Mesmo com pouco público, Live'n'Louder resgata heavy o metal no Brasil

Estadão

16 de abril de 2013 | 06h43

Marcelo Moreira

Bons shows, boa casa, boa organização. Só faltou o público. O Live’n’Louder foi o resgaste da autoestima dos músicos e apreciadores de rock pesado no Brasil por se tratar de um empreendimento de porte quase um ano depois do fracassado Metal Open Air, do Maranhão.

As desconfianças que surgiram quando a empresa Top Link anunciou a volta do festival para comemorar os seus 25 anos de atividades se dissiparam assim que o público entrou no Espaço das Américas, em São Paulo: lugar amplo, limpo, com seguranças e funcionários educados e bem treinados. Quem se dispôs a enfrentar o frio e a garoa desfrutou de sete horas de ótimo heavy metal.

Apesar de a iniciativa ter sido ótima e ter trazido esperança a um mercado massacrado pelo trágico festival maranhense, onde tudo deu errado graças ao amadorismo e um pouco de má fé dos organizadores, o Live’n’Louder acabou afetado por alguns problemas que outras edições do mesmo festival, ainda na década passada, não sofreram.

Parte do pouco público que compareceu – pouco mais de 2 mil pessoas, quando se esperava o triplo – reclamou do dia e do horário do festival. Com o último show marcado para as 22h30 – foi começar só às 23h45 -, muita gente foi embora sem ver a atração principal, o Twisted Sister.

Certamente o domingo chuvoso e friorento afastou roqueiros exauridos por uma semana cheia de atrações – Down, Foreigner, Carcass, Symphony X, Accept, The Cure…

A profusão de atrações internacionais em um espaço de seis dias foi outro argumento levantado pela imprensa especializada. De fato, com tanto show interessante na mesma semana, faltou dinheiro para o festival, a última atração de uma semana abarrotada.

Os ingressos do Live’n’Louder não eram exorbitantes, mas também não eram exatamente baratos, embora houvesse seis atrações. Por fim, uma reclamação geral: o Twisted Sister é legal e é uma instituição, mas faltou uma atração de maior peso, um grande headliner que mobilizasse o público – ou então alguma atração inédita no país.

O fato é que havia imensos vazios entre o público, e era possível caminhar facilmente de um lado ao outro da imensa casa de espetáculos. Quem desprezou o festival perdeu um grande evento. Não houve nada de extraordinário, mas o Live’n’Louder entregou o que prometeu: bons shows de música pesada e uma qualidade boa de som para as bandas.

O Molly Hatchet abriu o festival e surpreendeu todo mundo. Pouco conhecido no Brasil, a veteraníssima banda de southern rock acertou na escolha e fez um set pesado, com duas guitarras em fúria e um teclado malandro fazendo uma cama para o boogie dos sessentões.

Ninguém imaginava que eles teriam tamanho pique para engatar músicas legais e rápidas. A impressão que deu era de que se tocassem por quatro horas ninguém reclamaria. pena que tocaram para um público diminuto, por volta das 17h30.

O Sodom fez o de sempre a seguir, e agradou em cheio. Potente, insano e barulhento, o trio alemão mostrou que está afiado após 35 anos de carreira e acentuou mais o acento punk de seu thrash metal reto e veloz. Era uma maneira boa de marcar presença em um festival com atrações tão diferentes, mas uma mais pesada do que a outra. Agradaram bastante.

Os japoneses do Loudness foram os responsáveis pela situação mais complicada da noite. Desde a noite de sábado as redes sociais davam conta de que o vocalista da banda, o norte-americano Michael Vescera, não compareceria ao evento, mas ninguém esclarecia o motivo. O boato se confirmou apenas meia hora antes do show para o grande público: uma nevasca teria fechado o aeroporto de Nova York na noite de sexta-feira, e a reabertura ocorreu em momento que tornou inviável a vinda do músico.

Metal Church (Foto: Ivanei Salgado)

Sorte que havia um plano B: na madrugada de sexta para sábado, o vocalista Iuri Sanson, da banda gaúcha Hibria, foi encontrado e convidado a substituir Vescera. Teve tempo apenas de ouvir dez músicas da banda no voo entre Porto Alegre e São Paulo antes de chegar e ensaiar na tarde de sábado com os japoneses.

Surpreendentemente, Sanson deu conta do recado (não porque não tivesse condições, pois canta muito bem, mas por conta do improviso e do pouco tempo de ensaios. “Foi um pouco tenso quando me chamaram para ajudar. Amo Vescera,  é uma das minhas influências, seria uma honra substituí-lo, mas em cima da hora achei que fosse ser muito complicado. Até pensei em consultar alguns vocalistas para dividir a lista de músicas comigo, mas os que pensei estavam ou ocupados ou convalescendo de problemas de saúde. Resolvi encarar e deu certo”, afirmou o cantor ao Combate Rock.

Sanson contou com a ajuda de um monitor com as letras no chão, mas agitou bastante e deu vida á apresentação dos ótimos músicos japoneses, mas que tocam de forma estática e sem muita interação – será que fora as 40 horas de viagem ao Brasil que pesaram, mais o fuso horário? Seja como for, o guitarrista Akira Takasaki mostrou que ainda é um ás do instrumento mesmo beirando os 60 anos de idade e o Loudness longe do sucesso e da melhor forma.

O Metal Church veio em seguida, em muita demora, e fez o melhor show até então. Decididos a quebrar tudo, ensurdeceram a casa de shows com riffs certeiros e bases sólidas, misturando com perfeição o heavy tradicional e o thrash metal de San Francisco.

O destaque foi Ronny Munroe, o vocalista que demonstrou uma facilidade imensa ao cantar de forma gritada e rasgada, impressionando todo mundo. O grande destaque do set foi o hino “Watch the Children Pray”. Como o tempo era curto, não tocaram o clássico “Highway Star”, do Deep Purple.

Quem se deu mal com a montagem das atrações do festival foi o Angra. A banda brasileira, voltando de longo período de hibernação e sem vocalista fixo, teve que encarar uma plateia ensandecida por conta da excelente e muito pesada apresentação do Metal Church. Não seria fácil para ninguém, e não foi para o quinteto nacional.

Quem cantou foi Fabio Lione, italiano amigo de longa data e cantor das bandas Rhapsody of Fire, Vision Divine. Ele foi contratado no final do ano passado para cumprir as datas deste semestre e já disse que cantar com o Angra foi uma honra, mas que ele retorna aos seus projetos na Itália ao final de maio. Os 45 minutos do angra mostraram que Lione é excelente vocalista, mas que não combina muito com metal progressivo e melódico do Angra.

Começou bem com “Nothing to Say” e emocinou parte do público com a linda “Rebirth”, mas se mostrou um pouco ansioso ao enfrentar o público da cidade natal da banda. Não comprometeu em nenhum momento, e seu esforço foi reconhecido pelo público, mas não combinou. Parecia que faltava algo, e certamente os maneirismos e firulas vocais do italiano não ajudaram.

O show deu uma esfriada no ambiente e muita gente sentou no assoalho – afinal, quase todos estavam de pé e pulando havia mais de cinco horas. A escalação do Angra como segunda banda principal foi equivocada, diante das circunstâncias da volta do grupo e pelo tipo de som, inadequando para vir depois da pauleira do metal do Metal Church.

Apesar de ter 20 anos de estrada, o público da banda é bem jovem, e este público não compareceu como era esperado. A troca de equipamentos demorou um pouco, o que impacientou os fãs do Twisted Sister, que eram a maioria n o Espaço das Américas. Entretanto, a banda já entrou com o jogo ganho.

Previsível, adoradora de clichês e performática, conseguiu agradar a todos com seu repertório imutável com os dez grandes clássicos de sempre: “I Wanna Rock”, “We’re Not Gonna Take It”, “The Kids Are Back”, “S.M.F.”, “The Beast”…

Mas não há como negar: um show do Twisted Sister é um evento impagável e prazeroso. Ao vivo o hard rock dos álbuns se transforma em um competente hard’n’heavy, com guitarras muito altas e pesadas, assim como o baixo estrondoso.

Dee Snider, do Twisted Sister (foto: Ivanei Salgado)

Dee Snider ainda canta demais aos 58 anos e se mostra um líder entusiasmado, ainda que force um pouco nas piadas e na comunicação com a plateia – mas isso é perdoável, pois sabe o que faz e conhece como ninguém o seu público, apesar de ser apenas a segunda passagem da banda pelo Brasil.

O lado negativo foi o esvaziamento contínuo e progressivo do pouco público que resistiu até depois da meia-noite. Muita gente corria o risco de perder a condução para casa e muita gente tinha medo de perder a hora para trabalhar no dia seguinte. Nada disso parece ter afetado Snider, que mostrou profissionalismo exemplar, assim como os demais integrantes – e pareceu sincero ao agradecer aos que pagaram ingresso “numa noite fria de domingo para escutar heavy metal até tarde”.

Ele pode ser exagerado e gostar dos clichês oitentistas, mas não economiza na sinceridade e na lealdade aos fãs. Isso já é bastante e vale cada real gasto no Live’n’Louder. Diante das circunstâncias e do pouco público, não havia banda mais apropriada para encerrar o festival.

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