Mesmo distante, a reunião do Sepultura não é uma boa ideia

Estadão

13 Setembro 2013 | 07h00

Marcelo Moreira

A quem interessa a volta da formação clássica do Sepultura? Ninguém consegue responder com clareza, nem mesmo nas entrevistas dadas por membros e ex-membros da banda brasileira de heavy metal. Algo impensável antes de 2005, desde então Max Cavalera, do Soulfly, vem amenizando (e mudando) o discurso em busca de uma conciliação para, ao menos uma vez, segundo ele, tocar novamente com os antigos companheiros.

Ele voltou a falar sobre o assunto nesta semana em uma entrevista à revista Metal Paths e disse que uma reunião da formação clássica – Max, seu irmão Iggor (bateria), Andreas Kisser (guitarra) e Paulo Xisto Jr. (baixo) – é possível, mas muito difícil de ocorrer. Apesar de ter amenizado o discurso e diminuído das farpas contra os ex-companheiros, acabou pegando pesado em relação à empresária atual do Sepultura, Monika Bass Cavalera, ex-mulher de Iggor.

“Existe muita política envolvida com o pessoal do Sepultura e seu empresário. Eles são administrados por um dentista que não entende nada do negócio. Isso torna-os difíceis de operar de uma forma normal. Eu acho que é por isso que a banda não vai para lugar nenhum. Aproximam-se do chão mais e mais a cada ano”, disse Max. Quando ele se refere ao “dentista”, fala de Monika, que se formou em odontologia, chegou a montar um consultório, mas pouco exerceu a profissão.

O líder do Soulfly pisou ainda mais ao dizer que cada vez menos gente gosta da atual formação do Sepultura, que se afunda mais e mais no ostracismo. “Por alguma razão parece que eles não percebem que uma turnê de reunião seria a melhor coisa a fazer para os fãs e para o nome da banda. Eu gostaria de fazer isso por mim e pelos fãs.”

Em recente e rápida entrevista ao Combate Rock no mês passado, Max se limitou a falar sobre os shows que faria no Brasil em setembro e sobre o lançamento do novo álbum, “Savages”, e de sua autobiografia, que já está nas livrarias. Evitou mencionar qualquer tema relacionado ao Sepultura.

Quem conhece os bastidores atuais da banda afirma que a reunião não vai acontecer – e, se um dia vier a acontecer, vai demorar. O que faz todo o sentido. O Sepultura demorou mais de 15 anos para recuperar parte da credibilidade e dos fãs, está de novo fazendo turnês grandes pela Europa e pelos Estados Unidos e novamente está gravando um álbum no exterior – sem falar que ainda carrega nas costas o álbum “Kairos”, de 2011, o melhor álbum da banda na era Derrick Green nos vocais.

Formação atual do Sepultura (FOTO: DIVULGAÇÃO)

O momento da banda é bom, talvez o melhor desde a saída de Max, em 1996. Por que interromper esse processo em nome do que parece ser, ao menos por enquanto, um mero capricho de um ex-integrante?

Duas pessoas com acesso ao mundo atual do Sepultura veem como reservas as novas investidas do ex-guitarrista e vocalista, e não se convencem sobre as reais intenções da sugestão. Max já havia feito insinuações semelhantes e até mais explícitas em entrevistas a publicações americanas e japonesas recentemente, mas deu a entender que o Sepultura atual rechaça qualquer conversa neste sentido. As chances seriam, pelo menos no médio prazo, quase nulas de haver uma reunião.

O fato é que muitas feridas precisariam ser curadas para que houvesse clima de “reunião”, primeiro de forma séria, em volta de uma mesa, para depois haver uma conversa sobre um eventual show da formação clássica.

Formação clássica da banda, na virada dos anos 80 para os 90 

Na edição de abril da revista brasileira Roadie Crew, dedicada somente ao metal nacional, Andreas Kisser até declarou que um dia até pode haver um reencontro, mas a forma como disse foi tão vaga, tão deliberadamente sem convicção, que realmente dificilmente ocorrerá um dia.

Gloria Cavalera, mulher de Max, era a empresária do Sepultura quando houve a briga que decretou a separação. Hoje ela é a empresária do Soulfly, atual banda de Max, e do projeto Cavalera Conspiracy, que reúne Max e Iggor Cavalera, o ex-baterista do Sepultura. De cara já é um empecilho para qualquer conversa séria, já que foi a dispensa dos serviços dela, na virada de 1996 para 1997, que precipitou a ruptura.

Existe ainda a mágoa pessoal de Kisser, que não conversa com Max desde 1996, embora já tenham se cruzado em vários locais da Europa e dos Estados Unidos e até se cumprimentado.

Curiosamente, um projeto importante e aguardado do Sepultura, o documentário em DVD sobre a história da banda, pode ser uma chance de algum tipo de reaproximação, já que obviamente, não pensa em não usar depoimentos ou imagens dos irmãos Cavalera sem a autorização destes. Não é cabível nem mesmo que os dois não sejam entrevistados atualmente para o projeto.

Para completar, a empresária do Sepultura é Monika Bass Cavalera, ex-mulher de Iggor. Ela assumiu as rédeas do negócio pouco depois da saída de Max e permaneceu no posto mesmo com a saída do ex-marido do grupo em 2005. A relação com Gloria Cavalera nunca foi das melhores e não consta que tenha melhorado – salvo informações de última hora.

Monika Cavalera praticamente não fala em público sobre sua posição a respeito de uma eventual reunião do Sepultura. Para ela o assunto, no momento, é algo fora de questão – afinal, a banda está em estúdio em Los Angeles gravando o novo álbum, tem shows marcados no exterior e há o projeto do documentário. Há quem diga que ela é radicalmente contra a reunião, e há quem diga que a posição não é tão relutante assim. Tem gente que diz ainda que nunca ouviu dela nada a respeito. De qualquer forma, o que se sabe é que a empresária trabalha normalmente na atualidade sem essa possibilidade.

Diante do quatro de certa forma desanimador, parece sensato concluir que a reunião do Sepultura clássico é algo bastante etéreo e bastante distante, já que Kisser e Xisto não cansam de demonstrar, de forma educada, mas incisiva, que não têm interesse em se reunir aos irmãos Cavalera, pelo menos não no médio prazo.

Como as rusgas permanecem e existem pontas demais a serem atadas, talvez seja o melhor para os dois lados empurrar o quanto puderem essa ideia. Não há mais camaradagem, há uma quantidade razoável de desconfianças e uma distância de anos-luz entre os pensamentos musicais de Kisser e dos Cavalera.

Por mais aguardado que seja pelos fãs, o reencontro corre o risco de ser frustrante justamente pela falta de sintonia de quase 20 anos de separação e ressentimento. A julgar por algumas entrevistas dos últimos anos, em especial por parte de Max, não existe mais nem mesmo respeito pessoal, ainda que os dois lados se esforcem nos últimos anos para amenizar o tom de declarações. Ao menos no médio prazo, parece mesmo que não é uma boa ideia.

 

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