Metallica: uma trajetória de peso e fúria

Estadão

20 de maio de 2012 | 16h00

Roberto Nascimento

A metamorfose do Metallica, de banda revolucionária, seminal para o desenvolvimento do trash metal, ao status de supergrupo com milhões de discos vendidos é o foco do veterano jornalista Mick Wall no livro Metallica – A Biografia, já à venda no Brasil.

Trata-se do ângulo mais lógico a ser tomado na narrativa de uma banda que estabeleceu sua reputação a ferro e fogo nos anos 80, lançando discos reverenciados pelo alto nível de musicalidade, e não parou de buscar a consagração popular, simplificando sua música e transformando-a em espetáculo, a ponto de alcançar um patamar semelhante ao do U2 no universo pop.

Por isso, Wall, uma das estrelas da então influente revista de rock Kerrang! nos anos 80, e acompanhou de perto o desenvolvimento da banda, inicia o livro com a descrição de um acidente de ônibus na Suécia, em 1986, que tomou a vida do baixista Cliff Burton.

A banda fazia a turnê de Master of Puppets, disco considerado a obra-prima do Metallica, e na visão de Wall, Burton era, tragicamente, a figura que impedia a banda de dar voos mais altos em termos de popularidade, pois pouco se importava com o hype que a banda angariava dos dois lados do Atlântico, e suas opiniões eram recebidas com respeito pelos membros da banda.

Com a partida de Burton, em um acidente de tons proféticos (o baixista havia tirado a sorte, na mesma noite, para ver quem ficaria com a melhor cama do ônibus. Ganhou, escolheu a que James Hetfield queria, e ficou preso embaixo do veículo, que capotou diversas vezes), o Metallica ficou mais livre para jogar o jogo pop, o que culminou no disco Metallica (ou o “disco preto”), de 1991, emplacado em primeiro lugar na Billboard para transformar o Metallica no que é hoje.

Ulrich, arquiteto do Metallica
Para Wall, o arquiteto desta marca Metallica senta atrás dos tambores. E a leitura sobre a formação de Lars Ulrich, de filho único de privilegiada família dinamarquesa a mito do heavy metal é um dos nacos didáticos interessantes deste livro para iniciantes no folclore da banda.

Destoa da enciclopédica sabedoria sobre os mecanismos do show biz (discos vendidos, o necessário para aparecer na MTV, etc…) ostentada por Wall. De acordo com a obra, Ulrich foi o responsável por colocar a banda na capa da Kerrang! Tomou decisões drásticas, como não fazer um videoclipe na época em que isto era o que se esperava de uma banda de rock, e assim chamou mais atenção para o Metallica.

Foi Ulrich quem decidiu assinar com o produtor Bob Rock, mentor de bandas pop, como Aerosmith, Bon Jovi e Skid Row (jogada que acabou no disco de 1991).  Mesmo assim, conta Wall, na época em que Dave Mustaine, que sairia da banda para formar o Megadeth, fazia a dupla de guitarras do Metallica com James Hetfield, os dois quiseram demitir o baterista inúmeras vezes. Na turnê de Master of Puppets, por exemplo, um assunto em pauta.

Como explica na entrevista abaixo, Wall é conhecido próximo de Lars Ulrich, o que, em primeira instância, não ofusca seu jornalismo, pois não há bajulação aberta. Mas sua visão de Ulrich como o protagonista da ascensão popular do Metallica, embora confirmada pelos outros membros da banda, não deixa de ser influenciada pela visão de business do rock.

Onde seu jornalismo fica entediante, e chega a níveis questionáveis, é no início de cada capítulo, em que reconta em detalhes excessos cometidos na época em que era próximo da banda. Em uma das vinhetas, Wall está cheirando cocaína com um amigo antes de ir ouvir a mixagem de Master of Puppets.

A narrativa não se beneficia disto; parece constantemente tentar inserir sua persona na história da banda em uma forma de fanatismo velado. O ápice da tietagem vem em uma questionável descrição de uma entrevista com Ulrich, em 2008, logo após o início da crise econômica.

Na ocasião, Wall se compara a Ulrich: “Éramos figuras eminentes em nossas áreas, jogando conversa fora e sendo bem pagos por isso enquanto o resto do mundo enfrentava um inferno”, escreve ele.

Embora o resto da história seja didática e deixe os fatos falarem pela banda, as aventuras de Mick Wall e o Metallica minam o interesse do leitor. Melhor é quando Wall conta as histórias do início da banda, como a da formação do nome Metallica, que passou por diversas encarnações nas cabeças de Lars e James, de Black Lightning e Black Vette, a Metal Mania.

Wall poderia ter incluído a história de como o riff de Enter Sandman, talvez o mais famoso da banda, foi composto por Kirk Hammet de madrugada, esquecido e desenterrado para virar a peça central do disco Metallica. Mas na descrição do disco, prefere ater-se às letras e ao frenesi das vendas.

Tudo o que sabemos sobre:

Metallica

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.