Muito mais que a banda do guitarrista do Ozzy

Estadão

17 de maio de 2011 | 16h20

Roberto Capisano Filho

Há um tempo atrás estive na Galeria do Rock atrás de CDs do Night Ranger. Missão difícil. Apenas umas duas lojas tinham algum material da banda formada em São Francisco na década de 80 e cujo último disco de estúdio foi lançado em 2007 (Hole in the Sun). Em outras, quem me atendeu nem sabia do que se tratava. “É uma banda da década de 80”, dizia eu. A resposta era “ah, não conheço”. Mas o que me chamou a atenção foi como um vendedor se referiu ao grupo: “é a banda do guitarrista do Ozzy, não é?”.

Ele falava de Brad Gillis, que tocou com Ozzy Osbourne em 1982 em substituição a ninguém menos que Randy Rhoades. Gillis fez parte de um dos melhores times do ex-vocalista do Black Sabbath, que contava com Rudy Sarzo no baixo e Tommy Aldridge na bateria. Também é de Gillis a guitarra no álbum ao vivo Speak of th Devil do ex-vocalista do Black Sabbath.

Não foi a única vez em que ouvi alguém se referir ao Night Ranger como a banda do guitarrista do Ozzy. Uma injustiça, na minha opinião. Não que ter tocado com Ozzy seja algum demérito, longe disso. Deve ser motivo de orgulho para qualquer músico e, sem dúvida, só enriquece o currículo. Porém, Brad Gillis e o Night Ranger merecem mais. Uma banda talentosa como essa não pode ser reduzida a essa definição.

Claro que a o grupo teve seus momentos de maior sucesso nos anos 80. No entanto, está na ativa até hoje, excursionando ao lado de Journey e Foreigner e seu trabalho tem tanta qualidade que não pode deixar de ser ressaltado.

Em primeiro lugar, é preciso tirar o chapéu para Gillis. Após excursionar com Ozzy, o que resultou na gravação de Speak of the Devil, ele teve coragem de recusar o convite para continuar na banda para investir em um projeto seu, que fora adiado por conta dessa turnê. Assim, o Night Ranger dava os primeiros passos.

A exposição que Gillis teve com Ozzy facilitou as coisas para que o Night Ranger assinasse contrato com uma gravadora. Ainda em 1982, era lançado Dawn Patrol. Desse álbum saiu o primeiro sucesso: Don’t Tell Me You Love Me. Ao lado de Gillis, estavam o baixista e vocalista Jack Blades, o baterista e vocalista Kelly Keagy, Jeff Watson na outra guitarra e Alan Fitzgerald nos teclados.

Com Midnight Madness, de 1983, o Night Ranger conseguiu o reconhecimento comercial que qualquer banda necessita para seguir em frente. Hoje com a internet pode ser diferente a maneira como se consome música, mas antes do advento dos downloads, um disco de vendagem fraca era capaz de sepultar qualquer projeto.

Midnight Madness trazia composições indiscutíveis como o hino (You Can Still) Rock in America, a belíssima Sister Christian e a clássica When You Close Your Eyes. Talvez essas três músicas sejam a mais perfeita representação da obra do Night Ranger.

7 Wishes, o trabalho seguinte, de 1985, manteve a banda em alta nas paradas e no gosto do público. Destaque para as faixas Goodbye, Four in the Morning e Sentimental Street.

Porém, Big Life, lançado em 1987, já não conseguiu repetir o bom desempenho dos álbuns anteriores. Mas o disco tem composições excelentes como Color Of Your Smile, Carry On e The Secret Of My Success, esta tema de um filme com mesmo nome estrelado por Michael J. Fox.

Em 1988 houve a primeira baixa nao grupo com a saída de Fitzgerald. Nesse mesmo ano, é lançado Man in Motion que não reproduz o sucesso comercial dos discos anteriores. Apesar disso, o trabalho traz Don’t Start Thinking (I’m alone tonight), Love Shot Me Down e Restless Kind, ótimas músicas que mantêm a qualidade artística da banda.

Após a turnê desse trabalho, Jack Blades sai do grupo. O próximo a pular fora do barco foi Jeff Watson, em 1991.

Em 1995 é lançado Feeding of the Mojo, que contava apenas com Gillis e Keagy da formação original. Os cinco fundadores da banda só voltariam a se novamente em 1997 no disco Neverland, que retoma o espírito da banda com as sensacionais Forever All Over Again e Someday I Will.

Em 1998, é lançado Seven. Os destaques desse álbum são Sign of the Times, Soul Survivor, Peace Sign e When I Call You. Esse disco retoma um pouco o merecido prestígio que a banda havia conquistado na década de 80.

Fitzgerald deixa o grupo outra vez em 2003. E após a gravação de Hole in the Sun, em 2007, Watson sai do Night Ranger. Faixas como Whatever Happened, Rockstar, Revelation 4AM e a faixa título mostram que a banda estava em plena forma.

Entre as tantas virtudes do Night Ranger, é impossível não reconhecer o talento de seus integrantes para compor excelentes melodias. Além disso, o trabalho vocal da banda é de primeira linha, seja a performance de Blades ou Keagy, este talvez um dos músicos que melhor conseguiram aliar bateria e vocais ao mesmo tempo.

Outro ponto forte da banda está nas guitarras. O duo Gillis/Watson é um dos mais entrosados de toda a história do hard rock e heavy metal. Bases e solos criativos, técnicos e de extrema musicalidade. Não tenho nenhum receio em colocar no mesmo patamar de outras duplas sagradas como Dave Murray/Adrian Smith, do Iron Maiden e K.K. Downing/Glenn Tipton, do Judas Priest.

Até hoje, o Night Ranger vendeu cerca de 16 milhões de discos. É um número que se impõe, não há o que discutir. E quem fez discos tão bons quanto esses músicos merece um reconhecimento maior. Muito mais do que ser lembrada aqui no Brasil apenas como a banda do guitarrista do Ozzy.

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