Mesmo desfalcado, Yes faz a alegria dos fãs em São Paulo

Estadão

31 de maio de 2013 | 08h00

Diogo Salles – publicado originalmente no blog Geek Musical

Mesmo sendo um progger de certa rodagem, quando vi anúncio da nova turnê do Yes no Brasil, fiquei me perguntando se valia a pena ir. Já tendo as turnês Talk (1994), Open Your Eyes (1998) e The Ladder (1999) no currículo, será que este show acrescentaria alguma coisa? Minha descrença no Yes aumentou muito de uns anos para cá, quando eles decidiramadotar vocalistas de bandas cover em sua formação.

É como se a banda tivesse encarnado aquele velhão tarado e cheio da grana que se separa de sua mulher para sair à caça de mulheres mais jovens. Fiz questão de boicotar o show de 2010, mas nessa turnê eles foram mais persuasivos e criaram um apelo que falou alto ao meu coração progger: tocar três de seus melhores álbuns na íntegra. The Yes Album (1970) foi o disco desbravador, que rompeu as barreiras e colocou Yes no mapa; Close To The Edge (1972) foi seu momento mais ousado, o ápice criativo; e Going For The One (1977) foi o canto do cisne na banda nos anos 70 (e levaria 6 anos para ela renascer pelas mãos de Trevor Rabin).

Confesso que tenho um fraco por turnês conceituais desse tipo, então decidi pagar para ver, ignorando as negativas do colunista do Yahoo Régis Tadeu, que classificou o show como uma “grande roubada”. Mas logo de cara, percebo que Tadeu erra bisonhamente ao dizer que a banda aparece burocrática e tocando as músicas com um andamento mais lento. Ao contrário, se há algo impecável nessa turnê é a execução das músicas. Andamento, timbres, solos, tudo. Qualquer progger mais ou menos experiente sabe que num show de rock progressivo tudo gira em torno disso. Se a execução for boa e tiver intensidade, o público está ganho.

A proposta da turnê era despudoradamente saudosista, então tudo o que eles tinham a fazer era honrar os 3 álbuns. Não só o objetivo foi alcançado como a banda soube presentear os geeks de plantão, colocando o nome das músicas no telão e agrupando cada álbum em três minisetlists. Ademais, o Yes nunca foi conhecido por pulos, acrobacias e o tradicional “vamos cantar junto” no palco – ainda mais agora, que a banda está envelhecida.

Aí me lembrei de duas doenças que acometem colunistas contemporâneos: 1) A necessidade de ser “ácido” para chamar a atenção e fazer um hype nas redes sociais; e 2) a mania de antecipar análises de shows através de vídeos no YouTube, onde quase tudo o que se vê ali apresenta um som sofrível, imagens tremidas e público gritando em cima das músicas.

Meu diagnóstico é que Régis Tadeu apresenta sintomas claros dessas duas enfermidades. No caso específico do Yes ele apresentou um quadro agudo de “ejaculação precoce youtúbica” e teve uma recaída em seu vício pela polêmica fácil. Por isso, vou receitar ao paciente um remédio que é tiro e queda (com trocadilho): vá ao show e faça a resenha depois.

De minha parte, fui ao HSBC Brasil cheio de calos e sem grandes expectativas, mas vi um show muito bem ensaiado, enxuto e focado no repertório, sem muito espaço para autoindulgências. Nada daquelas introduções mediúnicas, versões estendidas e improvisos intermináveis, como em “Awaken” e “Starship Trooper”. Foi revigorante poder ver músicas que nunca tinha visto ao vivo, como “Close To The Edge”, “Parallels” e “Perpetual Change”.

Sobre os músicos, poucas novidades. Chris Squire continua monstruoso no palco. Parece um viking com seu machado em punho. Suas linhas de baixo fazem as paredes tremerem. Impõe muito respeito. Steve Howe ainda impressiona pela precisão nos solos e pela sua técnica de tocar usando a palheta junto aos dedos para dedilhar em “The Clap”. Alan White seguro e discreto, como é de seu feitio. Uma das novidades era a volta de Geoff Downes ao teclados. Mesmo criticado por alguns fãs, ele tem um papel importante nessa nova encarnação da banda, trazendo mais densidade ao som e sabendo a hora certa de sair do script, ainda que discretamente.

O ponto nevrálgico era mesmo o novo vocalista Jon Davison. Depois da saída do insípidoBenoit David (convenhamos, esse foi duro de aguentar), Davison tinha a complexa missão de reproduzir esses três álbuns ao vivo. Apareceu no palco com um visual hippie, a la Woodstock ’69, remetendo ao Yes dos primórdios. A seu favor, ele tinha o vigor da juventude e, com efeito, não fugiu de nenhuma nota.

Contra ele, obviamente, paira o espectro de Jon Anderson, cuja presença de palco e carisma são insuperáveis. Aí é batalha perdida e quem não conseguiu evitar comparações, deve mesmo ter se decepcionado, pois falta a Davison uma maior comunicação com o público. Quando ele não está cantando, parece perdido no palco, balançando lateralmente, como um joão-bobo. Mas o principal ele entregou: uma performance vocal tecnicamente perfeita. O resumo da ópera é que quem gosta do Yes clássico, aprovou.

O passado do Yes todo mundo sabe que é glorioso. Mas e o futuro? Chris Squire e Alan White foram ao programa do Ronnie Von e prometeram um novo álbum para 2014. Depois deThe Ladder (1999), o Yes entrou século 21 acomodado e se mostrou incapaz de olhar para frente. Acho pouco provável que eles consigam fazer um disco que consiga cativar os fãs e, ao mesmo tempo, soar ousado. Mas convém esperar. Se até Benoit David – que é fraco ao vivo -, não fez feio em Fly From Here (2011), Jon Davison pode fazer melhor. Ao vivo ele já mostrou que é bom. Agora resta saber se terá força para dar novo vigor à banda no estúdio.

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