô: o leitor pega na pressa, passa o olho em notícias incompletas e insuficientes e joga depois no chão”, diz Carlos Henrique Dias, produtor musical e de eventosalém de baixista de uma banda de covers.

Essa discussão perde todo o sentido quando se pula o balcão, infelizmente. De forma empírica, o Combate Rock fez uma rápida enquete em uma faculdade particular da zona sul de São Paulo e em um colégio particular da Grande São Paulo. Foram cerca de 50 consultas rápidas a um público mais afeito ao rock sobre a forma de audição de música e sobre a importância que a música tem para o entrevistado.

O resultado é alarmante: só três pessoas ainda têm o hábito de comprar CD ou DVD, e ainda assim por influência dos pais; 90% baixam músicas de seus “artistas preferidos” ou procuram algum tipo de streaming; 35 pessoas pouco ou quase nunca procuram informações sobre artistas que estão ouvindo ou que por algum motivo despertou o seu interesse; 41 pessoas manifestaram pouco ou nenhum interesse em ir a shows de bandas ou artistas brasileiros iniciantes – destes, 85% revelaram que assistiram recentemente ou estariam dispostos a gastar mais de R$ 100 para ver um show de artista internacional famoso; 40 pessoas demonstraram não se importar com o fato de haver ou não emissoras de rádio que tocam rock na Grande São Paulo – quanto mais que toquem uma programação de qualidade.

Existe uma sensação de que a perda de interesse na música, se não é generalizada, está bastante disseminada entre os mais jovens e potenciais consumidores. O mesmo pode se observar, de certa forma, em relação à importância que a música tem hoje na vida das pessoas.

Mesmo assim, é interessante notar que a busca por estúdios e a intenção de gravar músicas e trabalhos novos no Brasil, principalmente de forma independente, não caiu. Ainda há músicos de rock que acreditam no seu próprio trabalho e que apostam  na importância – e na necessidade – de se produzir música. O público que resiste à banalização agradece imensamente.

Andria Busic

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