Metallica faz show demolidor e arrebata o Rio

Estadão

27 de setembro de 2011 | 06h30

Pedro Antunes

Nenhuma música executada nos primeiros três dias de Rock in Rio poderia significar mais do que Master of Puppets, dos veteranos do heavy metal Metallica, para tentar explicar o furacão que passou por ali. Pinçada do disco de 1986, ou seja, de 25 anos atrás, ela sintetiza o melhor da banda – vocais raivosos, guitarras poderosas, baixo trabalhado e bateria agressiva – numa letra que mostra um mestre e suas marionetes.

É uma relação de poder e domínio. Quando o Metallica pisou no Palco Mundo, na madrugada de domingo para segunda, às 1h19, era como se fossem os mestres e, ao puxar as cordas, controlassem o público. Classuda, a banda entrou no palco ao som de The Ecstasy of Gold, do italiano Ennio Morricone, e com cenas do faroeste Três Homens em Conflito (1966).

Em mais de duas horas de som, a banda transformou o dia do metal no “dia do Metallica e outras bandas aí”, tal foi sua performance – e o envolvimento com os 100 mil pagantes, um mar de camisetas negras e mãos ao alto fazendo chifrinho, símbolo do metal.

Mesmo tendo passado pelo Brasil há um ano e meio, a banda se mostrou afiada e com vontade de tornar a noite memorável. A pancadaria sonora já havia começado com o Motörhead, do vocalista Lemmy Kilmister, e os mascarados do Slipknot, mas nada se comparou a eles ou muito menos às noites anteriores, fechadas por Rihanna e Red Hot Chili Peppers.

Completando 30 anos em 2011, a banda domina completamente a massa. Faz o que há de melhor em heavy metal de arena. Os vocais do carismático James Hetfield acentuam sempre a última palavra de cada verso, para que mesmo aquele que não saiba a letra acompanhe, balbuciando.

Ao chegar à terceira década de existência, o Metallica mantém sua produção nos estúdios, mas não com tanta frequência – o último disco, Death Magnetic, é de 2008. O negócio deles é tocar ao vivo.

James Hetfield, do Metallica (EFE/ Marcelo Sayão)

A vibração do público deve ser viciante, porque a banda não se cansa de clássicos, como Creeping Death e For Whom The Bell Tolls, que tocaram no início do show e já têm, veja só, 26 anos de idade. Na primeira delas, voz, guitarra e baixo pararam, e apenas Lars Ulrich manteve a bateria pulsante. Os fãs cantaram sozinhos. Vocalista, guitarrista e mestre de marionetes, James Hetfield os regeu.

Erro e muitos acertos

A aposta em clássicos ajudou a transformar a apresentação em algo memorável. Canções de discos medianos, como Load (1996) e St. Anger (2003), ficaram de fora do set list e isso parece não ter feito a menor diferença. “Vocês estão bem? Queremos que vocês sintam o que sentimos”, gritou Hetfield, empolgado, antes de Fuel, a melhor de um álbum de gosto duvidoso (Reload, de 1997).

Mas nem uma noite de sucessos está livre de falhas: em Fade to Black, a guitarra de Hetfield perdeu a distorção habitual. “Normalmente, é mais pesado, mas vocês entenderam a ideia”, brincou ele, para ganhar a plateia. Até o Metallica erra. Mas eles sabem dar a volta por cima.

O baixista Robert Trujillo, que entrou na banda em 2003, caminhava imitando um macaco e solou tocando apenas uma corda, desafinando-a, manualmente, para fazer a variação sonora. Já o virtuoso Kirk Hammett arriscou alguns segundos de Samba de Uma Nota Só, de Tom Jobim, durante o seu solo, para êxtase geral.

 

Robert Trujillo e James Hetfield (EFE/ Marcelo Sayão)

Sacaram, ainda, outros hits, como One, Blackened e Nothing Else Matters, mas nada chegou aos pés da catarse em Enter Sandman. O chão do Rock in Rio, literalmente, tremeu com os pulos da multidão.

A banda saiu e voltou logo para o bis, finalizado com a poderosa Seek and Destroy, quando balões negros com o símbolo do Metallica foram jogados ao público. Em completa entrega, o grupo parecia não querer sair do palco. Ficaria lá por outros 5 minutos, agradecendo, arremessando palhetas e baquetas. E o baterista Lars Ulrich fez a graça de sempre: cuspiu água nos fãs que, pasme, pareceram adorar.

Metallica e público, mestres e bonecos, concorrem com favoritismo para se tornarem o melhor show da quarta edição do Rock in Rio no Brasil. E, mais do que isso, mostraram que rock de verdade é mesmo coisa para gente grande.

 

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