Dave Mustaine não consegue se livrar do Metallica em autobiografia

Estadão

10 de outubro de 2013 | 12h00

Marcelo Moreira

Um acontecimento crucial para a história do heavy metal completa 30 anos e continua atormentando o principal envolvido. Irascível, brigão, beberrão e às vezes violento, Dave Mustaine foi expulso do Metallica em março de 1983, ao ser comunicado sem a menor cerimônia por James Hetfield e Cliff Burton, em um subúrbio de New Jersey, Estados Unidos. Uma hora depois, anestesiado e sem reação, embarcava em ônibus para uma viagem de quatro dias para a cidade natal, Los Angeles, e para tentar conviver com sua mãe – havia saído de casa meses antes para morar em São Francisco com a banda.

Assim como a separação do Sepultura é o ponto central da autobiografia de Max Cavalera  – “My Bloody Roots” – e que ainda influencia sua vida até hoje, a saída do Metallica é ponto central de “Mustaine – Memórias do Heavy Metal”, a autobiografia do guitarrista do Megadeth escrita em parceria com o jornalista e escritor Joe Layden, e também publicada no Brasil, pela editora Benvirá.

Os 30 anos da expulsão de Mustaine do Metallica serão “comemorados” no Brasil. O guitarrista e vocalista do Megadeth até foi fotografado dias atrás em uma livrara brasileira com seu livro em mão. Ao contrário de Max Cavalera, que tentou amenizar o quanto a separação de sua ex-banda o marcou para sempre, Mustaine confessa no seu livro que o acontecimento principal de sua vida ainda o atormenta e o assombra, e que nem sempre lida bem com esse fato. E, de forma corajosa, assume os erros que cometeu e se culpa por isso, mas não consegue cair na tentação de vez ou outra escrever coisas como “era difícil ver a ascensão do Metallica anos depois e não pensar ‘eu é que deveria estar ali, e não Kirk (Hammett)’. Não consigo deixar de pensar até hoje que fui injustiçado, que eu deveria estar do Metallica, fazendo-o ainda mais gigante”.

De forma corajosa e sincera, o guitarrista coloca para fora todas as mágoas e não atenua os erros que cometeu, mas deixa claro que a sua saída do Metallica determinou quase tudo o que ocorreu em sua trajetória nos últimos 30 anos. Contraditório, culpa esse fato por suas cabeçadas e problemas. O texto não é um primor – neste aspecto, a tradução conseguiu manter fiel o espírito bagaceiro do original em inglês -, mas consegue transmitir com fidelidade o sentimento de frustração e raiva que domina o guitarrista desde criança – a infância difícil e sem grana, a saída do pai de casa quando tinha somente 10 anos de idade, a relação difícil com a mãe e com as irmãs bem mais velhas e o pequeno tráfico de drogas que fazia para se sustentar, ao mesmo tempo em que abandonava a escola.

metallica

Metallica com Mustaine (o último à direita)

Mesmo tomado pela ira, consegue ver claramente os erros que cometeu, assim como os excessos que culminariam em sua saída do Metallica. O mea culpa não é suficiente para aceitar que sua expulsão tinha de ocorrer – ao menos na visão dos outros integrantes. Acredita que foi vítima de uma falta de compreensão e de que não era o culpado por nada, seja lá o que estivesse acontecendo. “Todos brigavam entre si, menos Cliff. Todo mundo enchia a cara, até mais do que eu, e todo mundo ficava insano e fazia merdas. Por que as minhas bobagens não foram toleradas.? Que tipo de ofensa cometi para ser defenestrado?”

O Dave Mustaine que vem ao Brasil para abrir o show do Black Sabbath amanhã é um cinquentão maduro e sereno, que está longe das drogas e mergulhado na religião. Mas, como ele mesmo admite no livro, permanece obcecado pelo Metallica. A ex-banda é tão importante em sua vida que continua determinando alguns fatos do dia a dia do músico – e está na origem de muitas de suas ações mesmo 30 anos passados da separação. Em algumas passagens, até mesmo o Megadeth fica em segundo plano, diante da obsessão pela música e pelo sucesso do Metallica. “Eu deveria estar lá”, repete sem cessar.

É uma leitura bastante interessante, ainda mais nas vésperas dos shows no Brasil. Assim como Eric Clapton e, de certa forma, Ozzy Osbourne, teve bastante coragem para se abrir e revelar suas angústias, seus medos, seus erros e suas obsessões – e as eventuais injustiças que cometeu quando demitiu músicos, agindo da mesma forma como Ulrich e Hetfield agiram com ele. E não teve vergonha de revelar o quanto o Metallica ainda mexe com sua cabeça. Um livro raro em relação à sinceridade do biografado. Hoje em dia isso conta bastante.

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