Morrissey: cinquentão de coração partido

Estadão

12 de março de 2012 | 17h00

PEDRO ANTUNES

“So for once in my life / Let me get what I want / Lord knows, it would be the first time” (em tradução livre: Então pela primeira vez na minha vida/Me deixe conseguir o que quero/Deus sabe, seria a primeira vez). Os versos da música Please, Please, Please Let Me Get What I Want, cantados por um tal de Stephen Morrissey, transcenderam o tempo e o espaço.

Lançada apenas como um Lado B para a música William, It Was Really Nothing, pela banda inglesa The Smiths, em 1984, a canção cresceu, quase como se ganhasse vida própria. Culpa da interpretação de Morrissey, aquele estranho e topetudo cantor de Manchester, carregada com intensa agonia e desespero.

Please, Please, Please Let Me Get What I Want acertou em cheio os adolescentes dos anos 80, uma geração tida como perdida, sem nada para combater. Jovens que começaram a olhar para si, a perceber suas fraquezas e medos. De repente, a música do The Smiths era a tradução de todos os seus problemas, resultada da parceria entre as letras/poemas de Morrissey com a guitarra afiada de Johnny Marr.

A banda acabou em 1987, após cinco anos de existência, mas o cantor e compositor manteve a qualidade de suas letras – e a voz tão peculiar. Ele chega hoje aos 52 anos com status de mito do rock. Ícone de gerações seguidas, seja pelas suas canções de amor (e desamor) ou politizadas, Morrissey volta ao Brasil depois de 12 anos (sua última passagem por aqui foi em 2000).

A turnê em solo nacional engloba um show em Belo Horizonte (realizado na última quarta), no Rio de Janeiro (hoje) e em São Paulo (amanhã), às 21h, no Espaço das Américas, com ingressos esgotados. É a primeira atração do projeto Live Music Rocks, que já confirmou o ex-Oasis Noel Gallagher, em maio.

A apresentação que chegou ao País traz um Morrissey inspirado e generoso. Embora conhecido por seu enorme egocentrismo, o músico inglês dará aos fãs canções da sua ex-banda, por vezes esquecidas em seus shows. Em Belo Horizonte, foram seis: Still Ill, Meat is Murder, I Know It’s Over, There is a Light That Never Goes Out, a já citada Please, Please, Please Let Me Get What I Want e a clássica How Soon Is Now?.

Na primeira vez em São Paulo, em dois shows no antigo Olympia, em 2000, Morrissey preferiu tocar canções mais obscuras e menos populares da sua ex-banda, como Is It Really So Strange?, Half A Person, Shoplifters Of The World Unite e Last Night I Dreamt That Somebody Loved Me.

Ele parece, enfim, ter entendido que os Smiths são a porta de entrada para os jovens que lotam seus shows onde quer que ele vá. Canções que levam para o peculiar universo do músico e sua abrangente carreira solo: foram nove álbuns lançados sozinho, contra os quatro com a banda.

Eleito “o mais influente artista de todos os tempos” pelo semanário inglês NME, Morrissey se aproveita disso para dizer o que pensa. Em sua apresentação em Buenos Aires, no dia 5 de março, por exemplo, ele fez sua banda de apoio tocar com camisetas com as palavras We Hate William and Kate (Nós Odiamos William e Kate, casal real britânico) e fez questão de discursar sobre os erros do governo britânico sobre as Ilhas Malvinas: “As ilhas são de vocês”, disse. Já a canção Meat is Murder é uma ode ao vegetarianismo.

O discurso irônico e ácido também lhe traz problemas. Morrissey diz que tem todas as músicas do seu décimo álbum, mas nenhuma gravadora está disposta a lançá-lo. Contradições que só fazem sentido com ele, um cinquentão com o coração ferido, como um adolescente.

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