Música para viver ou viver para fazer música?

Estadão

22 de fevereiro de 2012 | 07h04

Texto originalmente publicado no site Galeria do Rock

Paulo Ferreira *

O empurrão para esse texto foram as polêmicas declarações de Edu Falaschi, vocalista do Angra e do Almah, sobre sua percepção da cena Heavy Metal brasileira, feitas no ano passado.

Trocando em miúdos e retirando os palavrões, Edu chegou à conclusão que o público brasileiro não dá o devido valor e respaldo às bandas nacionais, uma vez que essas, com a excessão do Sepultura e do próprio Angra, não conseguem se manter fazendo apenas música. Baixa ou quase nenhuma venda de discos e shows vazios seriam o principal motivo para que muitas bandas boas desaparecerem antes de chegarem aos ouvidos da galera.

Muitos concordaram com ele, muitos o crucificaram, mas uma coisa é certa: viver de música, especialmente de rock no Brasil, e por que não dizer no mundo, é para poucos. Por diversos fatores que vamos tentar entender ou pelo menos levantar a discussão.

É fato que as vendas de Cd’s despencaram nos últimos anos. Na década de 70 uma banda precisava vender 1 milhão de discos para conseguir um disco de ouro. Hoje, quando uma banda vende 100 mil álbuns é uma façanha. A percepção das pessoas hoje sobre o valor que uma obra fonográfica tem é totalmente diferente de 20 ou 30 anos atrás. Com o compartilhamento de músicas e a sensação de que “se está disponível na rede eu posso pegar”, inviabilizou o modelo econômico que por anos sustentou a indústria da música.

O mundo mudou, as pessoas, a forma de se comunicarem e de consumirem passou por grandes, rápidas e silenciosas revoluções nos últimos anos. Mas não precisamos nos aprofundar demais nesse tema, que tem muito pano pra manga, pra poder tentar entender o que passa no cenário do rock, não só brasileiro mas mundial.

CDs, discos, cassetes e afins são tecnologias superadas. Por mais que seja deliciosa a sensação de abrir um CD, olhar seu encarte, pegar um vinil, colocar cuidadosamente a agulha sobre o bolachão e ouvir aquele som gostoso, são comportamentos puramente nostálgicos. Estocar CD’s e discos de vinil é muito mais trabalhoso, custoso e com durabilidade menor do que arquivar milhares de músicas em um pequeno mp3 player ou no HD de seu computador.

Arquivos são mais fáceis de armazenar, de transportar, estão sempre disponíveis onde quer que você esteja e a melhor parte para o usuário (e a pior para o artista): estão todos disponíveis à um clique de distância e de graça. O valor percebido da obra musical desapareceu, uma vez que não faz sentido pagar por algo que você pode ter de graça.

Voltando ao nosso amigo Falaschi, descontar sua frustração no mesmo público que deveria dar suporte foi pouco inteligente, mas legítima. Se houvesse apoio financeiro por parte daqueles que dizem ser apreciadores da música pesada nacional, músicos considerados referência não precisariam se desdobrar em diversos empregos, até mesmo fora da música, para se manterem.

Negar essa realidade é querer tapar o sol com a peneira e esse comportamento não é de hoje. O baixista/vocalista/líder/fanfarrão/marketeiro do Kiss, Gene Simmons, soltou mais uma de suas declarações polêmicas, mas não menos verdadeira, sobre essa percepção que as pessoas tem sobre os músicos respeitados e de sucesso.

Ele traça um paralelo interessante: os Ramones são unânimes entre todos os apreciadores de rock, seja punk ou progressivo. Em toda sua prolífera carreira eles conquistaram um único disco de ouro, já a banda Chicago, que pouquíssimas pessoas conhecem, tem mais de 20 discos de platina.

Os Ramones tinham o respeito, Chicago tinha a grana. Joey e Jhonny viveram e morreram uma vida modesta e no final dependiam de projetos parelelos e da ajuda dos amigos e fãs famosos para terem uma condição mais digna. Os Ramones passaram quase toda a carreira tocando em pequenos clubes e ostentando números modestos de venda de discos. Quem paga a conta? Não foram os fãs.

O que fazer? Como incentivar a produção musical em um cenário onde isso é feito quase que de forma voluntária pelos músicos? De que forma as bandas podem se dedicar exclusivamente à sua arte, podendo assim oferecer discos e músicas cada vez melhores, uma vez que não é fácil lançar um disco histórico e ao mesmo tempo ter que batalhar pelo pão de cada dia?

A resposta não é fácil nem óbvia, mas que deve ser discutida, cada um fazendo sua mea culpa no cartório para que não fiquemos à mercê da boa vontade daqueles que ainda insistem corajosamente em trilhar o caminho do rock’n roll.

* Paulo Ferreira é publicitário e professor universitário

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