Super Peso Brasil resgata parte da rica história do metal nacional

Estadão

25 de outubro de 2013 | 06h47

Marcelo Moreira

“Nunca fiz rock nacional, só heavy metal.” A resposta sempre foi a mesma para a provocação frequente e costumeira feita por gente pobre de espírito ou sem a menor noção de nada. Nada contra o pop rock insosso e sem pegada feito nos anos 80 (com as exceções de sempre…), mas a turma era outra, e não havia como haver qualquer conexão. Músicos de alta qualidade que optaram por fazer heavy metal há mais de 30 anos tiveram que suportar o dobro das dificuldades e desprezo em geral e passaram anos tocando em moquifos e espeluncas para poucas dezenas de felizardos fanáticos. Agora terão a sua pequena vingança, no final de 2013.

Devagarzinho, bandas de rock pesado e de heavy metal que cantavam em português nos anos 80 voltam à cena, nunca celebração a uma cena que sucumbiu rapidamente, mas que deixou um legado mais produtivo e edificante do que bandas pop de qualidade altamente questionável, como é o caso das coisas risíveis como Blitz, Metrô, Absyntho, João Penca e qualquer coisa amestrada, entre outras aberrações.

Stress, Dorsal Atlântica, Harppia, Centúrias, Vírus, Platina e mais uma centena de bandas que adotaram o som pesado mostraram que havia vida mais inteligente e mais instigante nos anos 80, ainda que completamente ignorada e rechaçada por um público ávido por consumir porcarias empurradas nos programas de TV populares e por emissoras de rádio “jabazeiras”.

Se 30 anos atrás não era um movimento, hoje é, com devido desconto do saudosismo e da nostalgia. A celebração do rock rock pesado nacional finalmente ganhou um evento que tem tudo para se tornar um marco na agenda de São Paulo: o Super Peso Brasil, que receberá cinco bandas históricas no Carioca Club, em São Paulo, em 9 de novembro, pretende resgatar um pouco da história musical de São Paulo e homenagear músicos que construíram uma cena do nada em meio a um ambiente hostil e desprovido de apoio.

“O ‘Super Peso Brasil’ é um evento que serve para celebrar o trabalho dos pioneiros. Muitas pessoas infelizmente esquecem os que vieram antes de Sepultura, Angra, Krisiun e outras de renome, mas este é o nosso ‘muito obrigado’ a alguns nomes que ajudaram a criar o que temos atualmente”, afirma o jornalista Ricardo Batalha, um dos coordenadores e incentivadores do evento.

“O Batalha era um garoto de 17 anos que era fã demais das bandas de rock pesado dos anos 80 e cansou de filmar a gente e todo mundo com sua enorme câmera de vídeo com fita VHS. Mais do que uma honra, é um privilégio participar de um evento tão importante e significativo”, fiz Nilton César “Cachorrão” Zanelli, o vocalista do Centúrias, banda antológica formada em 1980 e que está de volta já há algum tempo aos palcos – acaba de lançar uma nova música inédita “Sobreviver”, a primeira em 25 anos.

A agressividade ingênua e às vezes infantil escancarada em gravações toscas, quase caseiras, guardam bastante semelhança com os primórdios da New Wave of British Heavy Metal (NWOBHM). No livro “Run to the Hills”, uma biografia autorizada do Iron Maiden escrita por Mick Wall, Steve Harris, o baixista e dono da banda, afirma que o desprezo de parte do público e a completa falta de interesse de uma mídia mesmerizada com a pancadaria sonora artificial do punk e seu comportamento supostamente violento e anárquico obstruiu as carreiras de muita gente boa. “Adrian Smith só entrou no Iron Maiden em 1980 porque o seu Urchin, uma boa e respeitada banda londrina, se despedaçou por falta de apoio. E assim aconteceu com outras bandas legais, como Witchfinder General, Angel Witch, Sweet Savage e muitas outras. O Iron sobreviveu, mas muita gente foi soterrada pela ignorância e pela miopia do mercado.”

O Supre Peso Brasil, em sua primeira edição para valer, não pretende retificar a história ou redimir “heróis injustiçados”. Mais do que uma homenagem, é uma celebração a músicos que ousaram fugir da moda e tentar criar algo que fosse genuinamente agressivo e contestador, tendo como base o rock pesado anglo-americano dos anos 70 e o heavy metal inglês do início dos anos 80.

Enquanto Metallica, Exodus e mais uma penca de bandas importantes do thrash metal californiano davam os seus primeiros passos, alguns desbravadores tentavam furar o bloqueio da pasmaceira pop-mpbística de quinta categoria que dominava o show biz nacional na virada dos anos 70 para os 80.

E coube aos alucinados do Made in Brazil, na ativa desde 1967, segurar a onda para que o rock não sumisse entre as misturas exóticas com elementos da MPB chata e os “cabecismos” viajandões dos progressivos brazucas. O Made in Brazil manteve a chama acesa para que moleques como os garotos do Centúrias, da Dorsal Atlântica e do Stress mergulhassem de cabeça e percebessem que havia espaço, ainda que pequeno, para o rock pesado, sujo e agressivo no Brasil – e isso antes do rolo compressor punk nacional, que tomaria de assalto as ruas e periferias de São Paulo e Rio de Janeiro a partir do começo de 1982.

“A devoção musical da nossa galera era quase religiosa, mas nunca foi sectária ou exclusivista, como o punk chegou a ser por um tempo. Queríamos ser ouvidos, expandir nosso público e tocar onde desse. Por isso é que nos metemos em cada roubada, em cada buraco que hoje soam quase como ficção. Que  a história julgue se éramos ou não bons músicos e se nossas músicas prestavam, mas com certeza o que fizemos não deixava a desejar ao que era feito pelo dito pop rock brasileiro dos anos 80, ainda que nossos recursos em todos os sentidos fossem ínfimos e nossa juventude e imaturidade afetassem, de certa forma, o resultado final”, afirma Ricardo Ravache, o baixista do Centúrias.

Geralmente, o desprezo que beira a desfaçatez ocorre por pura falta de informação, e é uma forma de disfarçar a lacuna informativa. O bando sujo de cabeludos barulhentos e ameaçadores era algo ultrajante para um cenário artístico conservador domesticado pela ditadura militar em seu estertores, ainda dominado pela embolorada e acomodada MPB.

O heavy metal era ainda mais ameaçador do que o punk rock, que até então era visto apenas e tão somente como uma excrescência periférica e passageira por jornalistas pançudos burocráticos e promotores artísticos apenas preocupados com as bilheterias – e dá-lhe shows bregas de Sidney Magal, Vanusa, a pior fase de Ronnie Von, Antonio Marcos, Jessé…

O rock pesado incomodava mais que o punk porque, à primeira vista, não era tão ameaçador. Era arrogante, despretensioso e autoconfiante, exatamente como Steve Harris era em 1979, antes do estouro do Iron Maiden. Os músicos do heavy paulistano, por exemplo, desprezavam as caras feias e as pilhérias perpetradas por quem se achava antenado e quem achava que entendia de música. Por conta própria, e no esquema mais tosco possível, iam em frente e registravam fitas demo, compactos simples em vinil e participavam de coletâneas, como o “SP Metal”, bancando e produzido pelo lunático Luís Calanca, empresário dono da loja de discos e gravadora independente Baratos Afins, praticamente o único a acreditar na importância história da cena incipiente.

Banda Stress

“Tinha qualidade no que os garotos faziam. Havia paixão, havia energia, pique estonteante e uma vontade de fazer enorme, tudo feito com instrumentos ruins, estúdios inadequados e inexperiência de todos dentro do estúdio, inclusive a minha. Mas aquilo tinha de ser registrado, era muito agressivo e pesado, coisa que nunca tinha sido feita no Brasil. Esteticamente, bandas como Centúrias, Harppia, Dorsal Atlântica e mesmo o início do Sepultura foram muito além do que alguns nomes importantes do chamado rock nacional”, defende Calanca, que promoverá também em novembro um minifestival com artistas de sua gravadora para marcar os 35 anos de fundação da loja. No ano que vem, promete outro evento para marcar os 30 anos do lançamento dos dois volumes do “SP Metal”.

E a banda paraense Stress ilustra perfeitamente a motivação e a atitude do rock pesado brasileiro oitentista. Coube ao trio de Belém a primazia de gravar e lançar o primeiro álbum de heavy metal do Brasil, em 1982 – é provavelmente um dos primeiros do gênero na América Latina. E isso antes do primeiro álbum do Metallica ser lançado – a famosa demo, foi distribuída em 1982 aos amigos, para depois ser vendida no final do ano, ainda com Dave Mustaine na guitarra. “Kill’Em All”, o álbum pioneiro, é de 1984.

Foram mais de 20 horas de ônibus até o Rio de Janeiro para gravar de forma quase artesanal o primeiro álbum, tendo de aturar acomodações péssimas para dormir e engenheiros de som e técnicos que não faziam ideia do que era heavy metal, nem mesmo do que se tratava o som de bandas até então antigas como Deep Purple e Black Sabbath.

Redenção é o que menos importa para as bandas que vão tocar no Super Peso Brasil – Stress, Centúrias, Taurus, Metalmorphose e Salário Mínimo, com a presença de alguns convidados especiais, como Jack Santiago (Harppia) e Vitor Rodrigues (Voodopriest, ex-Torture Squad). Músicos quarentões e cinquentões, alguns voltando a tocar somente para participar do evento, pretendem se divertir, celebrar e relembrar, não necessariamente nessa ordem.

Claro que tudo é sério, ou então o Centúrias e o Metalmorphose não se dariam ao trabalho de gravar novas músicas, gastando dinheiro com estúdio, produção e divulgação. O que varia é o nível de exigência e de expectativa. “Seria maravilhoso fazer turnês e até mesmo aumentar a carga de shows mensal para ganhar uma grana a mais. Só que não vai rolar. Queremos fazer e vamos fazer, faremos um novo CD em 2014, seja pela vaidade de achar que ainda temos algo a dizer, ou por querer que nosso legado seja lembrado. Não importa. Queremos fazer porque gostamos e porque sentimos que dá para criar algo legal. Percebemos que ainda somos criativos musicalmente, e isso nos deixa mais do que realizados, assim como o reconhecimento do público que sabemos que ainda temos”, diz Cachorrão do Centúrias, que lança em breve o single “Rompendo o Silêncio”, enquanto o Metalmorphose está lançando o clipe de “Máscara”, segundo promocional do álbum “Máquina dos Sentidos” (2012).

Celebrações à parte, os “metaleiros das antigas” pretendem mostrar que estão aí para chacoalhar o rock nacional de novo. Vão juntar forças com a geração mais nova, aquela formada por gente boa como Carro Bomba, Baranga, Motorocker, Tomada, Velhas Virgens e muitas outras mais para quem sabe ocupar um espaço que hoje é defendido, por incrível que pareça, por gente como Charlie Brown Júnior (que nem existe mais, mas que ainda tem música nas paradas de rádio), NX Zero e O Rappa, as parcas bandas de pop rock que conseguem aparecer nas listas das 100 mais tocadas publicadas na revista Billboard Brasil. O Super Peso Brasil vem para provar que o pessoal das antigas está com a faca nos dentes.

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 SERVIÇO

Serviço – Super Peso Brasil:
Atrações: Metalmorphose (RJ), Stress (PA), Centúrias (SP), Taurus (RJ), Salário Mínimo (SP) e convidados
Data: 09 de novembro (sábado)
Abertura da casa: 16h
Início dos shows: 17h15
Local: Carioca Club
Endereço: Rua Cardeal Arcoverde, 2899, Pinheiros – São Paulo
Fone: (11) 3813-8598
Classificação etária: 16 anos
Capacidade: 1500 pessoas
Ar-condicionado
Acesso a deficientes

(*) Promoção DOUBLE CERVEJA: compre 1 lata de cerveja Antarctica e leve 2

Ingressos:

1º LOTE (ATÉ 31/08)
Promocional (Pista): R$ 40
COMBO: Na compra online do pacote de 4 ingressos de pista o valor será R$ 120 (R$ 30 cada)
Promocional (Camarote): R$ 75
COMBO CAMAROTE: Na compra online do pacote de 4 ingressos de camarote o valor será R$ 240 (R$ 60 cada) – https://www.clubedoingresso.com

2º LOTE (DE 01/09 ATÉ 08/11)
Promocional (Pista): R$ 50
COMBO: Na compra do pacote de 4 ingressos de pista o valor será R$ 160 (R$ 40 cada)
Promocional Antecipado (Camarote): R$ 85
Promoção: Na compra online do pacote de 4 ingressos de camarote o valor será R$ 280 (R$ 70 cada) – https://www.clubedoingresso.com

Ingressos no dia:
Pista: R$ 60
Camarote: R$ 100

Ingresso online antecipado pelo Clube do Ingresso em https://www.clubedoingresso.com – disponível a partir de 1º de julho.

Pontos de venda:

Animal Records
Loja 367 – Tel.: (11) 3223-6277
Especializado em Hard Rock e Heavy Metal
Site: www.animalrecords.com.br

Manifesto Bar
Rua Iguatemi, 36, Itaim Bibi – São Paulo/SP
Fone: (11) 3168-9595
Site: www.manifestobar.com.br
Formas de pagamento: Somente Dinheiro – Promocional (Pista): R$ 40

Carioca Club
Horário: Segunda a sábado, das 9h às 20h
Formas de pagamento: Somente Dinheiro (sem taxa de conveniência)
Site: www.cariocaclub.com.br

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