Morre Trevor Bolder, grande baixista do Uriah Heep e David Bowie

Estadão

21 de maio de 2013 | 19h00

Marcelo Moreira

Muita gente estranhou quando a banda inglesa Uriah Heep contratou o baixista Trevor Bolder para ser substituir as lendas Gary Thain e John Wetton (ex-UK, Asia, King Crimson). Exímio em seu instrumento, tinha passado pelos Spiders From Mars, a banda de apoio de Ziggy Stardust, o alter ego de David Bowie entre 1972 e 1973. Bolder não era performático nem espalhafatoso, como se supunha, mas sua maneira de tocar, com muito groove e fraseados mais encorpados, causava algum temor nos fãs da banda: será que ele conseguiria dar conta do rock pesado e mais rítmico do Heep?

Se havia alguma dúvida, a própria história se encarregou de encerrar a questão: foram 36 anos tocando com o Uriah Heep, até o final de 2011, quando precisou se afastar, até então de forma temporária, por problemas de saúde. Lamentavelmente, Bolder não voltou ao Heep: ele morreu hoje, na Inglaterra, aos 62 anos de idade.

2013! O ano em que o rock está morrendo aos poucos! Descanse em paz Trevor Bolder! Informação acaba de chegar pelo site oficial do grupo! Infelizmente! http://www.uriah-heep.com/newa/index.php
O site oficial da banda apenas informa que ele morreu de câncer, sem maiores detalhes sobre o assunto. “Trevor era um baixista do mais alto nível, um dos melhores do mundo. E também foi um dos melhores amigos que eu poderia ter. Estamos devastados com sua morte”, disse em nota o guitarrista Mick Box, o líder da banda.
Foi a segunda grande baixa na formação mais longa do Uriah Heep. em 2009 o grande baterista Lee Kerslake, que também tocou com Ozzy Osbourne, decidiu sair da banda por questões de saúde, já que tinha muitas dores na coluna para continuar tocando.
Além de baixista, Bolder também compunha em profusão e cantava esporadicamente, embora fosse o responsável pelos backing vocals do Uriah Heep sem nada a dever ao grande tecladista/guitarrista/vocalista Ken Hensley, que atuou na banda na primeira metade da década de 70. Um de seus últimos trabalhos foi participar do álbum “Unfinished Business”, do amigo tecladista Andy Bown, atualmente no Status Quo.
Apesar do estilo seguro e virtuoso, Bolder foi bastante criticado pela imprensa inglesa por volta de 1980, quando do lançamento de “Conquest”, então o seu quinto álbum com a banda. A sonoridade mais hard/pop do Heep naquela fase de surgimento da New Wave of British Heavy Metal quase pôs fim à banda, coim a rejeição das músicas sem pegada e de um toque mais “funky” no desempenho do baixista.
A fase ruim do Urtiah Heep continuava após o disco fraco: o tecladista/guitarrista/vocalista Ken Hensley abandonou o barco, enquanto crescia a rejeição ao vocalista John Sloman, o substituto do ótimo John Lawton. Sloman nem esquentou o lugar e Mick Box decidiu chamar o principal cantor que já tinha passado pela banda, o excelente David Byron. Com a recusa deste, Bolder desanimou e decidiu sair no começo de 1981.
Era para ser uma saída temporária, enquanto Box arrumava a casa. Bolder era ainda membro do Heep quando aceitou tocar no Wishbone Ash, outro gigante do hard rock inglês – por ironia, também substituindo John Wetton, como ocorrera cinco anos no Heep.
O estilo mais diversificado do baixista casou perfeitamente com o som mais versátil e jazzístico do Wishbone Ash, e parecia até mais apropriado do que o trabalho que fazia no Heep. Até mesmo por isso, o que deveria ser temporário começou a ficar mais sério, com Bolder compondo e assumindo parte dos vocais, dividindo a função com o guitarrista Andy Powell.
Quando Box achou que era a hora de voltar à ativa, nem pensou duas vezes: contratou Bob Daisley (ex-Ozzy Osbourne) como baixista. “Trevor tinha ficado bem chateado com os problemas em 1980 e o Uriah Heep estava realmente numa encruzilhada. As coisas tinham que entrar nos eixos e ele decidiu que precisava partir. Não houve problemas, mas sei que Trevor ficou chateado quando o Heep voltou. Mas o que eu poderia fazer? Ele estava muito bem no Ash, as coisas estavam dando certo e não daria para ele acumular as duas bandas”, disse Mick Box em uma entrevista à revista Guitar Player nos anos 2000.
Bem, mas bem mesmo, Bolder não estava. As coisas deram certo com o Wishbone Ash, que voltava a ter relevância, mas o baixista queria mesmo era o Uriah Heep, que considerava a sua casa e cujos integrantes ele considerava amigos mesmo, casos de Box e Kerslake.
E não demorou muito para o seu retorno em 1983, já que Daisley não se entendeu bem com Box e o então novo vocalista, Peter Goalby. Ao mesmo tempo, o clima no Ash nunca o tinha agradado, com um esquema muito diferente da camaradagem que sempre tivera com o guitarrista Mick Ronson nos Spiders From Mars e no Uriah Heep. Seu retorno foi mais do que natural. Nunca mais se afastaria do Heep, a não ser no final de 2012, quando teve de ir mais fundo no tratamento contra o câncer.
Seus melhores trabalhos com o Uriah Heep foram “Raging Silence”, “Sea of Light” e “Wake the Sleeper”.

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