Meio século de rock’n'roll com Erasmo Carlos

Estadão

13 de junho de 2012 | 22h00

PEDRO ANTUNES

Erasmo Carlos hesita alguns segundos e, por fim, responde: “Bicho, pensar que completo meio século de estrada é um tanto assustador”. As contas do Tremendão começam em 1961, quando assinou seu primeiro contrato profissional com a gravadora Mocambo. Tinha 20 anos e era membro da banda The Snakes. No ano passado, com os 70 anos recém-completados, ele se deu uma homenagem, com a gravação do CD e DVD ao vivo 50 Anos de Estrada, uma parceria entre a gravadora Coqueiro Verde e o Canal Brasil.

O palco não poderia ser mais simbólico e, por que não, transgressor. A apresentação se deu no Theatro Municipal do Rio, com Erasmo acompanhado por uma banda mezzo roqueira, mezzo erudita. O trio Filhos de Judith, os guitarristas Dadi e Billy Brandão, o baixista Pedro Dias e o baterista Alan Fontenele formam o lado rock’n’roll; o maestro e tecladista José Lourenço comanda uma orquestra de cordas de 12 músicos, entre violinos, violas e violoncelos. “Coloquei champanhe no feijão”, brinca Erasmo.

O registro do show realizado em julho de 2011 só chegou às lojas agora, quase um ano depois, causando uma certa confusão na discografia do Tremendão: a apresentação registrada finalizava a turnê do disco Rock’n’Roll, de 2009. Pouco depois, Erasmo lançou seu novo álbum, Sexo, e passou a excursionar com um novo repertório. “O show é parecido, mas colocamos músicas novas.”

São cinco décadas de rock’n’roll, meio século de atitude controversa e respostas ácidas, cinquenta anos de guitarra a tiracolo e pé na estrada. Falando de Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro o músico, ídolo da Jovem Guarda ao lado de Roberto Carlos, mantém o bom humor quando explica por que tem aversão à palavra “carreira”. “Eu prefiro falar que são 50 anos de estrada, bicho. Carreira é algo para executivos formados, burocratas, profissionais qualificados. Estrada tem a ver com poeira, é muito mais rock”, define. “E carreira, hoje em dia, é mais ligada à cocaína, né, bicho? (risos)”

Erasmo garante que diariamente vê vídeos de bandas novas na internet pelo Youtube, ouve canções no Myspace, está ligado nos comentários do Twitter, mas não consegue citar nenhum nome de novo talento que tenha lhe chamado a atenção. É um dinossauro num mundo tecnológico. Sua presença, ativa e criativa, na cena musical tem sabor vintage. Mostra às novas gerações como se pode viver do rock com dignidade.

Hoje é possível lançar um disco usando apenas um computador e alguns programas de edição; na contramão disso, Erasmo comemorava seu início de carreira quando as gravadoras ainda eram importantes – o único caminho entre músico e público. “O problema dessa geração é exatamente esse. É essa massificação. Qualquer turminha de colégio grava, banda que toca em festinha, incentivada pela família. E tudo fica perfeitinho com esses programas. Perfeito, afinado, ninguém erra. E a emoção está no erro.”

O erro e a espontaneidade estão presentes nesse novo registro comemorativo, principalmente quando Roberto Carlos, uma das participações especiais ao lado de Marisa Monte, sobe ao palco para cantar Parei na Contramão e É preciso Saber Viver. Os dois batem um longo papo, contam divertidas histórias ao público como amigos num bar de esquina. Ambos aos 70 anos, ambos com cinco décadas entre palcos e estúdios.

“Assusta, claro, mas também enaltece”, diz Erasmo, voltando ao tema do início da entrevista. “É difícil pensar que a vida está mais curta. Mas também é bom perceber que cheguei a essa idade e ainda estou bem”. Sentado à beira do caminho, Erasmo percebe que tem ainda muito o que fazer.

LANÇAMENTO
‘50 Anos de Estrada’
Coqueiro Verde
Preços: R$19,99 (CD) e R$ 24,99 (DVD)

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