'Morte' de Lemmy reacende a discussão sobre qualidade da informação na internet

Estadão

05 de agosto de 2013 | 12h00

Marcelo Moreira

Um dos momentos mais chatos dos últimos tempos no meio musical ocorreu neste final de semana no Brasil. O site de uma empresa de entretenimento brasileira divulgou inadvertidamente na madrugada de sábado que Lemmy Kilmister, baixista e vocalista do Motorhead, havia morrido. O músico vem passando por alguns problemas de saúde e se submeteu a uma série de exames nos últimos dois meses.

Aos 68 anos de idade, Lemmy ainda mostrava vitalidade no começo do ano, mesmo com o histórico de abusos e de excessos com álcool, drogas e algo mais em quase 45 anos de carreira. Quase que em seguida, o baixista começou a reclamar de dores abdominais e de problemas na coluna a partir de fevereiro, embora não desse nenhum detalhe sobre as doenças – o que levou a parte sensacionalista da imprensa inglesa a especular sobre o real estado de saúde.

Entretanto, surpreendeu quando a empresa Top Link, que realiza o festival Live’n’Louder no Brasil, publicou a informação em seu site que Lemmy morrera na noite de sexta-feira – seria comecinho da madrugada de sábado na Inglaterra. A informação citava como fontes pessoas que trabalhavam na produção da banda inglesa. O estranho é que o site da Top Link foi o único do mundo a divulgar tal informação. E permaneceu sendo o único por muito tempo, o que é mais estranho ainda, já sites de veículos de imprensa costumam replicar a informação, depois de confirmada a veracidade. E aí é que está o problema: ninguém conseguiu confirmar.

O desmentido da notícia ocorreu no sábado, durante o dia. Lemmy estava vivo. Mais tarde, Paulo Baron, o proprietário da Top Link, publicou uma retratação no site da Top Link, onde pede desculpas pelo engano e explica como recebeu as informações e por que decidiu divulgar a notícia, ainda que houvesse carências de evidências que comprovassem a morte do músico.

No jargão jornalístico, o que ocorreu foi uma “barriga” na ânsia de dar um “furo”. Barriga é um erro grosseiro, com informações falsas ou erradas, deliberadamente ou não. Furo é quando um jornalista ou veículo divulgam com exclusividade um fato. O empresário da empresa brasileira, que não é jornalista, de posse de informações que julgou serem importantíssimas ou bombásticas, se apressou e divulgou sem as devidas cautelas e procedimentos de checagem da veracidade.

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Lemmy Kilmister

Em tempos de internet dominando cada vez mais o cotidiano das pessoas, com difusão rápida e até instantânea de fatos, acentua-se o debate a respeito da qualidade – ou falta de – das informações nos meios de comunicação jornalísticos e, principalmente, fora dele. É fato que houve aumento geral da precarização na apuração e na investigação de notícias.

Há uma suposta constatação de “especialistas” de que a facilidade de se encontrar e obter informação por conta da internet e de novas tecnologias é uma “revolução” na comunicação, onde, em linhas gerais, qualquer um pode produzir conteúdo e torná-lo acessível, sem a necessidade de um “intermediário”, ou uma “edição”.

No limite extremo, empresas jornalísticas e jornalistas não seriam mais necessários – uma cretinice, e um dos resultados perigosos é justamente fatos como a falsa morte de Lemmy. E, quem diria que tal pensamento cretino levaria empresas jornalísticas importantes no Brasil e no mundo a deliberadamente precarizar seu contingente de jornalistas, abrindo mão de qualidade e optando por profissionais despreparados e mais baratos, sobretudo na internet…

Jornais, revistas, emissoras de rádio e de TV e sites noticiosos já cometeram erros parecidos, e estes erros não são tão raros assim. Entretanto, tais empresas e profissionais geralmente contam com recursos mais apropriados para evitar problemas parecidos ou mesmo para remediar equívocos graves, coisa que infelizmente o empresário Paulo Baron não tinha à disposição – pelo menos não no momento de divulgação da notícia.

A atitude digna e respeitável do empresário ao reconhecer o erro mostra claramente que não houve a intenção deliberada de prejudicar ao alguém – ou ter alguma vantagem com a divulgação -, como chegou-se se insinuar nas redes sociais. Se serve de consolo, o fato serviu reforçar ainda mais a necessidade de checagem e verificação de notícias. Informação boa e relevante é aquela divulgada corretamente e com qualidade, e não a que chega primeiro à internet ou às páginas. Lemmy Kilmister percebeu isso de forma surpreendente, e não de forma positiva.

Leia aqui a mensagem de retratação da empresa Top Link.

 

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