Metal Open Air não é a cara dos shows de rock no Brasil

Estadão

24 de abril de 2012 | 07h04

Marcelo Moreira

Em meados dos ano 90 a banda norte-americana Quiet Riot ensaiava a enésima volta ao mercado e aceitou uma arriscada empreitada: tocar no Brasil sob contrato de uma produtora de shows desconhecida, em um esquema que também envolvia a banda paulistana Kavla.

O quarteto veio a São Paulo para tocar em um minifestival na região de Campinas e acabou tendo inúmeros problemas técnicos e de logística, culminando com a falta de pagamento do cachê. Segundo pessoas contratadas para a produção e que teriam sido também lesadas, o contratante teria sumido com o dinheiro, fato esse nunca comprovado.

O fato é que o Kavla nem subiu ao palco, e o Quiet Riot fez um shows curto e voltou rápido para São Paulo, tendo recebido a ajuda financeira de amigos brasileiros e fãs para comprar comida e as passagens de volta a Los Angeles.

Quando perguntado sobre o problema, Kevin DuBrow, o vocalista (morto em 2008), resignado, mas encontrando forças para manter o bom humor, disse que aquela não era a primeira “roubada” que tinha se metido e que a banda cansou de levar cano nos Estados Unidos e no Canadá. Disse que tinha adorado o Brasil e que tinha feito novos “irmãos” diante do infortúnio. Anos depois, perguntado novamente sobre aqueles problemas, repetiu tudo o que foi dito quando esteve aqui pela primeira vez.

A historinha acima ilustra bem os riscos e os problemas que afligem bandas de rock de todos os níveis na estrada, seja no Brasil, nos Estados Unidos ou na Europa. Bandas brasileiras já sofreram com os mesmos problemas em países do Leste Europeu e até mesmo na Alemanha. Até mesmo gente séria e do maior profissionalismo, como os proprietários da Die Herd Records, de São Paulo, sofreram com as reclamações dos integrantes do Primal Fear, quanto organizaram um minifestival de metal na Vila Olímpia, também nos anos 90.

O caos e os infindáveis problemas no Metal Open Air, em São Luís (MA), no último final de semana, não podem ser comparados com os que afetaram o Quiet Riot. A dimensão é muito maior – e estamos em 2012, e não mais em 1995, 1988 ou antes, quando a estrutura e as informações eram muito, mas muito mais precárias.

Achar que o festival micado não vai influenciar os futuros eventos e a credibilidade de organizadores de porte médio do Brasil e da América do Sul é ingenuidade. Vai influenciar sim, e negativamente, a médio prazo. Mas vamos devagar com a questão.

O mesmo país que sediou o micado Metal Open Air, um poço de amadorismo e de incompetência, é capaz de organizar com bastante eficiência eventos como SWU, Lollapalooza, Rock in Rio, Philips Monsters of Rock, Hollywood Rock e vários outros. Mesmo os de menor porte são reconhecidos internacionalmente, como Abril Pro Rock, Porão do Rock (Brasília), Roça’n Roll (Varginha-MG), Noise Fest (Goiânia) e Festival do Rock Feminino (Rio Claro-SP).

Generalizar os inacreditáveis problemas que atingiram o Metal Open Air e estender a falta de competência a todo o segmento de organização de eventos musicais internacionais, em especial os de rock pesado, é absurdo e injusto.

Problemas graves de organização já afetaram festivais importantes no mundo, como Wacken Open Air (Alemanha), Grasspop (Bélgica), Gods of Metal (Itália) er alguns outros no Leste Europeu. Não é exclusividade brasileira ou terceiromundista.

Prova disso é que o Brasil está cada vez mais inserido na rota internacional dos grandes shows. A cada ano mais artistas internacionais tocam por aqui, e cada vez mais em cidades fora do eixo São Paulo-Rio-Curitiba-Porto Alegre. Iron Maiden já tocou em Belém (coisa inimaginável há cinco anos), Scorpions em Manaus, Paul McCartney em Recife e Florianópolis, Saxon em Fortaleza…

Incompetência e amadorismo mancham reputações e ferem credibibidade, mas qualquer análise neste sentido precisa ter equilíbrio e discernimento. E não é de hoje que nós, brasileiros, costumamos ser muito mais rigorosos com nossos erros e nossas deficiências, distorcendo, de certa forma, a realidade. Será que aí alguém lembra dos nove mortos no festival Roskilde, na Dinamarca, em show do Pearl Jam, em 2000?

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