Metal Open Air: jornalismo foi driblado impiedosamente na cobertura pré-festival

Estadão

15 de maio de 2012 | 06h32

Marcelo Moreira

A Polícia Civil do Maranhão está prestes a concluir a investigação sobre os milhares de problemas ocorridos às vésperas e durante o Metal Open Air no mês passado, naquele que seria o maior festival de heavy metal da América Latina.

Seriam três dias com 46 bandas tocando no Parque da Independência, em São Luís, com muitos espectadores acampando no local, como no Wacken Open Air, na Alemanha. Instalações precárias, falta de pagamento de prestadores de serviço, bandas sem cachê e muito mais problemas levaram ao cancelamento do evento bem no meio, antes do último dia de show.

As lesões aos consumidores são claras e notórias, assim como a falta der pagamento às bandas, fornecedores e empresas responsáveis pela montagem de palco, pela segurança e pela limpeza. O Procon maranhense não tem dúvidas em creditar às duas empresas organizadoras, a paulista Negri Concerts e a local Lamparina Produções, a responsabilidade pelo fiasco.

A polícia deve concluir a investigação no dia 24 de maio, data-limite para que a delegacias de Costumes, Turismo, Defraudações e do Consumidor, coordenada pela Superintendência de Polícia de São Luís, entreguem o relatório para eventual instauração de inquérito policial.

Em um primeiro depoimento, segundo a imprensa de São Luís, o empresário Natanael Jr., da Lamparina Produções, afirmou que “o representante da Lamparina afirmou que as bandas – ao todo 39 – estavam em São Luís e que quase a totalidade, foram pagas – os registro em hotéis da cidade poderiam ajudar a provar tal afirmação. O número não bate com o total de bandas que cancelou a viagem para a cidade às vésperas e nos dias de shows.

Logo após o festival fracassado, Natanael Jr. e Felipe Negri, da Negri Concerts, trocaram acusações – tentativa de sequestro de um lado, extorsão de outro. Um final condizente com o fiasco.

Seja como for, independente dos resultados das investigações e das eventuais penalidades a serem aplicadas às duas empresas – que serão indiciadas e punidas não há dúvidas –, o fato é que o jornalismo e o bom senso sofreram duros golpes com o episódio.

A grande imprensa do Sudeste, do Sul e de Brasília deu atenção mínima ao assunto. E os veículos especializados pouco fizeram para observar as condições de realização do evento, diante das cada vez mais explícitas desconfianças que surgiam a partir de janeiro de 2012.

As bandas também mantiveram silêncio até o último momento diante dos problemas que iam se acumulando – até que a luz amarela acendeu quando os santistas do Shadowside desistiram de participar com uma justificativa que estava evidentemente incompleta. Na verdade, não tinham obrigação de fazer qualquer alerta, papel que caberia à imprensa e a uma fatia de gente envolvida na organização.

A imprensa especializada e mesmo os veículos locais do Maranhão fizeram uma cobertura decente dos problemas antes e durante o festival, mas ignoraram os preparativos do evento – com um pouco de investigação e observação era possível encontrar alguns dos problemas de infraestrutura e também acerca do pagamento demorado e promessas não cumpridas aos artistas.

E coloco o Combate Rock no pacote dos veículos que acreditaram piamente na possibilidade de realização do Metal Open Air sem grandes percalços, embora os indícios de dificuldades tenham surgido desde o anúncio da realização do evento, em novembro passado, sem local definido e sem lista de atrações confirmadas.

O Wacken Open Air, o maior de todos os festivais de metal, anuncia a realização de uma edição e suas atrações 15 meses antes. O festival de São Luís teria apenas seis meses para deixar tudo pronto para que 46 bandas tocassem a contento, sendo que quase metade eram bandas internacionais.

 

Barracas de camping montadas em estábulo do Parque Independência (FOTO O IMPARCIAL)

A escolha de São Luís como local do evento gigantesco também causou estranheza, Além de ser fora do eixo mais rico do Brasil – São Paulo-Rio-Curitiba-BH-Porto Alegre, que também o mais tradicional em termos de rock pesado –, a capital maranhense deixava dúvidas a respeito de sua capacidade hoteleira para receber turistas e artistas em grande quantidade.

As promessas de apoio do governo estadual também eram frágeis, assim como os apoios de patrocinadores. Essas questões foram bastante discutidas entre jornalistas e fãs entre dezembro de 2011 e janeiro de 2012 em São Paulo, onde os temores de que o evento era grande demais para a cidade e para os organizadores. Entretanto, os questionamentos se afogaram nas mesas de bares e nos fechamentos caóticos dos veículos de comunicação.

Apesar dos temores e de todas as desconfianças, o fato é que todo segmento torceu demais para o sucesso do empreendimento. As bandas nacionais viam o festival como finalmente um passo gigantesco para que a cena de rock pesado saísse das trevas e adquirisse condições de existir de forma mais equilibrada financeiramente.

Empresas promotoras e agentes em geral ansiavam pelo sucesso para mostrar que o heavy metal é um mercado sustentável fora da Europa e dos Estados Unidos, ainda mais em época de crise econômica brava no chamado Primeiro Mundo. Um Metal Open Air bem feito escancararia um mercado que ainda não foi explorado totalmente, com chances de criação de uma infinidade de negócios em vários segmentos econômicos.

Já a imprensa especializada no fundo apoiou quase que incondicionalmente na esperança de que o sucesso do evento mostrasse a importância do mercado de heavy metal brasileiro e que catapultasse uma série de eventos-negócios para fortalecer a cena – mais shows, mais festivais, mais publicidade, mais anunciantes e mais publicações de bom nível surgindo.

O local escolhido também ajudou a inibir as tentativas mais consistentes de verificação das verdadeiras condições de realização do festival. São Luís estava longe da imprensa especializada, quase toda concentrada em São Paulo e Rio de Janeiro.

As condições para uma efetiva investigação estavam prejudicadas, mas meia dúzia de telefonemas ao menos poderiam dar alguma indicação do que ocorria. A imprensa local não se interessou pelo assunto, interessada em noticiar apenas os shows e mais nada.

Faltou iniciativa para uma consulta mais firme ao governo do Maranhão sobre o suposto “aporte financeiro” ou “apoio institucional” que os organizadores afirmaram que seria feito. Faltou uma observação mais cuidadosa sobre a confirmação dos patrocínios privados anunciados – e que, aparentemente, não se confirmaram à véspera do evento.

O fiasco do Metal Open Air deixou toneladas de lições a respeito do mercado musical brasileiro e do segmento de heavy metal, bem como para os promotores de shows, empresários e bandas.

Para a imprensa, as lições são mais dolorosas ainda diante da constatação de que houve muita torcida, mas pouquíssima disposição para questionar e investigar. Tenho certeza de que nós todos não mais tomaremos tamanha “bola por baixo das pernas”.

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