Música eletrônica é cultura, não é apenas música.

Estadão

06 de fevereiro de 2012 | 17h00

O Combate Rock volta novamente ao tema polêmico sobre a música eletrônica. Apenas um leitor havia se manifestado de forma enfática e sugerido escrever um texto rebatendo o artigo “Música eletrônica não é música, é barulho”, de janeiro de 2011, e que surpreendentemente foi resgatado e disseminado um ano depois nas redes sociais. Entre todas as manifestações que recebemos, a mais interessante e bem estruturada é a do jornalista Rodrigo Gomes. Apesar de já termos  publicado um texto do empresário Jorge Boratto contestando o artigo original, cremos ser interessante publicar a visão de Gomes, em texto bem escrito e com bons argumentos. Será o último sobre a questão, para encerrá-la de fato.

Para relembrar: eu defendo que a maior parte do que é e foi produzido na música eletrônica é som artificial, cuja serventia apenas se aplica às pistas de dança e mais nada. Também afirmei que, em minha opinião, DJ não músico, é apenas DJ.   O texto original pode ser acessado aqui. (Marcelo Moreira)

Rodrigo Gomes – Fotógrafo e amante da cultura eletrônica

Muitas pessoas por não viverem dentro da cena eletrônica acabam criando impressões fantasiosas e muitas vezes falsas sobre o que é este universo. A imprensa por sua vez ajuda a espalhar essa imagem de “paraíso de drogas ao som de batidas repetitivas e sem melodias.”. Essa perseguição da mídia começou no final de 2005, quando tivemos um “boom” no número de festas por todos os cantos do país e após cinco anos a mesma ainda continua. Quem não se lembra da reportagem exibida no domingo, pelo programa Domingo Espetacular (Record, 2005).

A bola da vez é o texto “Música eletrônica é barulho, não é música” publicado neste blog pelo jornalista Marcelo Moreira. Publicado há pouco mais de um ano o texto teve enorme repercussão na última semana por causa das palavras usadas pelo autor, onde em determinados momentos passa a impressão de chamar público e artistas da e-music de ignorantes pelo simples fato de serem apaixonados pelos graves, médios e agudos produzidos através de um computador.

“Para azar de meu amigo, ficou sozinho na defesa da ‘música eletrônica’”… “Foi massacrado por gente inteligente e que tem discernimento e que não se contenta com barulhos artificiais de computadores e sintetizadores.”

Para denegrir a imagem do DJ o jornalista se baseia apenas em seu conhecimento de bandas e artistas de rock e em nenhum momento cita o fato de que hoje em dia para ser DJ é necessário muito mais do que ser um ex-BBB, possuir uma “webfama” de cinco minutos ou ter namorado uma diva da música pop.

Os DJs de hoje não precisam mais cortar uma fita e emendá-la em outra para criar uma música, mas nem por isso podemos chamá-los de “um tocador de CD”. A maioria destes artistas passou anos estudando piano, instrumentos de sopro e de cordas, melodia, ritmo, compasso, contraponto, mixagens entre outras técnicas. Alguns possuem no currículo até cursos como engenharia de som e produção. Já os que decidem aprender por conta própria dedicam horas do seu dia – muitas vezes após a faculdade e/ou trabalho – em busca da track perfeita para seu live / set.

“Hoje a grande maioria das músicas tem algo de sintetizado (e por isso eletrônico) nelas. Seja uma batida, uma linha de baixo, piano, instrumentos de sopro. Assim como hoje a música eletrônica hoje carrega instrumentos orgânicos, vocais gravados, que transformados em midi são incorporados a batidas eletrônicas. Tudo feito a partir da inspiração e criação humana, com notas, harmonias, e arranjos. Ou seja, música. Não importa o veículo, importa o que é criado. (Eli Iwasa)


 “Quem gosta deste tipo de música se contenta com muito pouco.”

Pouco? Atualmente a e-music vem rompendo as barreiras de clubs, festas e festivais. A cada dia surgem mais sites especializados em difundir esta cultura eletrônica, rádios são criadas a fim de propagar os kicks por todos os cantos do mundo, trilhas inteiras de filmes são produzidas em cima desta arte vide exemplos como TRON (Daft Punk), Hannah (Chemical Brothers), Hackers (Underworld, Prodigy…) entre outros, livros revistas e trabalhos universitários sobre este tema nascem a cada ano e filmes são produzidos sobre o tema – o diretor Marcos Paulo (o mesmo de Tropa de Elite e Estamira) lançará este ano “Paraísos Artifíciais”, no qual o roteiro é totalmente em cima de uma festa eletrônica – e isso tudo é pouco?

Como diz a DJ Eli Iwasa “Seria uma grande estupidez limitar algo tão amplo, e cheio de possibilidades, à maneira que é produzida e tocada.”

Lógico que essa exposição maciça acaba prejudicando um pouco a música eletrônica,  pessoas que não conseguem sentir a essência da música aproveitam o “modismo” para se transformar em djs e é esse “tipo” que merece o rótulo de “tocador de CD”. Porém como em todos os estilos não podemos generalizar e devemos sim reconhecer e respeitar os verdadeiros profissionais que lutam diariamente para defender esta cultura.

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