Monsters of Rock: evolução, mas ainda com falhas e buracos

Estadão

26 de outubro de 2013 | 07h07

Diego Camara – publicado originalmente no site Whiplash

Há uma carência grandiosa por bons locais de show na capital paulista, como já foi citado por Marcelo Moreira, do Combate Rock, em texto recente. Quem vê espetáculos como os shows do Iron Maiden e Black Sabbath – com seu som extremamente baixo e dúzias de reclamações estruturais – e shows no enlameado Jockey Clube – que aparentemente já virou história não será mais palco de shows – realmente conseguem verificar a tristeza que são os grandes espetáculos em nossa cidade.

Com o Monsters of Rock não foi nada diferente: a Arena Anhembi realmente esteve no geral muito superior ao palco do Iron Maiden, no mesmo local, um mês antes. Mas alguns problemas surgiram e outros continuaram latentes. No geral, porém, pode-se dizer que o Monsters of Rock foi muito superior aos seus dois principais espetáculos citados acima, mas também carregou alguns problemas iguais. Fiz uma reunião aqui dos pontos que achei relevantes para aumentar a discussão acerca dos espaços de show na capital paulista, pois este é um problema realmente terrível em nossa cidade.

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Som: no geral, muito superior ao som baixíssimo do Iron Maiden e da estrutura deficitária que colocaram no Black Sabbath, onde a fuga de som foi muito grande. Neste o som estava realmente ALTO, o bastante para que as pessoas do lado de fora do Anhembi pudessem ouvir a força da música que foi tocada do lado de dentro. O bonito de ver foi que os shows foram no geral os mesmos do início ao fim, o que é bem raro. Ponto para a técnica, ponto para as bandas que fizeram a lição de casa.

Em alguns espaços, porém, o áudio estava estourado, e em alguns pontos meio baixo, mas o geral foi positivo.

Tirando o falso QUEENSRYCHE do sr. Geoff Tate – uma vergonha de áudio do início ao fim, que parece combinar com a péssima qualidade de seu último lançamento – e de algumas críticas pontuais, todos os shows foram bem positivos. Ponto para o Monsters of Rock que, se mantiver sua qualidade no próximo ano, já sai na frente neste quesito.

Telões: foram tristes. O pior é que as imagens estavam lindas na maior parte do tempo, mas o delay ridículo que ocorreu durante todo o festival – um despreparo da técnica que não verificou isso – era sofrível e extremamente chato. Parece ser algo bobo – e realmente o é, no geral – mas não custava nada ajeitar para a satisfação de quem viu o show de mais longe. Além disso, a falta de um telão central na maior parte dos shows – pelo que me recordo bem apenas o AEROSMITH teve o direito de usa-lo, foi um ponto bem negativo se compararmos com o belíssimo uso que ele teve no show do MEGADETH e do SABBATH aqui em São Paulo. Pode ser algo a se investir no próximo ano.

Troca de palco: muita gente achou frescura os comentários que imprimi sobre a lenta troca de palco, mas friso novamente isto aqui: acho extremamente bizarro uma demora de 30 a 40 minutos para se mudar um palco, especialmente quando bandas foram chamadas ao festival para tocar miseráveis 45 minutos (você espera nesses casos o mesmo tanto de tempo na troca de palco que curtindo um show). Se contarmos as esperas entre cada um dos shows chegamos a marca de horas e horas ociosas. Se você teve a coragem de ficar os dois dias do festival ali, desde seu início, para ver todos os shows, você esperou um total de 7 (SETE) horas nessa brincadeira. Há vários meios para diminuir isso, como módulos, dois palcos, diminuição do número de bandas (e aumentos do tempo de shows? Acho válido.), entre outras. A produtora terá bastante tempo para pensar em como não deixar o público dormir muito.

Tempo de show: só vou dizer uma coisa: TRAGAM AS BANDAS PARA TOCAR MAIS! 45 minutos é muito pouco para bandas tão legais como GOJIRA, DOKKEN, HATEBREED, entre outras. Show de uma hora seria o que todas as bandas mereceriam, como no Rock in Rio.

O sol, nenhuma sombra: o local parece não ser o melhor para realização de eventos abertos durante o dia. O sol forte do fim de semana mostrou isso: por ser uma área extremamente aberta e feita com um concreto que retém o calor, o público assou ali no sol. O resultado foi muita gente se escondendo nos pequenos espaços de sombra pra não queimar demais, mas mesmo quem sentava na sombra podia sentir o calor que irradiava do chão. Neste ponto, só ajuda um local com terra ou com grama (nem que seja sintética como na Cidade do Rock), isso reduz bastante a temperatura. Eu gosto de imaginar o que ocorreria se chovesse este fim de semana: será que o Anhembi, cheio de lixo e com poucas saídas de esgoto, aguentaria uma pancada de água?

Merchandising: todos extremamente caros. Um cartaz por 20 reais foi, no meu ver e de diversos colegas, o fim da picada. É UM PEDAÇO DE PAPEL, minha gente! Isso sem falar nas camisetas ridículas que tentaram vender lá. O Monsters não caprichou em suas roupas oficiais, o resultado foi que muita gente não comprou. O dos camelôs do lado de fora estava muito mais bem feita. Nisso o festival pode aprender muito com o Live ‘n’ Louder, que tinha uma camiseta muito bem feita na edição deste ano, e até com o Rock in Rio. As camisetas oficiais das bandas margearam os valores que sempre estão saindo por ai: 70, 80, 100 reais. Da maioria das bandas esgotou no segundo dia – no primeiro não cheguei a conferir, mas acho que também tiveram boa vazão.

Alimentos e bebidas: como sempre um setor triste nos shows, a compra nos stands e bares não foi de todo ruim. Não havia nenhuma fila quilométrica para se comprar nada, felizmente. O atendimento, no geral, foi satisfatório. O grande problema parece ser dois: ambulantes e preço.

Ambulantes: Os ambulantes continuam com a velha história de querer cobrar a mais , além do que a maioria não transita pelas áreas na frente do palco – então, para que servem se ficam só lá no fundo? Os stands são sempre melhor opção neste caso. A parte chata é sempre ter de sair do lugar onde está se você estiver com sede, e é essa a utilidade dos que levam a bebida até lá na frente. Se os ambulantes não funcionam, o melhor que se pode fazer é aumentar o número de bares dentro da pista e utilizar as grades do pit para transitar na área.

Preços: Já no que tange aos preços, difícil não demonstrar a tristeza que são. Pareceu-me que a estratégia do Rock in Rio de aumentar o custo da bebida alcoólica tinha um objetivo certeiro de reduzir o número de pessoas caindo pelo chão de tão bêbadas, mas com isso reduziram o preço da água (não como eu gostaria e acho necessário, mas reduziram). Ao valor de 5 reais, a água foi muito cara e não ajudou em nada a manutenção da saúde das pessoas no lugar com todo aquele sol: o público mais pobre, que dá às vezes o sangue pra comprar o ingresso, somente sofre quando não consegue comprar água a um preço razoável e nem trazer pelo menos uma garrafinha de fora. Não me espantaria se muita gente teve problemas de saúde ou vai passar a semana acabado. Uma diminuição no preço da água é razoável, é justo e a produção do evento não vai perder dinheiro com isso – ao contrário, pode até ganhar mais se vender mais.

E não venham me falar dos escondidos e extremamente distantes bebedouros.

Alimentação: eu me perguntei em um momento por quantas horas não estaria ali nos ambulantes aquelas batatinhas. O risco de elas terem atravessado o Anhembi inteiro, ida e volta, por algumas boas horas, não era pouco: o preço caro já seria uma boa razão pra não comprar. As opções eram poucas e caras, e quase tive a curiosidade de saber o que tinha no hot-dog pra ele valer DEZ REAIS. Ainda estou curioso, mas não fui corajoso o bastante.

Stands: pareceram uma boa ideia para entreter o público entre um show e outro, obtiveram algum sucesso (especialmente para quem fugia do sol!). A iniciativa foi legal e remontou um pouco ao Rock Street que já está presente no Rock in Rio. Porém ideias não faltam, possibilidades novas e encontrar parceiros interessantes para incrementar este espaço. Uma delas seria talvez deixar mais claro o que seriam os stands no festival, quem estaria neles e o que ocorreria antes de acontecer o Monsters. Tudo pareceu meio solto, meio perdido neste ponto.

Bem, me pareceram estes alguns pontos relevantes a tratar sobre os principais pontos de inflexão do festival, mas obviamente não esgotam em nada a discussão

 

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