Menino de 8 anos é repreendido por ouvir rock pesado no interior de SP

Estadão

04 de agosto de 2011 | 06h10

Marcelo Moreira

O primeiro dia de aula do garoto Marcelo Corrêa Carvalho, 8, no colégio Ponto Alfa, em São José do Rio Preto (438 km de São Paulo) foi também o último. Seus pais decidiram mudar o menino de escola depois de ele ser repreendido pela diretora por gostar de rock. Marcelo é fã das bandas como Iron Maiden e roqueiros como Ozzy Osbourne.

Assim começa o texto da repórter Ellen de Lima, de São José do Rio Preto, em texto escrito especialmente para o portal UOL. Até que enfim apareceu uma vítima de discrimnação por ser roqueiro e que se dispôs a se identificar para denunciar esse crime.

Já abordei duas vezes esse assunto aqui no Combate Rock. A última vez foi na última segunda-feira, quando descrevi alguns casos discriminação também no interior de São Paulo. Leia o texto aqui. No começo do ano, relatei um caso bizarro que ocorreu em um colégio caro e supostamente liberal da zona oeste de São Paulo – leia este texto aqui.

Nos dois textos, para preservar a identidade das vítimas – em um caso a pedido dos pais, em outro por não ter autorização da família da vítima, pois nao tive acesso a entrevistas -, omiti alguns dados relevantes, até porque o que interessava mesmo era os fatos asquerosos de agressões e discrminação contra apreciadores de rock e de rock pesado. O texto na íntegra de Ellen de Lima no UOL pode ser lido clicando aqui.

O mais interessante nesta reportagem é que ninguém se omitiu. Os pais do garoto não esconderam a identidade e aceitaram falar de forma corajosa e até desafiadora.

Por outro lado, a diretora da escola não teve nenhuma vergonha de se expor e também deu declarações tentando justificar o porquê de ter chamando a atenção do menino de 8 anos que apenas gosta de rock.

Capa de "Born Again", do Black Sabbath, lançado em 1983. Esse LP foi banido de discotecas e bibliotecas de escolas particulares e faculdades de Guarulhos e da zona norte de São Paulo na época por causa de sua casa. Vinte e oito anos depois, o preconceito contra o metal continua

As explicações da diretora são importantes para exemplificar o quão retrógada pode ser uma parcela expressiva da sociedade, que discrimina uma criança por causa de seu gosto musical. Se uma criança é discrminada por isso, imagine então como devem sofrer os homossexuais, pobres e até negros em lugares tacanhas como o que vive o menino Marcelo.

E estamos falando de uma cidade de quase 430 mil habitantes ( a 440 quilômetros de São Paulo), que é o centro de uma das cinco regiões mais ricas do Brasil, e que sedia alguns dos projetos de ponta na área de tecnologia, saúde, agroindústria e medicina. Não se trata de um rincão perdido no interior do Nordeste ou do Centro-Oeste, onde o conservadorismo social e comportamental ainda domina o ambiente, assim como a religião ainda pauta o comportamento e as ideias. 

Que os nomes da escola, dos professores e da diretora sejam amplamente divulgados para que os pais saibajm exatamente onde estão colocando seus filhos para estudar – até para que não reclamem depois do patrulhamento, da discriminação e do autoritarismo.

Que tipo de ser humano esse tipo de “educador” está formando? Que tipo de gente esses “educadores” acreditam que sairão da escola? Como é possível que tais “educadores” nçao sintam vergonha de estar ensinando crianças a discriminar, a isolar e a seguir somente padrões de comportamento pré-estabelecidos?

Parabéns aos pais do garoto Marcelo por denunciar o abuso e o preconceito. E tomara que sejam estimulados a buscar na justiça algum tipo de reparação por conta do dano moral que sofreram.

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