Max Cavalera desiste do Sepultura: 'Não há mais clima para reunião'

Estadão

07 de outubro de 2013 | 06h54

Marcelo Moreira

Nunca houve uma real possibilidade de haver uma reunião da formação clássica do Sepultura, a banda brasileira de rock de maior expressão internacional. E, provavelmente, haverá chances ainda menores após a publicação da autobiografia de Max Cavalera, “My Bloody Roots”, recém-lançada no Brasil pela Ediouro. “Não há clima para isso ocorrer atualmente, e acho que jamais ocorrerá devido a inúmeros obstáculos. Percebi há algum tempo que não existe vontade por parte dos integrantes atuais da banda e de seu estafe administrativo”, disse o músico em entrevista exclusiva do Combate Rock por telefone, direto do Estado da Louisiana, nos Estados Unidos, em plena estrada durante a turnê de lançamento do álbum “Savages”.

Resignado e conformado, Max desistiu de procurar os ex-companheiros e acredita que foi melhor assim. “Tentei anos atrás, como narrei no livro, uma reunião, mesmo que para um show, com a formação clássica. Não preciso disso, queria fazer pelos fãs. A Gloria (Cavalera, esposa e ex-empresária da banda) me colocou ao telefone com Andreas Kisser (guitarrista e líder da banda hoje). Ele pareceu animado com a hipótese, disse que via bons olhos, mas aparentemente ignorou a história, nunca mais tocou no assunto. Então chega, o Soulfly sempre foi a minha prioridade e terá toda a minha atenção.”

O guitarrista e vocalista do Soulfly entrou em contato com o Combate Rock em razão da repercussão do lançamento do livro no Brasil e também da resenha realizada por este jornalista. Pela importância da banda e por ser o primeiro livro abrangente e com credibilidade sobre a história da banda, a obra apresenta algumas lacunas e o artista tentou esclarecer as dúvidas. Uma de suas preocupações era o fato de que sua mulher, Gloria Cavalera, ex-empresária da banda, continuasse a ser vista como um dos principais motivos para o rompimento entre os integrantes – “uma tremenda injustiça, em sua opinião”.

Logo de cara, para justificar a ausência de mais informações sobre a parte mais importante do livro, a separação do Sepultura em dezembro de 1996, Max revela que, por contrato (assinado para formalizar sua saída do grupo), está impedido de dar detalhes sobre os motivos e os trâmites que formalizaram o rompimento. “Claro que há sempre o risco de a Gloria, minha mulher e ex-empresária, continuar sendo injustiçada nesta história, de continuar sendo vista como o pivô da ruptura. Não posso dizer muito mais do que está no livro, mas o fato é que houve um esfriamento das relações entre os outros três integrantes e ela no segundo semestre de 1996. Coincidiu com a morte do meu enteado Dana. Não falavam mais com ela e não diziam os motivos disso. Houve algumas coisas sobre ciúmes porque os jornalistas só queriam falar comigo, as revistas só queriam a minha foto nas capas. Houve também reclamação de que ela não tinha escritório, trabalhava em casa, meio que no improviso, o que é mentira. Queriam uma empresa grande de management, grande, de nome. Uma enorme injustiça, já que ela trabalhou demais pela banda, de madrugada. Se não fosse por ela dificilmente teríamos alcançado o sucesso mundial.”

Assim como já havia atacado a ex-cunhada Monika Bass Cavalera (que foi casada com o baterista Iggor Cavalera) no livro, Max mira novamente nela no episódio da separação da banda. “Não sei quais eram as reclamação ou restrições quanto ao trabalho administrativo da Gloria. Nunca apontaram um fato específico, como má administração, perda dinheiro, essas coisas. Nunca me disseram nada. O que sei é que a Monika tinha ciúmes e inveja, ambicionava o posto de empresária da banda, o que finalmente conseguiu, mesmo não sabendo nada do assunto, não tendo nenhuma experiência e nenhuma qualificação para tal. Até hoje não tem, e a consequência clara é que o Sepultura praticamente sumiu no cenário internacional. Mas ela finalmente conseguiu o que queria e se tornou a empresária depois dos fracassos com profissionais que já trabalharam com Slayer e Motorhead. Por isso é que acredito que jamais haverá qualquer reunião da formação clássica.”

Então as esposas influenciaram diretamente na separação do Sepultura? “Sim. Monika pressionou no sentido de que havia problemas administrativos e de que eu era privilegiado pela Gloria e creio que teve o apoio de Patricia (Kisser, mulher de Andreas). O clima ficou ruim e as intrigas naquele período só pioraram as coisas. A Gloria já queria parar de trabalhar com a banda, contra a minha vontade, mas foi péssimo eles me colocarem contra a parede, dizendo que eu teria de escolher a Gloria ou a banda, pois ela seria ‘demitida’. Foi surreal, foi como se a seleção campeã do mundo de futebol demitisse o técnico vitorioso logo em seguida da conquista do título. O Sepultura estava no auge.”

Outra revelação que não está no livro: Max tem uma ponta de arrependimento por não ter brigado pela posse da marca Sepultura quando da separação, para obrigar a banda a seguir com outro nome. “Eu e o Iggor criamos a banda, eu a batizei e posso dizer que era o compositor mais prolífico, e que trazia as melhores ideias. A banda era o meu filho, foi duro vê-la seguir sem mim. Deveria ter registrado o nome Sepultura em meu nome, mas não tinha cabeça para isso, queria seguir o meu caminho – de certa forma, foi até bom não encarar nenhuma batalha judicial, seguir em paz. Mas, por outro lado, pensando 17 anos depois, creio que poderia ter brigado pelo registro da marca. Aliás, o Iggor poderia ter feito isso em 2006, quando saiu, mas acho que ele queria também apenas cuidar da vida dele, diante do esquema complicado que tomou conta da banda.”

Em relação ao Paulo Júnior, o baixista, o líder do Soulfly manteve o que está escrito no livro – que ele tocava muito mal e que os baixos gravados nos álbuns até “Chaos A.D.” (1994) foram executados por Max e Andreas. Mas como pode um cara que toca mal ficar tanto em uma banda como o Sepultura, que se tornou gigante na década de 90? “Ficou por amizade e porque éramos íntegros, não queríamos demitir um amigo de infância, de escola, que cresceu com a gente. Hoje percebo que foi um erro, deveríamos tê-lo dispensado. Falávamos que ele tinha de estudar mais, praticar mais, mas não evoluía. Tínhamos de ter tomado uma atitude. E depois ele vem anos depois dizer que eu tinha de sair da banda por causa da minha esposa? Como assim?”

Max assegura que não quis atacá-lo gratuitamente no livro, mas apenas contar como as coisas realmente ocorreram no início da banda. “Recentemente perguntaram ao produtor Andy Wallace qual foi o maior obstáculo que ele enfrentou em mais de 30 anos de gravações de álbuns de rock. Ele não teve dúvidas: cravou o procedimento de convencer Paulo Júnior a gravar o baixo em ‘Chaos A.D.’ e fazer com que saísse direito. Ele tomou aquilo como missão, para que o Sepultura fosse uma banda realmente no estúdio, conseguiu fazer o cara gravar direito nota por nota, mas deu muuuuuito trabalho.”

Monika Cavalera, Andreas Kisser e Paulo Júnior mantêm silêncio a respeito do livro. Tem sido assim ao longo de 2013, quando Max mais de uma vez reclamou em entrevistas que não obtém respostas sobre a possibilidade de reunião, com as costumeiras farpas. Monika prefere ficar longe de qualquer polêmica a respeito de Max, mas respondeu ao Combate Rock a respeito dos ataques contidos no livro – Max a chamou de “piranha”: “Nada do que sai da boca dele me surpreende, absolutamente nada. O cara já está fora do ar há muito tempo, deixe-o achar que é o ‘MAXimo’. Quem conhece a história sabe quem realmente escreveu o livro.”

Ele não descarta uma revisão da obra no futuro, em novas edições, para acrescentar fatos ou explicar melhor muitas coisas que ainda, aparentemente, precisam de respostas. O problema é que isso necessita de tempo e de “mais memória, para evitar esquecer coisas legais e importantes”. Um exemplo seria algumas impressões mais detalhadas da cena brasileira de metal dos anos 80 – muitos colegas daquela época reclamaram que ele pouco valorizou o metal nacional, citando apenas, e muito de leve, Ratos de Porão, Dorsal Atlântica e Korzus. “É muita coisa para lembrar, e o foco do livro não era esse, óbvio. Quem sabe mais para frente. Eu respeito muitíssimo a cena brasileira, como Korzus, o Krisiun, que é excelente, o Torture Squad, o Oitão…”

O novo álbum do Soulfly

Enquanto saboreia – e toureia – a repercussão de sua autobiografia, segue em turnê pelos Estados Unidos promovendo o álbum “Savages”, recém-lançado, pesadíssimo e inspirado, provavelmente o melhor de seus nove álbuns com o Soulfly. Diz estar feliz com o seu momento atual musical e que, com o livro, está deixando o Sepultura cada vez mais no passado.

Mas uma coisa ele faz questão de fazer em uma eventual revisão de edições futuras do livro: incluir a passagem que julga fantástica abrindo os shows dos Ramones no Brasil em 1994, naquela que se tornou a turnê de despedida dos punks norte-americanos. “Foi possivelmente a turnê mais legal que já fiz com o Sepultura. Tudo foi legal, mágico, antológico. Jamais poderia ter esquecido de mencionar na autobiografia.”

 

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