Max Cavalera não entrega tudo o que promete em autobiografia

Estadão

25 Setembro 2013 | 06h49

Marcelo Moreira

Dois astros do rock transtornados pelo passado, incapazes de superarem o trauma de uma separação. Dave Mustaine, do Megadeth, expôs toda a sua frustração por ter sido expulso do Metallica em 1983 e narra em sua biografia, recém-lançada no Brasil, como esse fato marcou a sua vida e como ainda o atormenta, por mais que o Megadeth também tenha conhecido o sucesso. De forma corajosa e sincera, o guitarrista coloca para fora todas as mágoas e não atenua os erros que cometeu, mas deixa claro que a sua saída do Metallica determinou quase tudo o que ocorreu em sua trajetória nos últimos 30 anos. Contraditório, culpa esse fato por suas cabeçadas e problemas.

Max Cavalera, ex-Sepultura, segue uma trilha semelhante em sua autobiografia, também recém-lançada no Brasil. “My Bloody Roots – Toda a Verdade Sobre a Maior Lenda do Heavy Metal Brasileiro” deixa claro o quanto as feridas da separação do maior nome do heavy brasileiro ainda não foram curadas – e de como esse fato ainda influencia a vida do artista, que parece incapaz de livrar da sombra da ex-banda, assim como Mustaine.

Os dois guitarristas optaram por um texto coloquial e ligeiro, sem muito tratamento e demonstrando uma urgência enorme para expor as angústias na tentativa de se livrar dos fantasmas. O problema deste tipo de escrita é que o texto às vezes soa cru demais, confuso, contraditório e quase ilegível, por mais que os tradutores brasileiros tenham se esforçado. Mustaine ainda teve o auxílio do jornalista e escritor Joe Layden em “Mustaine”. Não é muito bem escrito, mas mantém certa elegância e consegue transmitir a ferocidade e a fúria do líder do Megadeth em relação às mágoas do passado.

Cavalera não teve o mesmo sucesso. Mesmo com a consultoria do venerável Joel McIver, vererável jornalista autor de biografias ótimas, como “Sabbath Bloody Sabbath”, do Black Sabbath (lançada no Brasil), o guitarrista e líder do Soulfly decidiu ele mesmo assumir a pena e escrever a sua história. Também mostrou coragem ao se expor na questão dos vícios em álcool e remédios, coisa que poucas pessoas sabiam. Não escondeu nada a respeito de suas internações para reabilitação e do impacto negativo que causou em sua família.

Entretanto, a impressão que se tem é que o livro não passou por uma “edição”, ou seja, não teve o olhar de um profissional de editora que apontasse problemas e que deixasse a narrativa mais redonda, com a união das pontas soltas – e, é claro, faltou uma interferência maior de McIver para deixar o texto mais leve, mais solto e mais bem escrito. Um do méritos do livro é que foi escrito com paixão e com energia, na medida em que as lembranças surgiam. Mas esse também é o seu pecado, já que o texto linear e bruto às vezes atropela a própria narrativa, deixando sem explicação fatos importantes ao longo do do livro.

Outro defeito que é derivado da paixão com que o livro foi escrito é que às vezes o fígado assume o lugar do cérebro, deixando com que as mágoas tomem conta da narrativa e ditem o ritmo da leitura e a direção dos fatos. Mustaine, pelo menos, teve a sabedoria de reconhecer que tal situação certamente ocorreria e que tentaria freá-la, seja se contendo para não agredir verbalmente amigos e adversários, seja se desculpando de antemão.

Max passou por cima deste detalhe e deliberadamente deixou a raiva tomar conta em determinados momentos, especialmente quando se refere ao baixista Paulo Júnior, a sua vítima predileta no livro. Mesmo reconhecendo que era um “amigo” no início da banda, o guitarrista não perdeu a chance de espalhar pela obra que o baixista não sabia tocar – e insinua que ainda não sabe. “Eu e Andreas (Kisser) gravamos os baixos nos álbuns até ‘Chaos AD’, de 1993, a pedido do próprio Paulo”, diz Max, não segurando a ironia. Então como assim? Como é que uma banda do porte do Sepultura, que poderia ter se tornando tão grande quanto o Slayer, por exemplo, mantém um instrumentista que não sabe tocar por nove anos, até a gravação de “Chaos AD”? Ele não explica, e nem fez esforço para isso.

A raiva cresce quando Max resolve desancar as então esposas dos integrantes do Sepultura. Patrícia Kisser até que foi poupada, mas Monika Bass Cavalera, ex-mulher de Iggor Cavalera, o baterista, não. A ela coube a carga pesada de xingamentos e de culpas por parte expressiva de xingamentos e até mesmo baixarias, em uma deselegância extrema. “Nunca gostei dela, acho até mesmo que ela deu em cima de mim, e acabou ficando o Iggor. Graças a Deus eles se divorciaram”, escreve o guitarrista, para depois usar um adjetivo pouco lisonjeiro a respeito do comportamento dela.

A ironia vira desprezo quando ele cita que Monika se tornou a empresária do Sepultura – até hoje ela é a empresária da banda, e de outras mais, por meio da empresa Base 2 Produções. “Essa mulher tanto fez que finalmente conseguiu pegar o lugar de Gloria (Cavalera). Pena que ela não tenha qualificação. Com pode uma assistente de dentista virar empresária de uma banda que um dia já foi importante?”, escreve Max, ao se referir à profissão da ex-cunhada, dentista de formação.

Gloria Cavalera, norte-americana, se tornou empresária do Sepultura em 1989, e dois anos depois assumiu o relacionamento com Max – estão juntos até hoje. Supostamente teria sido ela o motivo da saída do guitarrista em 1996, e aí está o maior defeito do livro, que prometia esclarecer a verdade sobre a separação da banda. Pouco é esclarecido ou desvendado. Na verdade, pouco é explicado.

Max dá a entender que Andreas Kisser, o outro guitarrista, tinha ciúmes por dar menos entrevistas que o líder, e culpava Gloria por isso. Também não deixa claro por que os outros integrantes, incluindo o irmão Iggor, decidiram não renovar o contrato empresarial com Gloria em dezembro de 1996. Ou seja, não explica quais eram as restrições da banda ao trabalho dela. Tenta convencer o leitor que Gloria já tinha decidido que não ficaria com o grupo após dezembro de 1996, mas o fato é que os outros integrantes também já tinham decidido a mesma coisa. Essa contradição não é explicada.

Kisser e Iggor são surpreendentemente poupados de maiores críticas. Em relação a Iggor faz sentido, pois eles voltaram a se falar após dez anos, em 2006, são amigos e companheiros de banda no Cavalera Conspiracy. Iggor deixou o Sepultura no começo daquele ano. Kisser, por sua vez, tido como o maior opositor à volta da formação clássica do Sepultura (ao lado de Monika Cavalera), é tratado com certa condescendência, mesmo tendo sido inflexível em relação ao rompimento com Gloria Cavalera.

Uma explicação sobre este comportamento é a tentativa de poupar Kisser de críticas pesadas na esperança de que o guitarrista concorde com uma reunião da formação clássica, já que efetivamente é o líder do Sepultura hoje. Max narra que desde 1996 teve “uma ou duas conversas” com Kisser, onde o assunto de uma volta, mesmo que temporária ou para um show único foi levantado.

“Ele me pareceu ter gostado da ideia, foi receptivo, mas as coisas nunca andaram. Vou parar com isso, cuidar da minha vida e deixar as coisas caminharem. Não depende mais de mim”, escreve Max em outro trecho. O problema é que desde 2010 ele fala frequentemente sobre o assunto – “todo mundo me pergunta sobre a volta, sou educado e respondo sempre”.

Não conseguiu convencer de que não dá muita bola para o assunto – é exatamente o contrário, a julgar pela mágoa e raiva com que toca o assunto, inclusive com mais deselegância ainda, ao “decretar” que o Sepultura está “afundando cada vez mais, sem credibilidade e com pouca criatividade”. Ou seja, quer uma reunião da formação clássica, mas não faz questão nenhuma de facilitar as coisas, distribuindo farpas, alfinetadas e xingamentos sem muita preocupação. O Sepultura é um assunto muito mal resolvido para Max Cavalera 17 anos após a separação.

Sepultura no final dos anos 80 (FOTO: DIVULGAÇÃO)

De novidade mesmo, está uma descrição detalhada e interessante sobre a trajetória importante do Soulfly, hoje inegavelmente importante no cenário internacional – há quem diga que tem mais prestígio do que o Sepultura. Estão no livro todas as formações, como foram gravados os álbuns, quem participou como convidado e quais os conceitos que nortearam as principais letras de músicas do período.

Ao descrever a morte do enteado Dana (que tinha assumido o sobrenome Cavalera, como todos os enteados, exceto a mais velha, Christina), em agosto de 1996, aparece uma outra novidade, que já circulava como boato entre profissionais do heavy metal nacional e internacional: uma fraude para acelerar o funeral do garoto, morto em um acidente de carro, para que a banda pudesse retomar mais rápido às turnês.

Segundo Gloria Cavalera, em depoimento ao livro, ela, Max e Christina voltavam da Inglaterra para Phoenix (EUA) no avião particular de Ozzy Osbourne para cuidar dos trâmites de liberação do corpo e para fazer o funeral. Durante o sobrevoo no oceano Atlântico, Christina ligou para a funerária e descobriu que alguém da família pedira para o corpo ser liberado para “acelerar os procedimentos”. Quem fizera isso? “Christina, a irmã mais velha”, informou o funcionário da funerária. Enlouquecida, Christina berrou para que tudo fosse interrompido, pois ela era Christina e estava em um avião sobre o oceano naquele momento.

Na versão de Gloria, uma mulher ligou e se passou por Christina para acelerar os procedimentos, a mando de “uma esposa de um integrante do Sepultura”. A mulher seria uma amiga íntima dessa “esposa” que Gloria não quis identificar – só existem duas opções, Patricia Kisser e Monika Bass Cavalera, já que Paulo Júnior não era casado na época. O motivo: fazer tudo rápido para que a carreira do grupo sofresse o menos possível e os shows fossem retomados.

Monika Cavalera, Andreas Kisser e Paulo Júnior mantêm silêncio a respeito do livro. Tem sido assim ao longo de 2013, quando Max mais de uma vez reclamou em entrevistas que não obtém respostas sobre a possibilidade de reunião, com as costumeiras farpas. Monika prefere ficar longe de qualquer polêmica a respeito de Max, mas respondeu ao Combate Rock a respeito dos ataques contidos no livro – Max a chamou de “piranha”: “Nada do que sai da boca dele me surpreende, absolutamente nada. O cara já está fora do ar há muito tempo, deixe-o achar que é o ‘MAXimo’. Quem conhece a história sabe quem realmente escreveu o livro.”

“My Bloody Roots” é um livro importante por se tratar da única obra a respeito do Sepultura com credibilidade, já que foi escrita por seu fundador, ainda que tenha problemas evidentes e que não tenha um grande texto, “estilisticamente” falando. Pela primeira vez Max Cavalera fala de forma franca sobre sua vida e sua ex-banda. Pena que não entregue tudo o que promete.

 

Mais conteúdo sobre:

Max CavaleraSepultura