Música x ouvinte-fã: que tal discutir a relação? – parte 1

Estadão

27 de agosto de 2012 | 06h49

Marcelo Moreira

O mundo do século XXI ainda não se acostumou com as velozes mudanças que a internet provocou no mundo musical. As gravadoras estão praticamente extintas, os selos ainda vasculham nos quintais á procura de vestígios de um negócio que se mostra cada vez mais sem futuro. Então o que leva artistas importantes e desconhecidos ainda a investirem tempo e dinheiro dentro de um estúdio para criar música nova? Faz sentido compor, ensaiar, gravar, produzir, masterizar e mixar na atualidade?

A música está de graça na internet, nos camelôs e em qualquer pen drive. A relação do ouvinte com a música hoje é completamente diferente. Há quem diga que não existe mais envolvimento emocional, fruto de um produto que se tornou acessível demais e, por isso mesmo descartável. Banalização?

Pouca gente se acostumou com a forma como se ouve música em 2012, e com a forma com que os jovens da atualidade se relacionam com ela. Não existe mais expectativa em relação a um lançamento, seja qual for o gênero musical.

Aliás, hoje expectativa por qualquer lançamento é coisa de crítico ou jornalista musical. Nenhum fã mais se preocupa com isso. Sabe que, horas depois, o álbum estará disponível para download gratuito (e quase) sempre ilegal.

O mais próximo que ocorreu a esse respeito foi a chegada ao mercado do novo álbum do Van Halen, em janeiro passado – e ocorreu somente porque a banda não lançava nada havia 14 anos, sendo que “A Different Kind of Truth” é o primeiro trabalho do grupo com o vocalista David Lee Roth em 28 anos.

“A música era sagrada nos anos 70 e 80. Um lançamento de LP/CD/DVD era esperado por meses, com grande expectativa e enorme esquema de marketing por trás do produto, o que só fazia aumentar o interesse. Um álbum do Iron Maiden sendo lançado era o acontecimento do ano”, diz Dionísio Febraio, proprietário da loja Aqualung, na Galeria do Rock, em São Paulo.

O anúncio da chegada de um novo álbum do Metallica ou do Deep Purple nos anos 80 rendia assunto por semanas entre fãs – assim como os de bandas rock nacional daquela época, como “Cabeça Dinossauro”, dos Titãs, e “Selvagem?”, dos Paralamas do Sucesso, estrondosos sucessos de venda.

Nostalgia à parte, os fã de música tinham um envolvimento emocional e interesse mais amplo nos trabalhos lançados. O formato físico – LP, CD, DVD – proporcionava um prazer diferente. Um álbum era uma fonte de informação, com capa, encarte, contracapa e selo central. Era motivo de interesse contínuo e quase permanente.

Hoje aparentemente a informação não é mais tão relevante. Não existe pesquisa a respeito, mas quem trabalha no meio musical não tem medo de afirmar: a relação do fã/ouvinte com a música mudou, e não necessariamente para melhor.

“Mesmo o roqueiro típico, que sempre se caracterizou por demonstrar um interesse geralmente maior pelos artistas e pelas obras em si, passou a desprezar, de certa forma, a informação. Isso deixou de ser importante, não faz mais parte do universo do jovem que escuta música atualmente”, diz Fausto Mucin, sócio-proprietário da Die Hard Records.

Tanto ele como Febraio, da Aqualung, contam rindo que inúmeras vezes neste século atenderam clientes, quase todos jovens, querendo primeiro saber quem “cantava ou tocava tal música”, para depois saber se existia o CD. Detalhe: o cliente não sabia o nome e nem tinha a menor referência sobre o artista. Sobrava apenas a melodia, cantada ou assobiada de forma sofrível.

“Nestes casos, nem a internet dá jeito. O cara encontra um arquivo qualquer solto em algum site, descolado de qualquer informação ou mesmo indício de informação. Não deixa de ser frustrante, e imagino que para um músico seja mais ainda”, diz Febraio.

A relação do fã com a música mudou, obrigando todo o mercado a ser muito mais criativo. O desafio agora é não só agradar aos ouvidos, mas levar a informação que não está mais tão facilmente disponível ao apreciador/cliente em potencial. É despertar o interesse do ouvinte bem além do mero arquivo digital.