Matanza lota grande casa de show e mostra o caminho para o metal nacional

Estadão

15 de julho de 2013 | 07h05

Marcelo Moreira

Muitas bandas de heavy metal nacional continuam procurando o público para os seus shows cada vez mais vazios. Cadê o povo que gosta de rock pesado? E só perguntar para os integrantes da banda carioca Matanza. Mesmo com a mudança quase de última hora da bem localizada Seringueira, no limite da Barra Funda com a Água Branca (zona oeste), para o longínquo e pouco conhecido Espaço Victory, na Penha (zona leste), o grupo conseguiu colocar mais de 3 mil pessoas e superlotar a casa de shows.

O fato foi tão inusitado e impressionante que o vocalista da banda, o veterano Jimmy London, não se conteve e falou aos microfones: “Não posso crer que às 3h da manhã, na zona leste de São Paulo, mais de 3 mil amigos vieram ver ma banda carioca, que não toca sempre em São Paulo. Nem dá para acreditar.”

O show ocorreu no fia 7 de junho e teve a abertura da boa banda paulistana Velhas Virgens. Muitos se apressaam em dizer que o show só teve o público grande porque ocorreu na zona leste, carente de atrações de qualidade, ainda mais na área roqueira. Balela. A maioria dos ingressos já tinha sido vendida antes mesmo da mudana do local, devido a problemas da Seringueira com os documentos exigidos pela Prefeitura de São Paulo.

O Matanza é o grande exemplo para todas as bandas que querem ampliar seu público no Brasil: trabalha muito, toca em qualquer lugar, respeita o público acima de tudo e encara as dificuldades sem frescuras. Não que outras bandas não façam o mesmo, mas é que, em muitas delas, especialmente no heavy metal, ao volume de reclamações é inversamente proporcional à “quantidade” de esforço.

O público está al, lá e em vários lugares. Não tomou conhecimento de uma distãncia maior para ir ao show, mesmo em uma casa pouco conhecida pelos roqueiros. Encarou o chato atraso das duas bandas – o Matanza subiu ao palco às 2h30 – e curtiu dois shows pesados e divertidos. E teve ainda disposição pra gastar R$ 40 (no dia do show, na bilhetera, R$ 70). O Shadowside, de Santos, em sua primeira apresentação completa em São Paulo, em maio, cobrando R$ 40, atraiu pouco mais de 300 pessoas no Via Marquês.

Matanza arrebentando em show recente no Rio de Janeiro (FOTO: ARQUIVO DO PERFIL OFICIAL DA BANDA NO FACEBOOK)

É verdade que o show teve uma divulgação bem acima da média em relação aos eventos do mesmo porte. A banda Matanza conta com uma certa estrutura que permite manter uma agenda de apresentações mais recheada do que a dos concorrentes. E já teve gente desdenhando em fóruns e chats ela internet, com bobagens como “só lotaram o lugar porque têm estrutura, têm tudo fácil”.

O próprio Jimmy London responde a idiotices como essa, ao comentar a carreira da banda em entrevista ao Combate Rock no fim de maio passado: “Estamos conseguindo uma frequência de shows muito boa, coisa que perseguimos ao longo de 20 anos de carreira. Nesse tempo a gente aprende alguma coisa, a como se virar em um mercado tão hostil, que é vítima de preconceito e de amadorismo ao mesmo tempo. Nunca tivemos apoio de ninguém, nunca conseguimos benefício de poder público, nunca caímos nas graças de executivos de gravadoras ou de televisão. Tudo o que fazemos hoje, e ainda hoje, é por nossa conta e por nosso risco. Não lotamos nenhum Maracanã, mas temos um púbico fiel e cativo que nos carrega há 20 anos.”

Portanto, dizer que o Matanza tem “facilidades” para atrair público soa como uma imensa provocação. Com uma carreira consistente, ainda que cheia de percalços, os integrantes do grupo começam a aproveitar alguns benefícios dos 20 anos de ralação por palcos de bares, botecos e festas de interior.

A simplicidade e o trabalho duro na estrada, bem longe das mordomias que as fugazes estrelas pop de dois ou três hits desfrutam, mesmo com a porcaria de música que produzem. E o Matanza está conseguindo desfrutar, ainda que pouco e em níveis incomparavelmente mais baixos do que ainda se vê no trágico show business atual.

Mesmo assim, o grupo ainda é underground, e ainda disputa “no tapa” espaço com bandas de rock igualmente boas, como Motorocker, Carro Bomba, Baranga, Velhas Virgens, Tomada, Pedra e outras de qualidade, mas que também estão bem longe do sucesso pré-fabricado e artificial das paradas.

O Matanza conquistou credibilidade justamente pelo trabalho bem feito (ainda que os resultados só estejam aparecendo recentemente) e pela simplicidade e por manter a integridade de seu trabalho. Hoje leva muito mais público do que qualquer bandinha da safra emo da década passada – CPM 22, NX Zero, Restart e coisas semelhantes -, que lotaram espaços giantes por curtos períodos e hoje despencaram para níveis ms compatíveis com o tipo de som que fazem/fizeram.

Nem de longe conseguem a mesma plateia de quando eram apadrinhados por gravadoras loucas por sucesso fácil por meio de música de qualidade questionável e por produtores tidos como “magos das paradas” – gente que nunca passou de meros prestidigitadores que achavam que enganariam todos o tempo todo. Na verdade, comparar Matanza com as bandas citadas é uma suprema heresia, e uma grande sacanagem com a banda de Jimmy London.

O exemplo está mais do que escancarado e explícito. O Matanza parece ter encontrado, a duras penas e depois de anos, a fórmula para atrair – e manter – um público bem razoável pra seus shows, especialmente em São Paulo e na Região Sul do País. E a fórmula não é mágica: muito trabalho, respeito ao público e músicas minimamene decentes. Além de menos choramingos, é claro.

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