'McCartney era autoritário no estúdio', diz pesquisador

Estadão

03 de dezembro de 2010 | 16h16

Fabiana Caso

A última página do “Pequeno Livro dos Beatles” tem uma única ilustração e texto que ocupam todo o espaço. Adivinhe sobre o que é? Um show de sir Paul McCartney, que o autor assistiu em dezembro de 2009 em Paris. “Foi muito caro e muito bom, com a exceção dos violinos sintéticos de ‘Eleanor Rigby’”, escreve no livro o pesquisador Hervé Bourhis.

“É difícil expressar a sensação. É sempre comovente ver um gênio em ação”, diz ao Estado. Confira a opinião desse pesquisador incansável sobre outros aspectos.

Você acredita que se propagaram estereótipos equivocados sobre Paul McCartney, como o de ele agir como uma espécie de capitão dos Beatles?

Ele era autoritário no estúdio, sim. E isso rendeu obras-primas. Sem ele como ‘capitão’, tudo teria ficado parado depois da morte de Brian Epstein em 1967. Não teríamos o Sargent Peppers. Lennon estava muito envolvido nas drogas para dirigir um grupo. Ele também precisava ser dirigido.

Como você vê o papel de Paul no grupo? Quais são suas qualidades e defeitos nos momentos mais decisivos?

McCartney sempre foi o melhor instrumentista dos quatro. No começo, isso ficou em segundo plano porque Lennon era o criador, o líder natural. Desde o começo, a parceria de ambos foi supercriativa, mas até 1965, pode-se dizer que Lennon era o melhor.

Apenas que desde “Yesterday” há um equilíbrio progressivo. A partir do álbum “Revolver”, de 1966, Paul é o motor do grupo, e assim será até o fim. Ele é o mais criativo e trabalhador dos quatro músicos. Não tenho grande coisa a censurar, com exceção de algumas canções melosas e insípidas, como “Maxwell’s Silver Hammer” ou “Ob-La-Di”, “Ob-La-Da”.

Quais as facetas menos conhecidas de McCartney que você descobriu durante a pesquisa?

Costuma-se dizer que John Lennon era uma alma atormentada, um filho de operário, um ‘working class hero’. Mas Paul perdeu sua mãe quando tinha 12 anos. E vinha de um meio mais pobre do que John, que foi criado por sua tia em um belo bairro.

John era sem dúvida um personagem muito atraente, um gênio criativo, mas a imagem do Paul gentil e que fez álbuns solo ruins é falsa. Além disso, à parte os dois primeiros álbuns de John Lennon em 1970 e 1971, que são inegavelmente obras-primas, os seguintes são suficientemente medíocres, desleixados e bastante complacentes.

E depois dos Beatles? Como descreveria Paul McCartney?

Ele continuou hiperativo, sempre procurando um meio para se renovar. Ele tem sempre o mesmo amor pela música, sempre trabalha em seus instrumentos. Aos 68 anos, Paul me evoca o artista Pablo Picasso que trabalhou até o seu último dia, aos 93 anos.

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