Mike Portnoy mostra que há vida após o Dream Theater

Estadão

21 de março de 2012 | 06h31

Marcelo Moreira

O baterista Mike Portnoy nunca teve medo de expiar seus pecados e suas amarguras em público. Transformou a sua árdua luta contra o alcoolismo em algumas da mais interessantes músicas de heavy metal quando integrava o Dream Theater – virou um clássico entre os fãs o “CD que nunca foi lançado”, “12 Step Suite”, a saga do músico pelo calvário em cinco músicas espalhadas por cinco álbuns da banda.

Mais recentemente ele finalmente encerrou o período de arrependimento e choradeira por ter deixado o grupo – tentou retornar depois mas foi simplesmente recusado pelos ex-parceiros (e ex-amigos). Reclamou bastante na internet pelo modo como foi tratado, soltou farpas contra os músicos do Dream Theater e cansou de bater boca com fãs em fóruns pela internet.

Exausto diante de tanta expiação pública, era hora de ocupar a cabeça e trabalhar. E o fez da melhor forma possível. enquanto seu projeto fantástico Transalantic está hibernando, lançou-se a mais duas empreitadas, o Adrenaline Mob e o Flying Colours, liderando os dois e mostrando que existe sim vida depois do Dream Theater, que ajudou a fundar em 1985.

O Adrenaline Mob, ao que tudo indica, deverá ser a sua prioridade daqui para a frente, embora tenha de administrar a agenda do vocalista Russell Allen, que é o cantor da ótima banda de metal progressivo Symphony X. O esquema é o da formação de um supergrupo, como fez com o Transatlantic.

Portnoy desta vez foge do metal progressivo e aposta em um heavy metal tradicional pontilhado por metalcore e bastante agressividade, com uma sonoridade potente e moderna. Alguns veículos de comunicação chegaram a routlar o Adrenaline Mob como new metal ou alternative metal. Nada mais longe do que a banda realmente é.

A pegada é muito interessante e traz um som que Portnoy sempre criticou, mas que parece ser do agrado dele atualmente. Sus linhas de bateria estão mais retas e econômicas, na linha do que fez ao vivo com a banda de metalcore Avenged Sevenfold. Mais contido, consegue fazer uma boa “cama” para o trabalho conciso e preciso do guitarrista Mike Orlando.

A banda acabou de lançar “Omertà”, que contava com as participações do baixista Paul DiLeo (Fozzy) e do guitarrista Rich Ward (Stuck Mojo/Fozzy). Os dois fizeram os primeiros shows do grupo, mas tiveram de deixar o projeto por contra dos atritos de agenda relativos a suas bandas principais. Por enquanto, apenas o baixista John Moyer (Disturbed) foi anunciado como novo integrante.

No álbum recém-lançado, os destaques ficam por conta das faixas muito pesadas “Undaunted”, “Psychosane” e “All on the Line”, além de uma versão esquisita, mas que não deixa de ser interessante, de “Come Undone”, do Duran Duran, tendo a vocalista Lzzy Hale, da banda de hard rock Halestorm.

Já o Flying Colors é mais um supergrupo no estilo do Transatlantic em relação aos participantes, mas com uma sonoridade mais acessível, quase pop.

Se o Transatlantic é um mergulho fundo no rock progressivo com pitadas de metal progressivo, o Flying Colors é um projeto voltado para um rock progressivo mais soft, lembrando os trabalhos iniciais do Asia, mas sem tanto teclado e com a guitarra maravilhosa de Steve Morse (Deep Purple) conduzindo toda a harmonia do primeiro trabalho, recém-lançado e auto-intitulado.

Além de Steve Morse, Portnoy chamou para o novo projeto outro Morse, o Neal, companheiro de Transatlantic, ex-líder e vocalista do magistral grupo de prog metal Spock’s Beard.

 No Flying Colors Neal Morse toca apenas teclado e faz vocais de apoio, deixando para Casey MacPherson, da banda pop Alpha Rev, a tarefa de cantar com um acento mais pop e melódico. Completa o quinteto o baixista Dave LaRue, companheiro de Steve Morse na Steve Morse Band.

A grande sacada do projeto, ao contrário do Adrenaline Mob, é que não há a obrigatoriedade de revolucionar o rock ou de mostrar o quanto o trabalho é grandioso e feito por músicos excepcionais, como no Transatlantic.

A questão no Flying Colors é simplesmente um encontro de amigos e músicos igualmente excepcionais para fazer música de qualidade, mas despretensiosa e diferente do que os integrantes fazem em suas bandas principais.

Flying Colors

Dave LaRue, Neal Morse, Steve Morse, Casey McPherson e Mike Portnoy – Divlgação

Produzido por Peter Collins (Rush, Queensrÿche, Alice Cooper, Bon Jovi, etc) e gravado no estúdio pessoal de Neal Morse (onde os últimos discos Transatlantic e os seus solos foram gravados) o disco traz um repertório de 11 músicas.

“O Flying Colors vem da ideia de unir músicos virtuosos e um cantor pop para criar uma música nova mas como se fazia antigamente”, disse Portnoy na nota de lançamento do álbum. “Esse disco tem pedaços do que vocês esperam de cada um de nós, o resultado disso nos leva a novos territórios, inclusive para cada um de nós no grupo.”

O resultado é bastante agradável, especialmente no ótimo trabalho de guitarras de Steve Morse e no virtuoso baixo de LaRue. Portnoy se solta mais aqui, com ótimas levadas progressivas e linhas de progressão mais intrincadas.

  Um senão é a participação destoante de MacPherson, que é bom cantor, mas parece visivelmente deslocado em meio a feras como os companheiros, mas nada que comprometa esse interessante trabalho. A sequência inicial “Blue Ocean”, “Shoulda Coulda Woulda” e “Kayla” já vale o CD, assim como a bela e pungente “Everything Changes” e amaravilhosa suíte “Infinite Fire”.  

“Omertà”, do Adrenaline Mob, ganhará versão brasileira pela Hellion Records. Já o trabalho do Flying Colors não tem previsão de lançamento no Brasil. 

 

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